A arte de ajudar os outros
Os países em que se fala português são os destinos mais escolhidos pelos voluntários
3 dez 2015, 15:09
/ Lourenço Martins de Carvalho
Em 2015, cerca de 900 portugueses participaram em projetos deste âmbito, em Portugal e no estrangeiro. Segundo dados da Fundação Fé e Cooperação (FEC), organismo da Igreja Católica, 276 pessoas realizaram missões internacionais em países em desenvolvimento e 674 participaram em atividades de voluntariado em solo nacional. Também este ano, Lisboa foi eleita a Capital Europeia do Voluntariado, sucedendo a Barcelona.
Voluntariado e a paixão por África
Patrícia Fonseca, 21 anos, é uma das muitas pessoas que realizou uma missão de voluntariado. A sua experiência de dois meses em Moçambique fez com que crescesse e se tornasse “mais forte e independente.”
O bichinho de ajudar os outros esteve sempre presente desde criança e contribuiu muito para que se lançasse nesta aventura. “Desde pequena que fui apresentada a realidades muito diferentes das da Europa. Os meus pais sempre fizeram férias em África e na América do Sul e eu ia com eles. Acho que implicitamente nasceu em mim um gosto muito grande por países menos desenvolvidos. Lembro-me de ser pequena, em Havana, e de andar a distribuir material escolar aos meninos. Era tão nova que até abordava turistas e oferecia-lhes canetas, não tinha grande noção das coisas”, conta a portuguesa num tom bem-disposto.
A escolha de Moçambique não foi difícil para Patrícia. A paixão por África e o facto de ser um país acessível financeiramente, seguro e onde se fala português ajudou muito a sua decisão. “Adoro tudo naquele continente. Desde a cultura, à música, à comida, às danças, ao artesanato, à paisagem, às praias e safaris incríveis. É tudo muito bonito.”
Os seus dias eram muito preenchidos e intensos. O acordar tinha de ser às cinco da manhã, porque se não apanhasse o comboio da hora seguinte era impossível apanhar outro, visto que ia estar cheio. Estas viagens eram uma verdadeira aventura. “As pessoas vão entre as carruagens e não há estações, o comboio simplesmente pára no meio da linha”, diz. Quando trabalhava na escola, terças e quintas-feiras, brincava e ensinava as crianças. Nos outros dias, o objectivo era angariar o máximo de dinheiro possível para a associação. “Cheguei a ir para os mercados vender geleia”, afirma.
Um dos motivos que a deixa mais orgulhosa foi a construção das primeiras casas de banho naquela comunidade. “Começamos campanhas de angariação de fundo online, falámos com empresas e conseguimos juntar dinheiro suficiente para construir as casas de banho para a nossa escola. As primeiras casas de banho daquela comunidade”, conta a jovem voluntária com um tom de felicidade e orgulho por sentir que estava a contribuir para o melhoramento das condições de vida daquelas pessoas.
A adaptação ao país foi fácil, o que custou foi voltar à normalidade. “Foi muito mais fácil habituar-me ao estilo de vida lá do que depois ter de me adaptar à vida em Lisboa quando voltei”, confessa a portuguesa.
A alegria das crianças e a simpatia das pessoas foi o que mais a impressionou. Por piores que fossem as condições, receber um abraço e um sorriso daquelas crianças enchia-lhe o coração. O facto de o povo moçambicano ser muito amável permitiu que Patrícia também se divertisse nos seus tempos livres. “Os meus amigos eram todos nativos. Saíamos à noite e tinham casas na praia lindíssimas. Foi tudo incrível”, recorda.
A dura realidade do Quénia
A experiência que Marta Beato, de 26 anos, teve no Quénia foi muito diferente. As condições em que as crianças vivem são muito piores que em Moçambique e a pobreza é muito mais visível. A sua aventura de três meses aconteceu em 2012, em Kibera, a maior favela do mundo.
A antipatia dos quenianos, a desorganização, o lixo espalhado por todo o lado e a pobreza foram os aspectos que mais chocaram a portuguesa no início. “Há imensos miúdos de rua, tanto em Kibera como na cidade”, diz. O povo queniano é rude, principalmente com as mulheres, e antipático. “São interesseiros e vêm os brancos como uma fonte de dinheiro, só e apenas”, confessa. Por outro lado, a alegria que as crianças demonstram é algo contagiante e que fica na memória.
Foi depois de ter vivido na pele todas as dificuldades desta primeira experiência que Marta decidiu criar o “From Kibera with Love.” Este projeto, sediado em Kibera, nasceu, oficialmente, em 2013 e apoia, neste momento, mais de 65 jovens. O principal objectivo é permitir o acesso à educação e melhorar as condições de vida. “O projeto garante a estas crianças acesso a um nível de educação muito bom, apoio médico gratuito, alimentação, atividades extra curriculares, bem como vestuário, calçado e brinquedos”, explica. Além do apoio às crianças, “From Kibera with Love” ajuda também famílias a implementar e gerir negócios.
Desde o início, esta associação tem evoluído imenso. Já tem um espaço onde pode dar apoio às crianças depois das aulas e nos meses de férias - novembro e dezembro - os jovens vão passar lá o dia, em que contam com várias refeições diárias e atividades. Em termos financeiros, o projeto sustenta-se através das doações, que podem ser “de dinheiro e bens materiais, como roupa, brinquedos, material escolar. Tudo o que as pessoas vão doando em Portugal e que eu vou tentando fazer chegar em Kibera”, conta a portuguesa.
Quando conseguiu este espaço para as crianças, em setembro deste ano, é que o projeto começou a crescer verdadeiramente. Até então, Marta apenas contava com o apoio da mãe e de voluntários em Portugal. “Quando consegui o espaço, arranjei uma cozinheira, uma professora que dá explicações todos os dias e uma voluntária local que faz o acompanhamento das mães dos miúdos”, afirma. Nessa altura conseguiu também arrendar e mobilar uma casa e passou a receber, em Kibera, voluntários de Portugal - 12 até ao final do ano. Além do apoio às crianças, o projeto tem investido, cada vez mais, no auxílio às famílias e mulheres. “Criamos grupos de mulheres em que se abordam vários temas como: gestão de negócios, lidar com a SIDA, planear e gerir uma família e tratar dos filhos. Este ano conseguimos levar o nosso primeiro aluno para a universidade, onde está a tirar um curso de Gestão e Contabilidade”, confessa orgulhosa.
Apesar desta ajuda, os dias são sempre cheios e com muito trabalho. De manhã, o despertar é às sete da manhã e é quando se trata do trabalho no computador, os contactos com Portugal e com quem ajuda o projeto. É também na parte matinal que Marta trata de ir às escolas dos miúdos falar com os professores e ajudar os pais no que for preciso e comprar o que as crianças precisam, desde roupa até material escolar. Durante a tarde, ajuda-as a fazer os trabalhos de casa e a dar o “porridge”, o lanche da tarde. Quando vão todos para casa, entre as 18h e as 19h, a portuguesa ainda fica a trabalhar no computador até à meia-noite.
Os países onde se fala português e o continente africano são os dois requisitos mais importantes para os voluntários portugueses. Em 2015, África, América do Sul, América Central e Ásia foram os continentes mais procurados. Enquanto, no que diz respeito a países, os mais requisitados foram Moçambique, Cabo Verde, Angola e São Tomé e Príncipe.
A AEISEC (Associação Internacional de Estudantes de Ciências Económicas e Comerciais) foi a associação pela qual as duas voluntárias realizaram as suas aventuras. Esta organização universitária, sem fins lucrativos, tem vários estágios de voluntariado em quase todas as partes do mundo e o processo de recrutamento é simples e acessível. Os estágios realizados por associações são, normalmente, pagos pelos voluntários.
Para quem quer ou vai fazer voluntariado, Patrícia Fonseca e Marta Beato aconselham a nunca desistir, mesmo que as dificuldades sejam muitas. Se houver vontade e trabalho a experiência vai ser sempre enriquecedora. “No início é sempre tudo difícil, mas isso só vai tornar a experiência mais enriquecedora. Pensa que em qualquer parte do mundo tens pessoas como tu a viajar que estão desejosas de te conhecer”, revela Patrícia.