A TRADIÇÃO MAIS DOCE DE PORTUGAL
Há 181 anos que a doçaria conventual portuguesa tem uma marca histórica – os Pastéis de Belém. A empresa, criada numa antiga refinaria de açúcar, é hoje referência mundial.
1 FOTOS: Doce TradiçãoA imensa fila não deixa dúvidas: estamos no lugar certo. Alguns chegaram aqui depois de ouvir falar de um doce crocantíssimo, criado no Mosteiro dos Jerónimos. Outros vieram para a Rua de Belém, 84, pela experiência compartilhada no Trip Advisor. A nota dos Pastéis de Belém é 4,5. Resultado de mais de 42 mil avaliações. Tempos modernos.
Na caixa, vários idiomas. “It’s one euro and ten cents. One pastry”. “To go? Yes. I put inside”. “¡Sí!”. “¿Quieres uma bolsita?”. O valor total da compra e o troco são mostrados ao cliente. Já era assim há mais de cem anos. A caixa registadora ‘National’ mostrava o preço e garantia que “o freguez verá no mostrador a importância da sua compra”.
Experimentar este doce com mais de 181 anos de história não é assim tão fácil. Para quem compra para levar, mais uma fila. Mas a espera acontece num belo salão do início do século XX, com lustres inspirados art nouveau.
Do balcão, conseguimos ver os pastéis a chegar da cozinha. Eles são embalados uns sobre os outros, dois a dois. Na comprida caixa cabem 12. São justapostos, como num estojo. Depois, são colocados nas sacas brancas, juntamente com duas saquetas. Uma azul, de açúcar refinado, e outra castanha, de canela. Em cada uma o brasão, a marca registada e o endereço da Antiga Confeitaria de Belém.
O movimento é intenso, como uma linha de montagem. Das 8h às 23h, todos os dias. No Natal e na véspera de Ano Novo, a empresa fecha às 19h. Fila, caixa, compra, fila, embalagem, entrega, sai. E tudo recomeça. Alguns não aguentam a ansiedade e abrem as pequenas caixas mesmo ali.
É possível ouvir o estalar da massa folhada, enquanto saboreiam a união do creme adocicado com a frágil borda crocante.
Para quem não quer tanta rapidez, pode dirigir-se para um dos cinco salões da casa e esperar pelo serviço de mesa. O caminho até aos salões é um pequeno museu, que mostra a história deste doce no desenrolar do tempo. Um tacho de mexer a massa dos pastéis, os instrumentos de medição do açúcar e a súbtil mensagem que Camões deixou:
Partimo-nos assim do santo templo,
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra para exemplo
D’onde Deus foi em carne ao mundo dado.
(Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto IV)
Fabricação Artesanal
Ao lado do segundo salão fica a fábrica. O processo é artesanal e a receita original é feita diariamente na “Oficina do Segredo”, pelos três mestres pasteleiros. Eles são responsáveis por preservar o sabor criado pelos monges do Mosteiro dos Jerónimos no início do século XIX.
Os 190 funcionários são subdivididos em secções como a Gerência – que acumula funções de gestão, comunicação e marketing –, a Supervisão, a Contabilidade, o Controlo de Qualidade, o Departamento de Compras, as Mesas, o Balcão, a Copa, a Loiça, a Manutenção, o Armazém e seus respetivos chefes.
O gerente é Miguel Clarinha, 34 anos, filho de Pedro Clarinha, que foi o gerente anterior. A antiga confeitaria está há quatro gerações na mesma família. Primeiro, foi do pai do tio-avô; depois, do tio-avô; em seguida, do pai de Miguel e agora dele, que tem como uma das principais tarefas preservar a receita original. O segredo está guardado num cofre e só é conhecido por seis pessoas: os três mestres, Miguel, o pai e a prima.
Após a Revolução Liberal de 1820, em 1834, com o encerramento dos Mosteiros, a receita acabou por ser passada ao empresário Domingos Rafael Alves. “Não se sabe ao certo se ele recebeu ou se comprou. Ele utilizou este espaço, que era uma antiga fábrica de refinação de açúcar, para produzir os pastéis. Em 1837, eles começaram a ser vendidos aqui e a ser associados a esta casa. Ao longo desses mais de 180 anos de história, aquilo que não mudou foi a receita original e a forma artesanal como os pastéis são produzidos”, garante.
A fábrica artesanal produz em média 20 mil pastéis por dia, 600 mil por mês. Segundo Miguel, “essa é uma média anual, porque nos meses do verão, a produção aumenta 50%: são cerca de 40 mil pastéis por dia. No inverno, a produção diminui”. No total, são vendidos 7 milhões e 300 mil pastéis por ano.
A empresa tem uma receita anual média de 10 milhões e 706 mil euros. E a venda dos pastéis representa quase 75% do total. São 8 milhões e 30 mil euros. Os outros cerca de 2 milhões e 676 mil euros que compõe a receita anual da empresa vêm de produtos como a Bola de Berlim, os salgados e doces sortidos e os Bolos-Rei e Rainha, que são os mais pedidos no Natal.
Preservar a identidade
O principal objetivo dos Pastéis de Belém para os próximos anos é manter a qualidade do produto. Miguel Clarinha garante que não querem abrir franchisings ou mesmo exportar os pastéis. “É uma empresa que vive quase de um monoproduto, que são os Pastéis de Belém. O nosso foco principal será sempre a qualidade dos pastéis, além de preservar a identidade da marca e do produto, honrando a sua história, a sua receita original e o seu fabrico artesanal”.
Pelo boca-a-boca, sites de turismo ou pelas fotos em redes sociais, os Pastéis de Belém são conhecidos dentro e fora do país. Tradição e história atualizadas todos os dias no bairro de Belém, explica Miguel. “É uma casa que tem, ao longo dos anos, se enraizado entre os portugueses, até mesmo conseguindo que seu nome chegue a além-fronteiras”.
As palavras de Camões sobre os navegadores portugueses ressoam até hoje na missão da antiga confeitaria. Além-fronteiras, além do mar, da água e do sal, os Pastéis de Belém mostram que existem razões doces para conhecer e se lembrar de Portugal.