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NAE: a marca portuguesa que o convida a calçar ananás

Alguma vez imaginou que os seus sapatos poderiam ser feitos de folha de ananás? E de um airbag, acreditaria? A Paula e o Alex sim, e em 2008 criaram a sua marca de calçado vegan: a NAE (No Animal Exploitation).

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NAE: No Animal Exploitation

12 nov 2018, 15:39

Um modo de vida que “promove o desenvolvimento e o uso de alternativas livres de animais para o benefício animal, humano e ambiental”, de acordo com a instituição The Vegan Society. Apologistas desta filosofia, o casal luso-espanhol apostou num mercado que, há dez anos, era pouco ou nada desenvolvido. Baseando-se apenas na utilização de matérias-primas que, à partida, não são associadas à produção de calçado, a empresa tornou-se numa das mais inovadoras deste mercado a nível internacional.  

 

 

 

 

“A NAE tem sapatos formais e informais, bonitos e originais. Depois de comprar o primeiro par apercebi-me que a qualidade era óptima e que têm uma excelente relação qualidade/preço. Estes dois aspectos são importantes mas ficam em segundo plano quando comparados com a filosofia e ética da marca”, afirmou a cliente chilena Jazmín Monardes.  

 

 

Apesar de portuguesa, a NAE já conquistou o mundo. “Vendemos muito mais para fora”, revelou Marta Palma, responsável do departamento de marketing e comunicação. Face à ainda reduzida comunidade vegana em Portugal, países como França e Alemanha destacam-se como os maiores clientes, sendo responsáveis por mais de 35% das vendas globais da marca.

 

 

 

 

Após ter atingido a meta do milhão de euros em vendas em 2017, o bom desempenho da empresa deverá manter-se em 2018 com um crescimento expectável de 25%. Muito contribuem para este sucesso os parceiros espalhados por todo o mundo, por exemplo na Austrália, no Canadá ou nos Estados Unidos, que “são uma ajuda fantástica no caminho da expansão” ao promoverem os produtos da marca nos seus espaços. O facto de existirem apenas duas lojas em Lisboa, no LX Factory e, mais recentemente, no Largo do Carmo, faz destes parceiros a “ponte física" entre a marca e os clientes internacionais. Além da maior facilidade em chegar a todos os veganos, os parceiros permitem também chegar até "pessoas que se sintam sensibilizadas pelo facto de não serem utilizados materiais prejudiciais para o meio ambiente". 

 

 

Mas nem mesmo os mais cépticos são esquecidos. “Consideramos que as nossas coleções são bastante diversificadas e conseguimos atingir vários tipos de pessoas”, afirmou Marta Palma. Desde o calçado descontraído, como ténis e sandálias, ao calçado mais formal como botas e saltos altos, esta é uma marca procurada tanto pelo público vegan, como por um público que "procura informar-se não só sobre a origem dos materiais, mas também acerca das condições em que os sapatos são produzidos nas nossas fábricas”.  

 

 

Afinal, quais são e de onde vêm estes materiais? Uma das matérias-primas que suscita mais interesse nos clientes é a folha de ananás. O fruto é recolhido em comunidades locais nas Filipinas que o produzem para consumo próprio, evitando qualquer desperdício. Além de aproveitar a folha, que não teria outro uso, a empresa, ao comprar este produto, está também a contribuir para o crescimento económico das populações Filipinas.  

 

 

 

 

 

“Até há bem pouco tempo a indústria estava limitada quanto a materiais para utilizar neste tipo de calçado pois não é fácil garantir que o material a utilizar é livre de matérias ou submatérias de origem material”, disse Pedro Caria, consultor especialista do setor do calçado. 

 

 

Fundador e gestor da marca Exceed Shoe Thinkers e autor do primeiro guia vegan para a indústria do calçado, Pedro Caria é reconhecido como um especialista nesta área. Tal como na NAE, as preocupações da filosofia vegan prendem-se com “os maus tratos, a crueldade e o sofrimento a que os animais são sujeitos, quer seja para fins alimentares ou para o consumo geral (utilização das suas peles e de animais para testes em cosméticos)", referiu.  

 

 

Sabia que a NAE foi a primeira marca no mundo a utilizar airbags reciclados na produção de calçado? E que estes são bastante resistentes ao frio, ao calor e à chuva? Actualmente existem cada vez mais materiais com maior diversidade de cores e texturas, sendo o airbag o que suscita mais curiosidade. O processo é simples e começa com a recolha daqueles que já tenham sido utilizados, seguindo-se a limpeza dos mesmos e a sua aplicação na produção do sapato. "Não há qualquer transformação do material e por isso é que o real termo não é reciclagem mas sim upcycling, confirmou a responsável do departamento de marketing.  

 

 

“As microfibras são uma solução muito interessante que imita quase na perfeição diversos tipos de animal”, acrescentou Pedro Caria. 

 

 

A juntar à folha de ananás e ao airbag, a empresa aposta igualmente nas microfibras, o material que utiliza há mais tempo. Não só evitam o desperdício de água como são bastante leves, resistentes e perfeitas para a produção de botas, sandálias e cintos. Conseguem ser tão ou mais resistente que a pele e muito menos prejudiciais para o meio ambiente. A NAE faz ainda questão de utilizar as microfibras mais ecológicas existentes no mercado, oferecendo sempre a melhor qualidade aos seus consumidores. 

 

 

“Temos de ser mais conscientes nas nossas escolhas se queremos ter algum impacto positivo em questões ambientais e relativas ao aquecimento global”, afirmou Elisabete Martins, consumidora da marca.  

 

 

Mas as apostas do casal vegan não terminam aqui. A linha PET é baseada no aproveitamento de garrafas de água e de pneus reutilizados. Ideais para artigos de meia estação e de verão, estes materiais destacam-se pela sua durabilidade. E como não poderia faltar numa marca com assinatura nacional, a cortiça está também presente na produção da NAE. Resistente à água, este material é 100% aproveitado, extraído somente de sobreiros protegidos, sempre com a certeza que nenhuma arvore é danificada.

 

  

“Nós estamos na frente e assumimos o risco, mas claro que este é controlado, porque os sapatos passam sempre pelo controlo tecnológico de calçado", garantiu Marta Palma. 

 

 

Tal como o crescimento que se tem verificado neste mercado, também o número de opções quanto a novas matérias primas a utilizar tem vindo a aumentar. “Até há bem pouco tempo a indústria estava muito limitada quanto a novos materiais para utilizar neste tipo de calçado, porém são cada vez mais variados: câmaras de ar, cascas de laranja, borras de café, cogumelo, coco, algodão, linho, sisal ou cânhamo”, revelou o especialista Pedro Caria. “Temos muita vontade de abrir mais lojas, não só aqui em Portugal mas também lá fora, é o nosso objetivo a longo prazo”, garante Marta Palma. Embora não revele quais as novidades quanto a novos materiais, malas, carteiras, mochilas e meias são alguns dos artigos que poderá encontrar em breve nas lojas, no website ou nas redes sociais, Facebook e Instagram

 

 

Rodeada de airbags e garrafas de plástico recicladas, de folhas de ananás, cortiça e ainda de microfibras, é assim que a NAE convida a calçar e a pensar de forma sustentável, numa luta contra a pegada ecológica que tanto ameaça o nosso planeta.