O mundo dos negócios
Miguel Pina Martins é o CEO da Science4you, uma empresa que lidera em Portugal no segmento de brinquedos infantis e revela como ser um empreendedor de sucesso
1 mai 2015, 20:20
Carolina Maçã: A Science4you resulta de um projeto académico no qual esteve envolvido. Quando, em 2008, decidiu implementá-lo alguma vez imaginou que alcançaria tanto sucesso?
Miguel Pina Martins: Não, não fazia parte dos planos! Aliás o nosso business plan até 2013 apontava para um milhão de euros anuais e, neste momento, o objetivo são fazer 12 milhões este ano. Resta saber se cumprimos esta meta ou não, mas o ano passado pelo menos dos 6 milhões e meio já não nos safamos! Mas, de facto, não tinha ideia de que iria ser assim… Obviamente que existia a ambição, mas não imaginei que seria num espaço de tempo tão curto que conseguiríamos alcançar esta dimensão… Não se pode dizer que é grande, mas a verdade é que, olhando para o mercado dos brinquedos em Portugal, já somos a maior empresa a operar.
C.M: E como é que surgiu a ideia de um projeto destinado a brinquedos científicos para crianças?
M.P.M: Na altura havia uma parceria, que eu presumo que ainda exista, entre a Faculdade de Ciências e o ISCTE. Naquele ano, uma das ideias chamava-se “kits de física” e, no sorteio de distribuição, foi esse o projeto que saiu ao meu grupo. Ficamos bastante chateados porque não era uma coisa muito interessante e ainda insistimos com o professor, pelo menos umas 10 ou 15 vezes, para que ele nos desse outro projeto! Lá viemos à Faculdade de Ciências, a muito custo, para ver o que é que eram então os tais “kits de física”… Quando chegamos e olhamos para eles achamos que eram piores do que aquilo que tínhamos imaginado! E depois como já estávamos naquela onda do “vai ter que ser ou então não terminamos o curso”, o que não era fixe, acabamos por fazer. Começamos por olhar para uma das características principais dos kits, que era terem na caixa o símbolo da Faculdade de Ciências e acabou por ser um bocadinho por aí… Nós pensámos: “ok, o símbolo aqui nos kits é giro mas nós não queremos fazer kits. Vamos ver o que é que conseguimos fazer em termos de brinquedos científicos aqui com o logótipo”.
C.M: O Miguel teve o primeiro contacto com os “Kits de física” no final da licenciatura, mas só alguns meses depois é que decidiu avançar para a criação da Science4you. Qual foi o motivo desse pequeno compasso de espera?
M.P.M: Foram 4 meses basicamente, um bocadinho mais porque depois ainda tivemos o apoio do capital de risco. Quando acabei o curso fui trabalhar na banca de investimento, depois saí e avancei com a Science4You… Entretanto também decidi começar o mestrado em gestão, e, como era em horário pós - laboral, era conciliável.
C.M: A criação da empresa implicou o financiamento por capital de risco e “Business Angels”, isto num período em que o país atravessava uma profunda crise económica. Como é que caracteriza o processo de mobilização de outros meios e entidades para a concretização das suas ideias?
M.P.M: Eu acho que foi um bocadinho ir à descoberta e, honestamente, também não tinha muito que arriscar! Era jovem, não tinha casa própria porque vivia em casa dos meus pais, não tinha carro próprio, não tinha filhos… Na altura tinha namorada, mas não era um encargo sustentável, por isso não era propriamente um encargo que eu tinha! Quer dizer, na realidade não era encargo nenhum! Mas acabou por ser um bocadinho este o espírito, ou seja, houve obviamente um risco, mas não havia muitos fatores que me dissessem “não arrisques, não arrisques, não arrisques”. Claro que não foi uma decisão fácil, mas teve que ser tomada e felizmente as coisas correram bem.
C.M: E hoje em dia, quais são os principais desafios que enfrenta?
M.P.M: Claramente que é a internacionalização a parte mais difícil do negócio. Aqui em Portugal as coisas correram bastante bem e continuam a correr porque as pessoas vão conhecendo a marca e isso acaba por ser relevante. Agora o mesmo que fizemos em Portugal, temos que fazer na Europa! Aí é que a coisa começa a ser mais difícil, mas estamos cá para enfrentar os desafios e para conseguir superá-los.
C.M: Atualmente, a science4you tem 150 trabalhadores, produz cerca de 350 brinquedos e encontra-se em 16 países… Só em Portugal tem 25 espaços e 3000 postos de venda. Qual é o significado destes números para si?
M.P.M: É, realmente, conseguirmos chegar a quase toda a população portuguesa. Acho que se hoje alguém quiser comprar um brinquedo da Science4You, consegue chegar lá e consegue comprá-lo. E este era o grande objetivo que existia inicialmente. Eu chamava-lhe democratização do brinquedo educativo e científico que, até então, não existia porque era extremamente caro. De certa forma conseguimos, pelo menos em Portugal, que grande parte das pessoas tenham acesso a um produto que, achamos nós, trará benefícios muito grandes daqui a 10 ou 20 anos na sociedade, já que é muito educativo e que permite pôr as crianças a pensar.
C.M: A dedicação implica definir prioridades, no fundo implica fazer escolhas. Em algum momento sentiu que precisava de abrandar o ritmo de trabalho em função de outras coisas importantes?
M.P.M: Eu trabalho 13 horas por dia, normalmente, mas tudo é conciliável. Tem é que se conseguir gerir bem as coisas e fazê-las devidamente. No fundo, é aproveitar ao máximo o tempo, mesmo que ele seja limitado. Quando é, é para ser, com qualidade e com sentido. Estar por estar deixa de valer a pena e, por isso, é preciso usufruir do tempo que se tem porque acaba por ser um dos bens mais essenciais.
C.M: No fundo, quando se está, estar por inteiro… O Miguel iniciou a sua vida política muito novo. Tinha 19 anos quando assumiu um cargo de deputado municipal. Como é que define a sua experiência neste meio?
M.P.M: Começou muito cedo realmente, acho que na altura era dos autarcas mais jovens do país! Acabou por ser bastante relevante para mim porque, pelo menos no sítio onde eu fui eleito deputado, todas as pessoas que faziam politica faziam-no porque gostavam, já que ninguém era pago. Mesmo eu devo ter recebido, no total dos quatro anos, uns dois ou três mil euros… Já não sei precisar, mas foi um valor muito baixo, era só mesmo para pagar o gasóleo de ir à Assembleia! E a forma como uma pessoa tem que gerir uma organização de voluntários acaba por ser uma lição de vida, porque facilita imenso depois quando se gere uma empresa onde as pessoas são pagas e onde a realidade é o tudo ou nada. Nunca tirei grande partido disso em termos de empresa, acho mesmo que a grande vantagem foi em termos de liderança e de encarar os desafios que hoje se apresentam.
C.M: Liderança que permitiu que a Science4You que se transformasse numa empresa de êxito e que permitiu que o Miguel recebesse inúmeros prémios. Qual é a receita para obter esses resultados?
M.P.M: Acho que a receita passa sempre por uma coisa essencial, que no fundo é a base, chamada trabalho! E não vale a pena achar que quando se abre uma empresa é porque se vai poder descansar e se vai poder ter uma vida muito boa… Na realidade acontece exatamente o contrário, passa-se a fazer isto 24 horas sobre 24 horas. E essa é a receita fundamental, a partir daí tudo depende do que vamos cozinhar, mas a verdade é que sem uma dose de trabalho enorme, gigantesca e completamente focada não se consegue. E não é só nossa, é também da equipa que nós arranjarmos, porque não vale a pena nós trabalharmos 14 horas se a nossa equipa trabalha sete e não quer saber, vai para casa e desliga o switch. É preciso realmente um envolvimento muito grande da equipa toda para conseguir que as coisas funcionem bem.
C.M: Numa altura em que o país vive de esperança, que conselhos deixa às pessoas que querem gerir um negócio de sucesso?
M.P.M: Trata-se de arriscar e eu acho que vale a pena! No meu caso, eu tinha 22 anos e não existia experiência nenhuma, portanto não foi porque tinha muita experiência ou porque conhecia muito o negócio; para além disso, não tinha dinheiro nem pais ricos que me pudessem dar ou emprestar, e 1125 euros foi a quantia que investi; e a ideia é interessante mas não vai mudar o mundo, não é um Facebook, um Google ou um Instagram. O que é certo é que não tinha nenhum destes fatores mas consegui, e realmente empregamos algumas pessoas, vendemos alguma coisa e esperamos continuar a vender muito mais! E foi possível… E se foi possível para o miúdo sem dinheiro, sem experiência e sem uma ideia do outro mundo, se calhar há muita gente que conseguiria fazer muito melhor. Tenho a certeza que há. Normalmente, o que difere as pessoas que são empreendedoras de sucesso daquelas que não são é aquele fator e aquela barreira que existe entre arriscar e não arriscar. Eu tive uma tempestade perfeita que me permitiu arriscar sem muito risco, mas sinto que há muitas ideias que ficam para trás porque as pessoas têm medo de avançar, porque têm medo de falhar. E eu acho que não é assim tão difícil… Eu consegui e há aí pessoas que conseguiam muito melhor, e essa a mensagem que eu tento passar. Vale a pena arriscar porque se não arriscarmos nem o país sai de onde está nem nós.
C.M: Com tudo o que já alcançou, o que é que espera do futuro?
M.P.M: Ainda falta muita coisa, ainda não chegámos onde quero chegar. Na verdade, ainda estamos longe e acho que não vale a pena mandar os foguetes antes da festa! Cada dia de sua vez, cada mês de sua vez e cada ano de sua vez, com o objetivo de crescer e de chegar o mais longe possível, principalmente a nível internacional. É preciso continuar a trabalhar todos os dias sem nunca desistir, mesmo que às vezes possa correr um bocadinho pior, mas estamos cá para isso!
Por: Carolina Maçã