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André "O" Valente

A história de um rapaz a quem a vida não tem sorrido sempre, desde o nascimento até aos dias de hoje. Apesar de tudo, não deixa de sorrir, gosta da vida mais do que qualquer coisa.

18 dez 2016, 18:39 Mário Serra
8 FOTOS: André
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André

18 dez 2016, 18:08

“Posso dizer sinceramente que acho que a minha mãe não me ama

 

As palavras são do André, de olhos postos no fundo da sala, dedos no queixo... ficou nervoso. Com a voz embargada, continua, “quando amamos uma pessoa fazemos de tudo para estar com ela”. Sentado na sua cadeira de rodas, o André diz isto e logo há um pequeno silêncio. Parece resignado, triste, confuso, mas logo o seu sorriso abre, para dizer que felizmente tem um grande pai. De um momento para o outro, parece que não aconteceu nada. Não há espaço para remorsos, apenas gratidão.

 

Esta é a história de um menino a quem a vida tem colocado obstáculos, mas que já é uma inspiração, um exemplo de força e preserverança, de um menino que nunca pára de sorrir.

 

André Valente, 18 anos, nasceu com apenas 25 semanas de gestação e 800 gramas de peso. Por motivos desconhecidos, a gravidez não correu como esperado, obrigando o então pequeno André a fazer jus ao seu apelido, mas que poderia ser um cognome: Valente.

 

Carlos Valente, 53 anos, é o pai do André. Conta que sempre quis ter um filho menino, já que antes tivera duas meninas. Assim foi. O orgulho que sente da resiliência do seu “pequenino herói” vem desde há muito tempo. Não foi fácil lidar com tantas emoções naquele momento tão delicado. Como pai, assegura que naquele momento a qualidade e intensidade do amor para com o André, “não diminiui de forma alguma, talvez até se tenha fortalecido um pouco mais”.

 

É um amor que o André sente, com muito orgulho o destaca, mas já lá vamos. “Quem me dera poder levar a sua carga”, pedia o pai há 18 anos, confessando que ainda pensa nisso. Mas o André, pela força que tem, já se sabia que traria um significado maior à vida, à dele e à do pai. “O André é um filho querido que ajuda a dar sentido a uma vida, que sem ele seria subtraída de uma enorme riqueza”. O filho tem sido um verdadeiro companheiro do pai, um grande amigo, aliás, todas as pessoas com que nos cruzámos enquanto procurávamos mais informações sobre o André, dizem isso mesmo: é um grande amigo. 

 

Sempre que possível, o André é o meu companheiro de jornada, em todo o ‘tempo’ e circunstância estamos juntos, ‘somos o André”, conclui o pai orgulhoso.

 

O André estava de fato de treino, na cadeira de rodas, na sala de educação, à espera. Recebe de braços abertos, de quem esperou o dia inteiro por aquele momento. Sempre com um sorriso na cara, um pouco nervoso. Visões muito positivas, mão no queixo e pescoço enquanto pensa nas respostas às perguntas difíceis...

 

Não se lembra muito da sua infância. Conturbada, por sinal. Tem poucas memórias de quando vivia com a sua mãe, que o abandonou. Vivia com ela porque a sua escola ficava perto de casa, só estava com o pai aos fins de semana. Aos 7 anos foi retirado da guarda da mãe, pela protecção de menores, e foi entregue ao pai. Uma acção que o André crê ter-lhe salvado a vida. Nunca percebeu o porquê da sua mãe não ser isso mesmo: uma mãe. São “traumas” que ficaram na sua memória, que o marcariam (e continuam a marcar) até aos dias de hoje.

 

Não vivo com a minha mãe, isso causou-me alguns traumas na infância, que perduram até hoje. Os traumas não desaparecem, estão lá sempre. A minha mãe nunca teve uma ‘pessoa fixa’, isso ainda hoje me faz muita confusão 

 

Conta com uma expressão de quem não entende um passado que custa a ultrapassar, dúvidas que levam anos sem resposta. Percebe-se que isso ainda o magoa, mas por incrível que pareça, não mostra detestar aquela pessoa que deveria ter cuidado de uma criança com necessidades importantes.

 

Apesar da sua tenra idade, é alguém com um percurso de vida marcado por superações e de uma enorme força de vontade. Alguém a quem a vida tem pregado algumas “rasteiras”, mas o André, qual herói, sempre se motivou a ultrapassá-las. Nunca se queixou, prefere valorizar a vida. O ídolo dele, por força do futebol, é o Cristiano Ronaldo. Mas o que ele mais admira não são os golos nem as fintas, talvez porque de golos e fintas já o André saiba muito, tantas foram as vitórias que já alcançou. O que ele mais admira no seu ídolo é a sua capacidade de superação, algo que faz parte do dia-a-dia dele.

 

Eu sei que tenho limitações, mas acho que tudo se consegue com muito trabalho, tal e qual como o Cristiano Ronaldo conseguiu. Tento superar-me acima de tudo, pôr as minhas metas ‘para cima’, para poder superar os meus problemas”, confessa entusiasmado, afinal de contas a conversa foi “dar” ao seu ídolo.

 

O André nasceu com paralisia cerebral. Segundo a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, este é um fenómeno que acontece a 2 bebés por cada 1000 nascimentos. Trata-se de uma perturbação do controlo da postura e movimento, que resulta de uma lesão ou anomalia cerebral que atinge o cérebro em período de desenvolvimento. Alguns têm perturbações graves, que afectam a parte física e motora, outros têm limitações ligeiras, que podem causar impacto a andar, falar ou usar as mãos. É o caso dele.

 

O pai nunca se amedrontou com a tarefa de criar uma vida boa a um filho com necessidades especiais, num momento delicado da vida de um ser humano que acabou de chegar a este mundo. Muito pelo contrário. A partir desse momento soube que o seu papel na vida do filho seria fundamental. “Senti que o André, com a ajuda de Deus na sua vida, iria ser um vencedor e que eu teria uma parte muito importante nesse processo. Senti também que o amor é incondicional”, diz o pai orgulhoso, mostrando por palavras, mas acima de tudo por acções, que o amor que sente é inquebrável, cada dia mais forte.

 

Sempre soube da minha condição, sabia que era diferente dos outros, não sabia era porquê...”, afirma o André.

 

Fica desanimado. Percebe-se, e é natural, que lhe custa falar do passado. Mas continua: “comecei a entender umas coisas, depois comecei a entender outras, se não fosse o meu pai as coisas tinham descambado”. Descobriu por ele, e pelo pai. Raiva. Muita raiva. “Senti raiva, chorava muito, ‘porque é que sou diferente?!’, e não arranjava forma de ser igual aos outros mesmo sendo diferente”. Queria incluir-se, agora que conhecia qual era a sua limitação. “Mesmo sendo diferentes podemos ser melhores que os outros noutras áreas”, e ri-se, como se estivesse a desvalorizar tudo o que disse 15 segundos antes. O André é assim, sempre de olhos postos no futuro.

 

Sentiu que as pessoas olhavam para ele de forma diferente, principalmente na escola. Local onde as crianças começam a desenvolver a consciência, e onde as relações são por vezes difíceis, traumáticas, cruas: há pouco filtro nas palavras.

 

As pessoas diziam: ‘epá, lá vai o deficiente’, ‘olha o couxo’, etc. Diziam isso na minha antiga escola, na escola básica e na primária”.

 

O André conta que se sentia triste, tal como se sente a contar estes episódios. Mas, como sempre fez, desatou a rir e desvalorizou. Entusiasmado, “aconchega-se” na sua cadeira de rodas, junta as mãos, como se estivesse a “preparar alguma” e continua a história, “no 5º e 6º ano ainda fazia queixas à professora, cheguei ao 7º ano e dizia-lhes: ‘ah vocês andam aqui a gozar comigo? Venham aqui que agora sou eu que vou brincar com vocês, venham cá dizer isso outra vez!’. Comecei a defender-me à minha maneira, andava à ‘porrada’ com eles”. A sala riu-se, ninguém esperava aquela resposta. Perante a reacção de quem assistia à conversa, continua: “Tinha de andar à porrada de vez em quando, metem-se comigo e eu não ia fazer nada?”, como que a justificar os seus actos. Não é preciso, André. Mas teve muita graça.

 

Hoje em dia, já nada disto acontece. Pelo contrário, até já arranjou uma namorada! Conta, meio envergonhado, que a conheceu através da Internet. “Chama-se Benazir, ela é muçulmana, daí esse nome”, conta o André, enquanto as bochechas começam a ficar encarnadas. Namoram há quase 1 ano. Continua o raciocínio, e atira prontamente (não fosse alguém mencionar isso) que sabia dos “riscos” de conhecer alguém pela “net”. “Sabia dos riscos que isso podia trazer. Porque mesmo que a gente diga ‘ah é segura’, ‘é segura’, mas há sempre os perfis falsos... e eu pronto, arrisquei-me a isso, apesar de não poder vê-la frequentemente...” A namorada tem raizes indianas, por isso também sabe dizer algumas palavras Hindis, como “amo-te” ou “olá”, o que confessa dar jeito quando se tem uma namorada assim. Se dá...

 

O André está no secundário, na área de Línguas e Humanidades , adora a disciplina de História, que para ele é fundamental “para nós sabermos e podermos ensinar as gerações vindouras, para elas poderem aprender”. A escolha por esta área é fácil de perceber, o André explica: “quero ser jornalista. Sempre tive paixão pela televisão e gostava de entrar para a área de ‘pivot’ jornalístico e poder apresentar o telejornal. Gostava também de poder ir para a rádio fazer relatos de futebol, uma coisa que gosto muito”.

 

O pai não se opõe de forma alguma, pelo contrário, mostra-se disposto a lutar em conjunto com o filho. Fala quem tem conhecimento de causa nas qualidades do filho. “Acredito nesse sonho, pela sua vontade de descobrir e pela sua criatividade. Se é o sonho do André, também é o meu sonho”.

 

Parece que está escolhida a área na Universidade, “Comunicação”, atira o estudante “quase universitário”.  Adora relatar futebol, conta que isso o ajuda a ocupar os tempos livres. Desde pequeno que o faz, os amigos chamam-lhe o “relatador-comentador”, tantas eram as vezes que solicitavam os seus comentários. Curiosamente, a “estrela” do seu corredor, diz que a fama não é o que move, gostava de fazer rádio para que lhe digam um dia “olhe, gosto muito do seu trabalho!”. Fala da sua vida de forma alegre e entusiasmada, nota-se que tem gosto em contar coisas sobre si, tudo seria ainda melhor, não fosse um “pequeno” pormenor...

 

Alcoitão. É aqui que o André tem estado nos últimos meses. Ele não mora aqui, este é o local do Hospital onde ele está internado há meses, ou anos, depende da perspectiva. É que a primeira vez que ali foi internado, estávamos em 2014. Ficou lá 1 mês e 1 semana. Em 2015, veio o segundo internamento, mais 1 mês. Como se não bastasse, ainda veio o terceiro e o quarto, já este ano. De Março a Julho, pausa, de Outubro até... aos dias de hoje. Tem sido quase uma segunda casa para ele, mas ali tem “uma família”, como ele diz. Está inserido no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão (CMRA), devido a um problema no joelho, que o obriga a andar de cadeira de rodas. Um problema que poderá ter começado numa negligência médica, já que o André foi injectado nos membros inferiores com uma toxina, no local errado. Tratou-se de um acto de negligência, que fez com que o André desenvolvesse um problema no joelho que o incapacita de andar neste momento. Nada que abale a confiança dele, a sua única mágoa é a primeira operação não ter corrido bem, só à segunda foi como esperado. São estes momentos que mostram a força de um “miúdo”, que tem tudo para se lamentar, mas nunca, nunca mesmo, o faz.

 

Quem se lembra bem do caso do André é a Mariana, enfermeira que acompanhou o André nos últimos meses. Enquanto enfermeira, esta era a primeira experiência em pediatria: “acho que só me apercebi da realidade e da exigência que iria sentir quando entrei lá pela primeira vez”, lembra a jovem enfermeira, orgulhosa do caminho que traçou. Recorda-se bem do 1º dia em que o conheceu. Foi precisamente no primeiro dia de trabalho, “por norma é o dia em que estamos mais nervosas”. Apesar de ser uma ala de pediatria, com muitas crianças, não é fácil lidar com tantos casos, pois “a realidade vivida por aquelas crianças choca muito”. Afirma que na sala de enfermagem tem acesso a uma lista com o nome de todas as crianças, com a patologia e o motivo de internamento: reabilitação e conquista da indepedência.

 

Mariana lembra-se do momento em que viu o nome dele ao lado da palavra “paralisia cerebral”. Nem queria acreditar, “fiquei logo sem chão...” Começam a surgir muitas questões, como vai ser o tratamento, quais as limitações... Porém, com nada tinha de se preocupar. De forma errada, imaginou alguém que teria dificuldade em tomar banho, vestir, pentear, enfim, coisas do dia-a-dia, pensando que ele estaria acamado ou numa cadeira de rodas, muito limitado. Quando descobriu que estava muito longe da verdade, que a sua paralisia não o limitava em quase nada, ficou surpreendida. Mas o melhor é ela contar:

 

Tive a oportunidade (e privilégio) de cuidar dele durante um bom tempo. Nunca olhei para ele como um menino com limitações ou diferente dos outros. Porque ele não o é...”, diz de forma carinhosa e quase emocionada. É difícil falar do André e não sorrir, é precisamente isso que a Mariana faz antes de continuar a história: “Toma banho sozinho (ai de nós aparecer na casa de banho!), alimenta-se muito bem e sozinho (o ‘rei’ do refeitório, as crianças adoravam os pratos vegetarianos dele), estuda, tem um canal no ‘Youtube’ (o nosso senhor relatador) e lê, mete-nos a um canto nesse departamento”, conta enquanto olha de forma carinhosa para o rapaz de quem cuidou durante meses.

 

O André tem o dia-a-dia organizado: toma o pequeno-almoço, faz tratamento à perna logo a seguir, às 9h da manhã. Faz exercícios de fortalecimento, “mas para mim ‘é andar’ (literalmente), porque já passei essa fase”. Depois disso, há um tempo livre, que utiliza para se colocar de pé: quer estar preparado para quando começar a andar. Se ele fosse um jogador, isto poderia ser o que se chama “jogar na antecipação”. Tudo controlado. Tem um canal no Youtube, que utiliza para fazer relatos e lê, lê muito: “leio um site de escritores amadores... em 3 meses li 15 livros. Quando começo a ler, parece que tudo se apaga. Podem estar a chamar-me que eu nem oiço!”. Depois, como qualquer pessoa da sua idade, vai “ao computador e ao telemóvel, até aguentar o tempo necessário”.

 

Como sempre fez com tudo na vida, também encontrou um ponto positivo na fisioterapia que faz todos os dias: a piscina. Gosta muito, é um sitio onde pode fazer força sem se “preocupar com alguma coisa que esteja a doer, visto que estou dentro de água. Também acabo por me divertir, visto que à partida não vamos à piscina todos os dias, e haver esta piscina terapêutica é bom”. O André, apesar de tudo o que já se passou na sua vida, arranja sempre espaço para a gratidão. “Sou um privilegiado por poder estar aqui, porque muitas pessoas querem... Há muitas pessoas que querem vir para aqui fazer tratamentos e nem todas conseguem, e eu sou um privilegiado por estar aqui”.

 

Também Carlos Valente salienta a grande oportunidade que é ter um filho naquela unidade hospitalar, pois os apoios do Estado não são regulares, difíceis de alcançar e de manter, obrigando esta família a ir à “luta” quase sozinha.

 

As máquinas dos sistema não conseguem produzir um trabalho em ‘série’ e por vezes nem se consegue chegar a entrar no circuito. Triste também, é que por vezes deveriam ser assumidas algumas responsabilidades, que muita facilidade e frieza se declinam, como se de um material se tratasse.”

 

O pai lamenta ainda que não tenhamos interiorizado “o calçar os sapatos do outro”. Carlos sabe que esta é uma experiência complicada, pelo que “gostaria muito que o André não tivesse de passar por esta experiência, mas quem sabe ela mesma fará dele alguém maior.” Todas as dificuldades têm sido exponenciadas pela falta de apoios, faltas que “provocaram no André um retrocesso tremendamente prejudicial ao seu bom desenvolvimento, o que realmente é do direito de qualquer ser humano. Graças a Deus que chegámos a Alcoitão”.

 

A entrevista decorre sempre com um sorriso nos lábios, mesmo nas perguntas mais complicadas, nota-se a determinação do André, de quem tem uma força inabalável para ultrapassar os seus desafios. Sim, desafios, o André não tem problemas nem dificuldades, pelo menos não é assim que ele vê. Para sermos rigorosos, o André vê nas adversidades uma oportunidade para quebrar barreiras, para estabelecer objectivos mais elevados. É a sua determinação: fica contente com o que já atingiu mas quer mais, sempre mais. Tem sempre uma visão muito positiva com tudo, justifica-se dizendo que tem “uma família grande, que me ajuda quando eu preciso, em todos os aspectos”.

 

Houve momentos em que sentiu a necessidade de se incluir. Não estando excluído pela sociedade, é alguém que tem barreiras por quebrar, apesar de já ter derrubado muitos muros. Confessa que houve dias em que não foi fácil. “Queria fazer um certo tipo de coisas e por causa da minha deficiência as coisas não eram tão simples, e as pessoas gozavam, diziam ‘ah tu não consegues, tu isto, tu aquilo’, é complicado”, diz desiludido, enquanto gesticula, como se se relembrasse dos momentos. Mas há um local onde o André tem outra família, para além da sua e a do hospital: a Igreja. “Nós somos todos muito unidos, quando há algum problema nós oramos uns pelos outros, vamos visitar pessoas, já me vieram visitar a mim. Fui a casa há 2 semanas e toda a gente ficou contente por eu voltar, abraçaram-me... é uma coisa boa, as pessoas gostam umas das outras, é bom quando somos acarinhados. Não olham para os nossos problemas, olham para a pessoa que somos”, diz de coração cheio, é também um homem de fé.

 

De todos os sonhos que tem, ser jornalista, pai de “2 ou 3 filhos”, criar uma família e “ensinar-lhes tudo o que o meu pai me ensinou”, entrar na universidade - conta com o apoio da família. Tanto do pai, como da madrasta. Uma pessoa que considera como sua mãe. “Gosto dela, ajuda-me em tudo o que pode, compra roupa para mim, etc... tenho pais muito protectores e eu também o sou com as outras pessoas”. Confessa que só não consegue dar-lhe beijinhos... porque apesar de gostar muito dela, sabe que não é a sua mãe.

 

Quanto ao pai, dá um exemplo curioso, mas que em tudo demonstra o apoio e o amor que nutrem um pelo outro. Com humildade (uma constante) diz que “não é para me gabar do meu pai, mas há uma coisa que o meu pai faz e que eu vou fazer com os meus filhos: o meu pai levanta-se a meio da noite só para ir ver se estou tapado, se não estou ele vai lá e tapa-me.” Olha nos olhos, como que a pedir atenção, e continua: “’ah mas isso qualquer pai pode fazer’, pois mas eu sei que nem todos fazem e há pessoas que nem têm um pai, e eu tenho um que é tão bom para mim...”. Não chega, há mais para agradecer, para mostrar admiração, mostra que já pensou em muita coisa ao longo destes anos, nunca se cansa de agradecer ao pai, pois “se calhar se não fosse o meu pai, podia nem estar aqui hoje, estar num orfanato... O meu pai cuidou de mim quando a minha mãe não quis. Estou muito grato, fez o seu dever de pai e isso tocou-me”, relata com a ternura que o caracteriza, para logo depois sorrir muito.

 

O apoio da família é fundamental, continuará a necessitar de cuidados, o importante é o amor que se transmite. O pai sabe que terá sempre de proporcionar um cuidado especial, mas acima de tudo quer “proporcionar-lhe todas as ‘ferramentas’ e estratégias necessárias ao bom desenvolvimento e rumo da sua vida, mostrando-lhe as dificuldades, mas sobretudo que: ‘um rio chega ao mar, porque aprende a contornar os obstáculos'. Para mim, todos os cuidados com o André são especiais, mas particularmente, que eu consiga amá-lo como ele merece e fazê-lo sentir essa realidade”, conta Carlos Valente, de forma carinhosa e determinada.

 

São estas ferramentas que têm permitido ao André ter uma vida estável, de tal forma que nunca chumbou de ano! Mais um exemplo de alguém que luta todos os dias contra as adversidades, a preserverança que tem feito dele um aluno empenhado, mesmo quando passa muito tempo internado. São ferramentas que têm permitido combater a barreira do pessimismo, seja quanto aos traumas, ou mesmo as operações. É algo de que o André se orgulha: “trabalhei que nem um ‘louco’, perdi aulas, e depois corre mal a operação... Não queria fazer outra, mas fui, e por agora está a correr tudo bem”. Os traumas, esses ficaram para trás, é isso que o tem feito “andar para a frente rumo aos meus objectivos”. Um desses objectivos é entrar na Universidade. Quando se fala em obstáculos, estes podem também ser físicos...  De tal forma que já condicionaram a escolha da Universidade.

 

“Gostava de ir para a Universidade Nova de Lisboa, porque é a que tem todas as acessibilidades que eu preciso. A faculdade de letras, por exemplo, não tem. Tem degraus para subir. Até pode ser boa, mas se não tiver tudo o que preciso, não entro ali. Sei que a Universidade Nova tem média altas mas vou trabalhar para atingi-las”, diz determinado o aluno com média de 12. Sabe que é preciso mais, mas para um miúdo que não tem feito outra coisa se não lutar por si, não deverá ser um problema atingir uma média mais alta. Na “Universidade da vida” é um aluno de mérito, trabalhador. Tal como o seu ídolo, Cristiano Ronaldo, quer superar-se, trabalhar muito: “vou estudar, dedicar-me, e estou disposto a passar noites sem dormir, desde que eu consiga chegar ao meu objectivo...”. A força que tem faz-nos ver que não há limites para ele.

 

Pudera, o André tem uma família que o ama, que o ajuda. Tem muitos amigos, e outra família no hospital. Todos juntos têm contribuido para que ele ultrapasse as suas dificuldades. O André agradece todos os dias, talvez por saber que quanto mais grato for, melhor será a sua vida, melhores serão os pequenos momentos que o fazem sentir querido. “Às vezes um simples gesto, as pessoas virem visitar-me... Ocupam aquele dia ou aquela hora para isso, quando eu podia estar a relembrar determinados momentos que aconteceram, essas pessoas vêm e ocupam aquele tempo, fazem-me feliz”.

 

Como é de esperar, o único momento em que o André não sorri, e admite ter raiva, é quando fala sobre a sua mãe. “A minha mãe abandonou-me e isso mete raiva a qualquer pessoa”, continua sem compreender. Admite que a mãe possa ter “problemas psíquicos, mas nesse caso dava a outra pessoa para tomar conta”, conta visivelmente magoado. Não a vê desde 2010, um reencontro que “não foi feliz. Ela chorou muito e sei que ainda chora”. Admite que sabia que iria passar anos sem vê-la, mas como já se percebeu, o André nunca mais ficará desamparado, pois terá sempre alguém que ficará junto dele, e a sua forma de estar diz isso mesmo, de alguém que é feliz, que está bem com a vida.

 

Não compreende o porquê de haver pessoas que fazem dramas por tudo e por nada, se bem que ele já é um guerreiro, talvez por isso ele não goste de dramas.... “A vida não traz só facilidades, se não aguentarmos os espinhos, também não colhemos as rosas”. A frase é bonita e passa uma mensagem forte. Mas a prontidão da sua resposta colocou a sala a rir, e a ele também, que percebeu que teria de acrescentar de onde vinha aquela frase: “Sim, sou poeta. Escrevo, tenho a minha página de poemas no ‘Facebook’. Faço tanta coisa, faço relatos de futebol, faço poemas, ainda dá para ajudar os outros, tenho tempo para a minha namorada e ainda sobra”, mas quem disse que o André era limitado? Faz muita coisa, mais que muitos, os elogios nunca são poucos.

 

Qualidades que não passam despercebidas ao pai, Carlos, que prontamente as enumera de forma assertiva, afinal de contas é o seu filho, quem melhor para contar? A descrição é completa, mas acima de tudo verídica, comprovada pelo André, por quem o vê e por quem com ele convive.

 

É um jovem sensível às  problemáticas das vidas dos demais, tendo as suas limitações e problemas de outra ordem, não se centraliza em si próprio, embora se note que sente os seus planos um pouco comprometidos, contudo não deixa de planear e tentar encontrar soluções para ajudar a mover “as cargas” do seu semelhante. É uma pessoa sensata, cordial, verdadeira, honesta e talvez por isso mesmo com relativa facilidade atrai amizades. Os princípios Cristãos que promovem uma correcta postura em qualquer lugar, circunstância ou situação, são um atributo, que sem dúvida valoriza a sua existência e convida ao seu companheirismo. Para além disso, é um criativo, mais propriamente na área da poesia.”, se fosse necessário um B.I da personalidade, estava encontrado.

 

O André é mais comedido, talvez por achar que fica mal o elogio em boca própria, mas considera-se “uma pessoa simpática, brincalhona, gosto de animar as pessoas, sou uma pessoa conversadora”. Se é, a conversa já dura há algum tempo e não damos pelo tempo passar.

 

Está na hora do anfitrião mostrar as suas instalações. Apressa-se a mostrar o sítio que tem sido a casa dele há muito tempo, mostra que sabe receber, ainda que a estrela naquele momento seja ele.

 

No corredor chamado “Avenida da Boa-Vontade”, há recordações natalícias feitas pelos miúdos, também pelo André, com luzes, enfeites, decorações a rigor.

 

Chegamos ao quarto do André, a cama do fundo é a dele, diz que é melhor que a de casa porque “sobe e desce, quando quero ler é um espectáculo”. Tem sempre comida escondida ao pé da cama, próprio da idade e de quem vive num hospital, ter as bolachas preferidas ali perto é sempre um aconchego ao estômago mas acima de tudo ao coração. Joga “PES” (videojogo de futebol) no computador, que está perto da cama, nos tempos livres. Conta que antes de ir para Alcoitão foi operado no hospital de Sant’ana, não foi algaliado desta vez, “não me vai algaliar pois não?!”, perguntou aflito às enfermeiras daquele hospital, “aquilo quando é para arrancar dói!”, exclama enquanto a sua cara parece reviver o momento em que lhe arrancaram o engenho.

 

Durante o passeio, vai contando que recentemente foi a casa, não ia à sua cama, de casa, desde Março, diz que lhe soube muito bem. Pudera, a nossa casa é sempre a melhor... Enquanto o André mostra o quarto dele, toca no fundo a música de Céline Dion “All by myself”... uma música triste, quase de propósito para chorar, muito mais naquele momento... A música até é bonita, mas só se pode pensar no quão errada é aquela banda sonora. Naquele preciso momento ele não está sozinho, nem naquele nem em nenhum. Tem pessoas que lhe enchem de alegria, que lhe dão amor incondicional, tal e qual como ele tenta fazer com os outros, sempre disposto a ajudar. O Pai, esse sim, a pessoa que ele muito ama, a quem não se cansa de agradecer, por isso Céline Dion, a musica é bonita, mas no quarto do André não fazes sentido, muito menos poderias fazer parte de uma banda sonora da vida do André, simplesmente não encaixa.

 

Continua a contar histórias, sempre muito conversador. Diz que tem muitos irmãos, tanto do lado do pai, como da mãe e ainda da madrasta. Ao todo, entre irmãos, meios irmãos e “irmãos emprestados”, são 8. Uma das suas irmãs do lado mãe, Daniela, que tem 6 anos,  confessa recear que lhe aconteça o que lhe aconteceu há uns anos: que ela seja abandonada - mas frisa que “se acontecer, é mais uma lição para ela (a mãe)”.

 

Conta que não tem falado com outra das suas irmãs do lado da mãe, a Soraia, que tem 24 anos, porque ela não lhe liga. Não é no sentido figurado, não lhe liga pelo telefone. “Nunca me liga, sou sempre eu a ligar”, conta indignado. “Eu ‘tou’ internado, também tenho coisas para fazer e ainda tenho tempo de ligar, só não temos tempo se não quisermos”, pois André, mas tu és um exemplo de alguém que é um poço de força, não podes esperar isso de toda a gente...

 

Mariana, a enfermeira, bem se lembra do poço de força que ele é. Principalmente naqueles momentos da fisioterapia que os miúdos não gostam, mas ele gostava.

 

Lembro-me dos momentos em que ele tinha de estar no ‘stand-in-frame’ (um aparelho que ajuda as crianças a estarem numa posição ortostática – ou seja, de pé), nunca se queixava. É um momento doloroso, e quantas não eram as crianças que choravam e imploravam para nós não as colocarmos lá... O André? Era menino para nos relembrar que já estava na hora! Às vezes era visível que estava a sentir dor ou desconforto, e mesmo assim nunca pediu para sair... Ele não desiste e não tem medo de lutar por aquilo que quer”, diz ainda com o ar surpreso, perante o olhar de confirmação do “seu” miúdo.

 

O André confessa que não conhece um caso parecido com o dele, mas admite que retira lições dos casos dos outros. O André é assim, há sempre espaço para mais uma lição, para ser um amigo. “Eu olho para as pessoas e penso ‘a outra pessoa pode estar muito mal, e eu ainda me estou aqui a queixar que estou muito mal, parece que o mundo vai acabar’ e há pessoas piores que eu”. Genial.

 

Não consegue dizer qual “o dia mais feliz” da vida dele. Porquê? “Porque todos os dias são mais felizes que o anterior”. Aproveita a deixa para relembrar, mais uma vez, a pessoa mais importante da vida dele: o pai. Quando fala no pai, tudo flui pelas palavras, como se estivesse a falar dele desde sempre, é cativante: “estar aqui (Alcoitão) é por intermédio dele, ele é que está a cuidar de mim, senão não estava cá. Estar com os meus irmãos que estão mais longe é por intermédio dele, devo tudo ao meu pai e a Deus também”. É um coração recheado do amor do pai e da fé, que o ajuda todos os dias.

 

O André é uma força naquele internamento. A melhor memória de todas é de o ver, a ele e ao colega de quarto, a fazerem corridas de cadeira de rodas pelos corredores fora. Ele não desiste, e nunca vai baixar os braços ou contentar-se com pouco. O André fez-me acreditar que tudo é possível, e é um dos responsáveis pelo meu interesse em seguir a especialidade de Pediatria”, conta a Mariana, uma enfermeira que se mostra sempre fascinada pelo miúdo que também já lhe ensinou muito, que a fez querer seguir o seu sonho, nesta área, de crianças.

 

Depois de tantos elogios ao André, é preciso saber uma coisa: mas afinal, o que é que ele gostava que as pessoas pensassem sobre ele? A reposta é um resumo de toda a sua vida, uma ideia transversal a todos os momentos da sua vida, do seu dia-a-dia; como uma janela que tem vista para o futuro: “Quero que pensem que o André é uma pessoa com muitos problemas, mas não se contenta com uma vitória só. A minha vida é baseada em vitórias a todos os níveis”.

 

O Pai, Carlos Valente, fala orgulhosamente no conhecimento que não seria possível sem o nascimento do André. 

 

Sinto sem dúvida que o André é um exemplo, não apenas porque é meu filho, mas porque me ensinou coisas que não conhecia nem nunca saberia que iria experimentar”, conta, em jeito de gratidão por tudo aquilo que o André lhe traz.

 

O corredor chama-se “Avenida da Boa-Vontade”, mas se este é o nome da avenida, o André mora na “Rua da força de vontade”. O positivismo dele é incrível e contagiante. Às vezes é preciso conhecermos pessoas assim para valorizar o que temos. Sei que o André quer ser jornalista, não sei se lhe pude ensinar alguma coisa sobre isso, já ele, se calhar sem se aperceber, dá lições de vida. Alguém que podia lamentar-se a toda a hora e nunca o faz, só agradece. Mas porque é que não podemos ser todos como ele? Bom, podemos argumentar que ele é diferente. Certo. É diferente porque talvez saiba melhor o valor da vida, o valor de ser feliz e de nos fazer felizes, nisso ele é diferente, para melhor. O André ensina-nos mais do que ele pensa, ensina o mais importante: aprender a viver, e ele bem que leva uma vida activa, mesmo num espaço fechado. Há pessoas que nasceram para sorrir e contagiar um sorriso nos outros, pois bem, agradecemos ao André por essa lição.

 

Agora, em jeito de conclusão, bom, o melhor é deixar ser o André a fechar este texto. Estas são as suas palavras, direccionadas às pessoas que ele quer inspirar. Se faz favor, André:

 

Gostava de inspirar as pessoas que são pessimistas, que acham que a vida não tem nada de bom. A vida tem muita coisa de bom, é preciso é saber aproveitá-la. Mesmo com dificuldades, a vida tem muita coisa de bom, é preciso é saber onde é que elas existem para irmos à procura delas. Mesmo que não estejamos felizes, é pôr um sorriso na cara que isso já anima o nosso dia, há coisas tão felizes que às vezes nos passam ao lado e nem conseguimos ver porque estamos tristes”.

 

Obrigado, André “O” Valente.