Fazer dinheiro na bagageira
Na Feira da Buzina os participantes podem fazer da sua bagageira o seu negócio.
3 dez 2015, 10:56
/ Beatriz Vasconcelos
O conceito chama-se Feira da Buzina. Para muitos, um lugar de oportunidade, para outros uma forma de divulgar o seu comércio. Este evento acontece nos “dias em que está sol e normalmente uma vez por mês”, explica José Queirós que, com 48 anos, continua cliente assíduo do certame.
O espaço envolve quem chega ao Jardim do Arco do Cego, para quem não conhece, um espaço que já é rico pela sua relva verde. Mal se entra lá, sente-se um cheiro intenso a frescura. Os dias estão mais frios, mas o sol teima em aparecer e a música diverte o local que nos dias comuns funciona como um parque de estacionamento. Quando a Feira da Buzina chega, os carros que lá estacionam são para promover pequenos negócios que estão em desenvolvimento, como é o caso do Atelier de Artesanato. Sónia Marques, Vanda Carvalho e Joana Sousa são as responsáveis pelos artigos de bijuteria expostos na banca: colares, pulseiras e anéis que dão cor à mala daquele carro. São feitos à mão e falam na primeira pessoa por Sónia, que diz ser “um negócio que para já é só vendido em feiras. No entanto, andámos à procura de um espaço onde possamos ter permanentemente os nossos artigos expostos à venda”.
Se alguns ainda estão em desenvolvimento, outros são já uma peça da casa. Carlos Pereira é vidreiro, tem 42 anos e traz da Marinha Grande artigos de vidro trabalhado e colorido. “Participar nestas feiras é uma forma de divulgarmos o nosso trabalho e, acima de tudo, é muito divertido”, explica Carlos. Veio de longe, mas não poupou a carga que trouxe consigo. Numa carrinha branca comercial ainda houve lugar para uma bicicleta com um cesto, um móvel, rádios, televisões e telefones vintage que prendem o olhar dos mais curiosos que por ali passam. São artigos chamativos que merecem comentários dos mais velhos.
Curiosidade é talvez a palavra que melhor descreve as pessoas que vão à Feira da Buzina. Muitas já conhecem o conceito, outras vêm pela primeira vez. Maria de Lurdes, auxiliar de limpeza, veio pela primeira vez e diz “ter feito o negócio da sua vida”. Comprou “umas luvas, uma mala para o computador e um livro”, gastou cinco euros no total e deixa uma certeza: “Vou voltar! Já me tinham dito que era uma ótima oportunidade para comprar o que precisamos a um preço acessível e hoje tive a prova disso”, disse. Não foi a única a sair feliz da feira. As pessoas saem daquele recinto com um ar feliz e a comentar os artigos que compraram e os bons negócios que fizeram.
Há outras oportunidades que também se podem provar. A feira tem uma secção gastronómica. Percebemos que lá chegamos quando se sente um cheiro intenso a pão com chouriço acabado de sair do forno. Se há quem use a mala do carro para vender, também há quem inclua lá dentro um forno para cozer o pão quase minuto a minuto. Desde cachorros quentes, bolos e pastéis de nata até às alternativas vegetarianas. A escolha é diversa e o visitante tem ainda direito a umas esplanadas enquanto saboreia a comida, a música e as montras.
Esta é também uma altura de divulgar um projeto que converge diferentes artistas plásticos. A Feira da Buzina contém uma secção chamada Buzinarte onde são divulgados alguns trabalhos. Esta edição contou com a presença da “Ctrl Al Trua”, uma revista digital especializada em arte urbana e agenda cultural alternativa.
Participam “graças a um convite, porque a Buzinarte não tinha grande adesão por parte dos artistas, possivelmente porque tinham um preconceito ao achar que a Feira não era o local ideal para expor os trabalhos”, explica Felipe Kopanski, responsável pela revista.
A sua participação serve para mostrar que “este é realmente um espaço para trazer este tipo de arte e também para fortalecer os mercados alternativos, porque achamos que isto é importante para a cidade, para as marcas e para os artistas mais novos”, explica o responsável. Neste âmbito, Felipe Kopanski e Kiki Caldas, que fazem a direção da revista, trouxeram Igor Src, um artista de arte urbana, que despertou a atenção dos que por ali passavam. A organização da Feira não deu autorização para que Igor pudesse grafitar a parede, mas como quem não caça com cão caça com gato, o artista fez um live painting numa tela sobreposta ao mural da banca.
Este é um local quase sem regras, à exceção das que a organização impôs para os participantes. Cada carro paga por inscrição 30 euros, mas este valor pode crescer mediante a dimensão. Catarina, que vendeu produtos novos e outros em segunda mão diz que “inicialmente pensámos que íamos ficar por secções, mas afinal ficamos todos misturados”, a jovem explica ainda que “após a inscrição é-nos atribuído um local específico pela organização”.
Nesta edição da Feira da Buzina participam cerca de 120 bagageiras. Os vendedores esperam que por ali passem centenas de pessoas e que possam ver-se livres de algumas peças que já não fazem falta lá em casa. Divulgar, promover e vender são as palavras que descrevem a Feira da Buzina. Uma mistura intensa de cheiros e sabores dão diversão ao espaço, que ao pôr-do-sol, volta à banalidade de um parque de estacionamento.