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Uma outra forma de amar

Carla e Ana Maria são irmãs. Têm 43 anos. Não há nada que uma não faça sem a outra, caminham lado a lado, junto ao mais puro amor que existe, o da mãe

11 dez 2016, 23:24 Juliana Pinheiro
uma outra forma de amar

De sorriso rasgado, com as mãos entre as pernas e de olhos bem firmes e ao mesmo tempo frágeis. Frágeis ao ponto de pestanejarem com o passar de uma borboleta.

Angelina Moreira de Castro tem 74 anos e é reformada. Para ela a vida nem sempre foi fácil, pregou-lhe algumas partidas. Foi quando tinha 31 anos que percebeu que não teve filhas normais. Eram especiais, davam mais trabalho. Eram umas meninas com deficiência intelectual.

 

 

O que é a vida sem filhos?

Não sei bem. Atualmente tenho consciência que estaria tão mais descansada se não tivesse filhos. Estou cansada, estou muito cansada de filhos, não sei ...

 

 

Quando descobriu que ia ter duas filhas deficientes intelectuais?

O mundo caiu aos meus pés. Nunca pensei...Caiu-me tudo! Durante a gravidez não dava para perceber. Só consegui detetar que elas não eram miúdas normais, porque após a sua nascença elas não desenvolveram, em comparação com os outros dois filhos normais que tive, estas eram diferentes. E isso notou-se aos 3 anos de idade. Na altura, a medicina era ainda muito atardada. Os médicos não conseguiram compreender de imediato o que elas tinham. As especulações eram muitas, mais tarde, com várias consultas e opinião de vários médicos é que soubemos o que elas tinham.

 

 

O que sentiu após o diagnóstico do médico?

Senti-me revoltada! Tanto eu como o meu marido não tínhamos possibilidade de ter mais filhos, nem queríamos, não estávamos dispostos a isso... na altura não estava muito fácil...Então quando descobrimos que iam ser gémeas e ainda por cima com um atraso mental... Enquanto pais ficamos muito tristes.

 

Existiu medo?

Na altura não. Agora sim! Porque agora eu tenho consciência que estou a envelhecer e preocupa-me o facto de eu poder partir primeiro que elas.

 

 

Como os irmãos mais velhos lidaram com a situação?

Os irmãos só deram realmente conta que as gémeas tinham um atraso quando mais velhos. Até lá a relação entre eles era má, a Carla e a Ana Maria eram muito agressivas para com eles e eles não percebiam, ficavam muito magoados. Só mais tarde, conseguiram entender. E aí o apoio, até hoje, tem sido incansável.

 

 

Como as conseguiu integrar na sociedade?

Foi muito difícil. Elas tinham os ditos comportamentos <não-normais>. Elas fugiam para a rua, mal-tratavam as pessoas, abordavam-nas, iam com elas, na escola própria, ou seja, nos centros educacionais apropriados para este tipo de crianças, tiravam as coisas aos colegas. E o que sempre me irritou foi o facto de eu as educar da melhor maneira e as pessoas não perceberem isso. Eu não tinha qualquer tipo de culpa. É muito difícil de educar um cérebro de 43 anos que corresponde a um de 3 anos.

 

 

O que podemos encontrar nestes centros? Que atividades promovem?

Aqui elas têm um ensino especial. As educadoras ainda tentaram ensina-las a ler e escrever, ainda que de forma diferente, mas elas não aprendiam. Passam os dias a bordar, fazem tapetes, a desenhar, tem aulas de desporto, ajudam em tarefas que as educadoras propõem. Saem de casa por volta das nove da manhã e chegam por volta das cinco. Este centro que elas andam agora é perto de casa e isso é ótimo.

 

 

Sente a importância destes centros para a aprendizagem das suas filhas?

Infelizmente não sinto que elas tenham evoluído muito. Elas são umas miúdas muito paradas, não conseguem progredir. Têm alguns problemas na fala que à anos tentamos corrigir com sessões de terapia da fala e não conseguimos. Com o passar dos anos parece que vão desaprendendo, são quase incapazes de fazer as tarefas mais básicas. É necessário dar-lhes banho, fazer-lhes e desfazer a cama, tudo... Tenho de as ajudar em tudo. Até a comer...

 

 

O que mudou desde a nascença delas?

Tudo! A minha vida mudou! Eu queria ajuda para as minhas filhas e não tinha dinheiro. Na altura trabalhava eu e o meu marido.

Eu tive de deixar de parte os meus outros dois filhos para me dedicar inteiramente às miúdas.Se fosse hoje, eu nunca teria filhos e com isso não quero que me julguem. O trabalho é muito e os apoios são poucos. Tive de deixar de viver por causa delas, tive de deixar de trabalhar, não podia ir à rua com elas porque muitas vezes roubavam coisas, falavam com toda a gente, pediam-me tudo e mais alguma coisa.O pior que elas têm é que são muito cansativas, e torna-se exaustivo.

 

 

 

Que despesas têm com elas? O estado comparticipa nessas despesas, certo?

Sim. Eu recebo dinheiro do estado por cada uma. Mas que se engane quem acha que é o suficiente e que chega para as despesas delas. Não chega. As minhas filhas podem ter um problema, mas não é por isso que deixam de ser humanas. Eu dou-lhes tudo, mesmo que para isso vá às minhas poupanças, que, aliás, o faço quase sempre. Todos os meses tenho de ir à farmácia e saio de lá pejada de medicamentos. Eu tenho de as alimentar. Eu tenho de pagar o centro onde andam, incluindo todas as atividades que participam (desporto, terapia da fala, psicóloga). Eu tenho de as vestir. Eu como mãe que sou tenho de cuidar a cem por cento delas. Andam sempre arranjadas e bonitas, porque é assim que faço questão que andem.

 

 

Sei que está à procura de um centro educacional com capacidade para acolhê-las durante a noite...

Eu com esta idade sinto-me sem forças já, vai-me custar imenso separar delas, são tudo para mim, mas é tão complicado porque eu estou muitíssimo cansada psicologicamente. É um esforço pela minha sobrevivência. Se elas forem para um centro e ficarem lá a dormir, aos fins de semanas, quando estiver com elas eu aí vou estar apta, com forças e energia para as receber da melhor maneira.

 

 

O que mais a preocupa enquanto mãe?

Morrer sem saber onde as deixar. Morrer e não ter um sítio adequado onde possam ficar.

 

 

O que significam para si?

Eu não merecia ter umas filhas assim, ninguém merece. Mas tive e adaptei-me. Sinto que tenho mais amor por estas filhas do que pelos outros, porque os outros defendem-se, estas não, estas não se sabem defender. 

 

 

Imagina-se sem elas?

Não. Neste momento não consigo imaginar, só quando acontecer. Mas vai ser difícil. Tem de ser, já me doem os braços, as pernas, já não lhes consigo dar banho.

 

 

Como é a vida com filhas deficientes intelectuais?

Uma vida desesperante. Ás vezes quero dinheiro e não tenho. Nem a dormir tenho descanso, a cabeça não pára de pensar.

São difíceis de lidar, são pouco ativas e têm muitas dificuldades. Por vezes, não sinto amor delas por mim, parecem umas meninas que não tem amor pela mãe. Não demonstram sentimentos por nada. E isso é tão frustrante às vezes.