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Misoginia no rap vs. Feminismo Burguês

O último tema a ser publicado pelo rapper Valete - "B.F.F" - tem sido alvo de críticas nas redes sociais e na comunicação social, incluindo uma carta aberta, assinada por várias associações de defesa dos direitos das mulheres e por centenas de pessoas, e uma petição pública que já conta com 300 assinaturas.

3 out 2019, 16:38 / lusa.pt
Valete no Campo Pequeno (foto: Nuno Miguel Silva)

A música e o vídeo "B.F.F" do artista narram uma situação de adultério que se desemboca numa cena de violência. O vídeo mostra o início de um crime passional, envolvendo um homem armado a ameaçar a mulher e o homem envolvidos no adultério.

No dia Mundial da Música, este tema incitou a uma carta aberta, assinada por associações de defesa dos direitos das mulheres e, a título individual, por várias pessoas, entre artistas, psicólogos, jornalistas, professores e estudantes. Nesta carta, sublinha-se que "a violência contra mulheres não é arte nem cultura" e pede-se ao artista que "considere o alcance e as repercussões da sua mensagem", tendo em conta que a violência contra as mulheres "nasce e perpetua-se num ambiente social de banalização da violência, cresce e legitima-se num contexto cultural que promove uma masculinidade agressiva". Apesar de o artista se defender com o argumento da liberdade criativa, os autores da carta reforçam que "a reprodução clara de misoginia e a banalização da violência contra as mulheres não podem ser cronicamente escudadas na criação artística".

Também no contexto deste produto artístico, no dia 01 de outubro, a organização Feministas em Movimento (FEM) lançou uma petição pública para apelar "a que todos os coletivos de intervenção feminista, às organizações de intervenção social, aos partidos políticos e a todas as pessoas que digam não à violência". Esta petição conta já com mais de 300 assinaturas. Neste documento, o FEM lembra o público de que "a violência contra as mulheres se encontra naturalizada" e, portanto, "todos os atos ou acontecimentos que a banalizem têm de ser denunciados, contraditados e condenados".

Em resposta à carta aberta e à petição pública divulgadas e em declarações à agência Lusa, o artista considera "patético" e "ofensivo" para os cidadãos "o Estado estar a financiar associações que gastem energia com estes temas patéticos [...] quando obviamente há coisas muito mais importantes".

 

A jornalista do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, num post do blog Jugular, acusou o artista de lhe enviar mensagens ameaçadoras, em que a aconselhava a "conter-se" no Twitter e garantia-lhe que "não queria comprar esta guerra". No dia seguinte, o músico confirmou ao Observador que enviou as mensagens e esclareceu que não continham ameaças de violência física e se referiam a uma "guerra" verbal.

No seu canal de Youtube, o músico divulgou um vídeo no qual acusa "um grupo de feministas burguesas, pessoal ignorante [...]" de serem "feministas da Internet" por se focarem em assuntos de liberdade criativa, ao invés de assuntos mais sérios. Dá o exemplo do movimento anti-racista que, para o artista, já não comete esse erro, focando-se em assuntos com mais pertinência.

Relembra também que vem de uma realidade em que "as mulheres são escuras demais para terem empregos que não seja limpeza" e "onde a violência doméstica está completamente normalizada" e aponta que "nunca vi nenhuma dessas feministas 'pop star' aqui nos subúrbios a travar luta feminista com estas mulheres que são praticamente escravas em 2019", reforçando a sua ideia de que o mediatismo do feminismo está mal direcionado.