http://www.tvi24.iol.pt/geral/12-12-2016/m-a-d-a-mulheres-que-amam-demais-anonimas

M.A.D.A. - Mulheres que Amam Demais Anônimas

É possível morrer de amor e continuar vivendo

12 dez 2016, 14:44 Fabiane Pereira
quadrinho MADA

É possível superar a dor e a doença que alguns amores causam. Muitas mulheres conseguem sozinhas, outras não. E para aquelas que não conseguem superar o "estrago" causado por uma relação afetiva de dependência existe o M.A.D.A., uma espécie de irmandade de mulheres que têm como objetivo primordial se recuperar da dependência de relacionamentos destrutivos, aprendendo a se relacionar de forma saudável consigo mesma e com os outros, através da troca de experiências, forças e esperanças, de acordo com a prática do programa de recuperação de 12 passos e 12 tradições adaptado do Alcoólicos Anônimos para Mulheres que Amam Demais Anônimas.

 

Amar demais deixa de ser saudável quando persistimos num relacionamento inacessível, insensato – e mesmo assim somos incapazes de rompê-lo. O amor também pode ser negativo e destrutivo quando torna-se  obsessão pelo outro. Mulheres que amam demais são, em maioria, excessivamente tolerantes porque não amam a si própria. O conceito foi cunhado pela terapeuta conjugal norte americana Robin Norwood, especialista em tratamento de padrões mórbidos de relacionamento amoroso e no tratamento de viciados em álcool e drogas.

 

No Brasil, há pelo menos dois ou três grupos associados ao M.A.D.A. em cada capital. Assim como as reuniões dos grupos de A.A. ou N.A. (Narcóticos Anônimos), no M.A.D.A.  nenhuma mulher é identificada, se não quiser. Todas as reuniões são fechadas e é difícil ultrapassar a barreira e participar de uma. Mas com paciência, cuidado e garantindo que nenhuma vítima seria identificada, conseguimos entrevistar algumas mulheres que estão em tratamento.

 

Z., 25 anos, moradora de um bairro de classe alta em São Paulo, frequenta o grupo há pouco mais de seis meses. "Sempre me envolvi em relacionamentos destrutivos, não só com homens mas com amigos, familiares, tudo era muito intenso. Eu já tinha ouvido falar do grupo mas achava que só mulheres loucas frequentavam sem perceber que eu era completamente louca. Um dia, fui tomar café com uma amiga da faculdade e ela me disse que namorava um rapaz de outra cidade e na hora eu disse a ela: "Nossa, como isso é possível? Você não morre de ciúmes?". Ela me falou: "Antes sim mas depois que eu conheci o MADA não." Quis saber mais sobre o grupo porque nesta época eu estava muito mal pois havia acabado de perder um emprego por estar envolvida num relacionamento doentio. Na primeira reunião que eu fui, chorei como uma criança, sem parar. Frequento o grupo há três anos e já melhorei muito porém como amar demais é uma doença como o alcoolismo, não posso fraquejar e vivo um dia de cada vez", conta a jovem.

 

Já a quadrinista Lorena Kaz, 33 anos, brasileira e moradora da cidade do Rio de Janeiro, trata sua obsessão parindo quadrinhos.“Uma vez fui com um ex a um bar antes de um show. Combinamos de comer alguma coisa e dividir um suco. Enquanto eu comia, ele tomou o suco todo. Eu, que vivia dura, mandei: 'A gente ia dividir!'. Foi quando começaram os insultos: 'Mesquinha, pobre de espírito, egoísta. Não está vendo que estou com sede?'. Eu disse que ele estava me ofendendo, que havíamos combinado algo. E ele gritou pro bar inteiro: 'Eu devia mandar você enfiar o copo de suco no cu!'. Senti muita vergonha, levantei da cadeira, disse que não podia tolerar aquele tratamento e que ia embora. Mas não fui. Ele apertou meu braço e disse: 'Você não vai a lugar nenhum, vamos acabar de comer, vamos ao show e você vai sorrir.' Obedeci. Temos uma foto desse dia e sempre me impressiono em como eu estava bonita. Não pareço triste, pelo contrário, estou sorrindo e me sentindo sortuda por ter uma foto com ele, por ter tido mais uma chance. Eu, que continuava ao lado dele porque estava petrificada de medo. Não entendia, nesta ocasião, o quanto eu estava me ferindo e me destruindo por dentro.”

 

Este depoimento é o primeiro post da fanpage Projeto Morrer de amor. Trata-se de um relato autobiográfico de um passado não tão distante de Lorena que também é a autora da página, um espaço onde dependência amorosa é o assunto que reúne quase 90 mil interessados; a grande maioria, mulheres. “É comum eu receber desabafos, pedidos de ajuda ou gente dizendo que tem uma amiga que sofre com um relacionamento abusivo”, conta ela, que em um dia agitado responde até 20 mensagens e normalmente sugere que as minas procurem ajuda no MADA.

Ilustradora de livros infantis, Lorena faz quadrinhos há pelo menos 10 anos, mas há 4 é que eles ficaram mais “trágicos e dramáticos”, como diz, e passaram a trazer mulheres sofrendo por relações amorosas. Foi a forma que encontrou de tratar seus demônios. “Meus sim! Apesar de viver namoros onde era desrespeitada, sempre que buscava novos parceiros, caía na mesma dinâmica de dependência emocional e maus tratos. Percebi que tinha um ímã por esse tipo de relação e que o roteiro se repetia. Eu colocava minha vida no outro, me frustrava, era humilhada e chegava no fundo do poço.”

Além de registrar suas histórias nos quadrinhos, Lorena foi atrás de serviços e grupos de apoio. A ideia era expurgar seus medos e depois, entendê-los profundamente. Passou a frequentar o MADA, fez trabalho voluntário no CVV (Centro de valorização da vida) e participou de um grupo de estudos sobre comunicação não violenta. Nesse contexto é que a fanpage nasceu. “Eu queria contar das coisas que passei, aprendi e escutei. Queria mostrar, inclusive, as nuances dos abusos. Porque não é tão simples quanto: o abusador e a vítima que não consegue se livrar dele. A maioria das vítimas são dependentes da condição de dependência porque estão em desconexão com a própria essência.”

O próximo passo foi criar oficinas presenciais na cidade do Rio de Janeiro, onde mora, para ajudar mais mulheres que assim como ela sofriam com dependência emocional. Em um trabalho com Angelica Rente, psicóloga especialista em comunicação não violenta, Lorena usa os quadrinhos para que instiguem empatia e conversas. “As pessoas se sentem à vontade em falar de seus dramas quando vêm outras se abrirem. Acredito que este seja um bom começo pra tratar esse tipo de dependência: ouvir e ser ouvida, saber que você não está sozinha e que a libertação está no fortalecimento do amor-próprio.”