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Agromais: cultivando confiança na agricultura

Nasceu em 1987 no coração do Ribatejo e já leva mais de 30 anos de existência. A Agromais é a maior organização de produtores de cereais e hortícolas do país. Um verdadeiro caso de sucesso no panorama agrícola português e uma das grandes referências do setor.

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Agromais

12 nov 2018, 15:13

 A indústria é um meio em constante desenvolvimento. Portugal tem vindo a destacar-se pela abrangência e profundidade da sua indústria, demonstrando cada vez mais o distinto conhecimento técnico dos seus profissionais e dos vários setores da atividade.

 

 Estamos no ano de 2018. O país atravessa um período de enorme expansão turística e de verdadeira aposta no produto português. Seguindo a premissa da valorização do que é nacional, fomos à descoberta do que se faz na Agromais, uma cooperativa sediada em Riachos, no distrito de Santarém.

 

 

 

 A agricultura é uma actividade que existe desde os primórdios da humanidade. Fosse pela aposta na pecuária ou a partir da utilização do cultivo, o Homem sempre utilizou este meio como forma de sustento. A aposta numa agricultura sustentável é hoje um dos objectivos mais prementes das organizações agrícolas, que têm vindo a apostar nesta forma de lavoura como meio de subsistência dos seus solos, nunca exigindo à terra mais do que ela pode dar.

 

O agricultor é o primeiro interessado em que a sua exploração seja sustentável porque é da terra que vem o seu rendimento, realça o Diretor-geral da Agromais.

 

 A sustentabilidade é um dos valores que diferencia a Agromais das outras organizações, o que se tem mostrado determinante no sucesso desta empresa que surgiu pelo ano de 1987, aquando da adesão de Portugal à então CEE (Comunidade Económica Europeia).

 

 A ideia surgiu de três pessoas com uma visão muito perspicaz e estratégica sobre o poder da região do Ribatejo. Estas três pessoas criaram a Agromais com o apoio de um grupo alargado de agricultores da região, com o objectivo de organizar a produção, até aí exclusivamente controlada pela EPAC – Empresa Pública de Abastecimento de Cereais.

 

 

Jorge Neves, Diretor-geral da Agromais, afirma que atualmente os associados da Agromais exploram um total de cerca de 10 000 hectares de terreno, que vão rodando entre diferentes produções. No início, a aposta da empresa incidia exclusivamente na produção de milho, tendo posteriormente introduzido outras culturas, como a batata ou a cebola. O milho teve um crescimento muito grande até 2014, por via do aumento dos preços mundiais, o que fez com que áreas que já não produzissem ou que nunca tenham produzido milho tivessem começado a fazê-lo. Contudo, em 2014 esta situação sofreu um revés. Os preços têm vindo a cair, o que fez com que a produção também tenha decrescido, pelo que agora o milho apresenta áreas de produção semelhantes aos anos de 2008 ou 2009.

 

A terra continua a ser um bem apetecível, apesar de caro, diz Jorge Neves.

 

 Também para Luís Grifo, Area Sales Manager da Pioneer, empresa parceira da Agromais, a agricultura em Portugal atravessa uma fase complicada, que poderá talvez ser motivada pelo fator competitividade, pois não é possível ombrear com outros países como os EUA ou outros do Leste da Europa, por exemplo. O responsável pela delegação sul da empresa de sementes encontra na Agromais um exemplo de sucesso e até de paradoxo, destacando o associativismo dos colaboradores.

 

 Ainda segundo o mesmo, uma das características diferenciadoras da Agromais é a aposta na qualidade das sementes, algo que também parte desta parceria com a Pioneer. Esta necessidade surge do facto de os “agricultores da Agromais terem uma média de área de cultivo relativamente pequena quando comparada com o resto do país”.

 

 

Hoje em dia, a Agromais fornece a maioria dos tubarões da indústria alimentar, sendo o maior produtor de milho nacional (cerca de 25% da produção do país) e um dos maiores armazenadores de batata e cebola. Com base num monopólio comercial que ronda os 530 milhões de euros nos seus 30 anos de existência, a Agromais continua a ser uma referência no panorama agrícola nacional.

 

 Do leque de projetos que a Agromais desenvolve, a aposta na responsabilidade social e numa agricultura cada vez mais sustentável afiguram-se como fatores diferenciadores. Para Jorge Neves, a responsabilidade social “faz a diferença porque (a Agromais) é uma organização da região”.

 

Os anos que passaram foram duros para muita gente e era preciso dar algum sinal de que também sabemos quem precisa, reforça o dirigente da empresa.

 

 São de destacar quatro, dos projetos/parcerias que a Agromais desenvolve: a “invenção” do milho-pipoca, o “Projeto Restolho”, o compromisso no pagamento pontual e a aposta no desenvolvimento jovem.

 

 O projeto do milho-pipoca surge no ano de 2012, fruto de uma parceria com a distribuidora de cinemas NOS Lusomundo, abrindo um novo mercado para os produtores, com a inserção de uma variedade de milho exclusiva para a transformação em pipoca. Além de proporcionar o controlo da produção quantitativa e qualitativa desta nova estirpe, este projeto permite a redução da pegada de carbono do produto, acionando a responsabilidade social da empresa.

 

 

 

 Outro projeto socialmente relevante é o Restolho. Assumindo-se como um “projecto diferente”, esta iniciativa visa o aproveitamento das colheitas que já não serão comercializadas. O principal objetivo é contribuir para o combate ao desperdício alimentar, apoiando quem mais precisa. Segundo a organização, foram distribuídos 16.593kg de alimentos no ano de 2017, resultado de várias ações que reuniram mais de 700 voluntários no seu total. Já para Luís Grifo, o Restolho “é uma forma inteligente de auxiliar e contentar a todos, porque há culturas com muito desperdício”.

 

É a nossa forma de combater o desperdício, indo buscar os produtos que ficam no campo só porque não têm especificação para serem comercializados, enfatiza Jorge Neves.

 

 Uma das grandes razões de sucesso da Agromais é a durabilidade da relação com os seus colaboradores, algo que só pode ser sustentado por um enorme compromisso salarial e de seriedade entre as partes. A Agromais “assume a importância do verdadeiro sentido social”, sendo por isso uma empresa reconhecida pela ACEGE, pelo “Compromisso Pagamento Pontual”. Este certificado reconhece que a Agromais paga a tempo e horas aos seus colaboradores, algo indispensável das relações laborais.

 

 É também a aposta na juventude e na atividade física algo que preocupa a Agromais. A empresa apoia todos os escalões etários do Rugby Clube de Santarém. Com base no slogan “Raízes fortes para crescer em equipa!”, a parceria tem como grande objetivo a promoção da atividade física entre os jovens da região. Além disto, a Agromais patrocina o prémio do Quadro Valor e Excelência académica das escolas secundárias da Chamusca e da Golegã, assim como de todo o Agrupamento de Escolas de Aljustrel e Ferreira do Alentejo.

 

 

 Adulta, responsável e segura de si, a Agromais, conta com mais de 30 anos de história, carimbados pela excelência e qualidade dos produtos e serviços que prestam. “Faz parte do nosso ADN”, afirma Jorge Neves. O futuro? A agricultura foi durante muitos anos o “parente pobre” da sociedade e agora está na moda. A Agromais mantém-se firme, mesmo com todas as adversidades. O Diretor-Geral da empresa mostra-se confiante no trabalho desenvolvido pela cooperativa, que afirma continuar a fazer cada vez mais e melhor pelos seus agricultores, defendendo que “na agricultura, alguém tem que dar o primeiro passo. Esse é e sempre será o nosso compromisso para com os nossos associados.”

 

 Segundo um estudo de 2017 do INE (Instituto Nacional de Estatística), existem grandes melhorias na área de cultivo, bem como na especialização e qualificação da mão-de-obra agrícola. Contudo, importa ressalvar que menos de 10% dos agricultores apresentam uma escolarização correspondente ao ensino superior.

 

O futuro passará muito pela profissionalização dos agricultores, afirma Jorge Neves.

 

 No entanto, a falta de mão-de-obra, seja ela qualificada ou não qualificada, tem vindo a dificultar a vida às organizações agrícolas, e a Agromais não escapou impune. O Diretor-geral da empresa diz que é “muito difícil” arranjar pessoas para trabalhar, o que até já obrigou à contratação de estrangeiros como solução para o problema. Embora a Agromais ofereça todas as condições aos seus colaboradores, cumprindo o que está estipulado por lei, têm surgido alguns casos que se destacam pela negativa. A aposta em mão-de-obra estrangeira, muitas vezes ilegal, é amplamente agravada pela precariedade das remunerações oferecidas a estes trabalhadores. A maioria destes não possui sequer visto de trabalho, sujeitando-se a qualquer emprego onde o rendimento esteja abaixo do estabelecido por lei.

 

 Também o envelhecimento da população agrícola (média de 55 anos) é algo que se tem mostrado evidente com o passar dos anos. No entanto, há uma concertação para que se possam atrair novas pessoas e novos conhecimentos para a organização. É portanto expectável que continuemos a ver a Agromais na vanguarda da agricultura portuguesa, continuando a aposta numa atividade de qualidade, inovação e sustentabilidade. Esta mesma sustentabilidade é para Luís Grifo um dos grandes focos da agricultura do futuro. O combate à erosão dos solos e a manutenção da qualidade da água torna-se relevante, ainda mais numa zona com grandes indústrias como o Ribatejo.

 

 

 A ajuda contínua aos seus produtores, a melhoria das suas produções ou uma maior facilidade no acesso ao mercado são alguns dos pontos que marcam a agenda futura da Agromais. Jorge Neves considera importante a consciencialização dos consumidores. Neste ponto, refere que “os consumidores estão muito mais alerta para os benefícios do consumo de vegetais”, o que faz com que a horticultura seja também uma das áreas de aposta nos próximos anos, acompanhando as tendências do mercado.

 

Temos um conjunto de agricultores muito coeso, que dão muita importância ao papel da sua organização e têm orgulho nela, refere o Diretor-geral da empresa.

 

 Neste trilho rumo ao sucesso, a Agromais caminha lado a lado com os seus associados, e é com eles que quer continuar a escrever esta bonita história. “Projectos como o Restolho nunca seriam possíveis sem a ajuda de várias partes”, realça Jorge Neves, destacando o papel dos seus colaboradores, assim como das várias empresas e entidades intervenientes, tais como a Agrotejo e a Universidade Católica Portuguesa.

 

 Em 30 anos de existência, a Agromais confunde-se com a história da agricultura em Portugal, sendo um exemplo de inovação e de aposta na diversidade. Soube sobreviver e reinventar-se, mesmo nos tempos mais negros da atividade. É certo que continuará na vanguarda da agricultura portuguesa, contribuindo para o aprimorar aquilo que Luís Grifo considera até ser um “case study”.