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A arca de Noé existe e está em Sete Rios

A missão do Jardim Zoológico passa pelo desenvolvimento e pela promoção de um parque zoológico botânico, pela reprodução e pela reintrodução de espécies em vias de extinção.

16 dez 2015, 23:09 / Cátia Borrego
Suricata É preciso remontar à antiga civilização para encontrarmos um leão de trela ou uma girafa a ser passeada. A primeira colecção privada de animais era vista como poder e pensava-se que os animais eram uma fonte inesgotável. Hoje é fundamental ter noção de que é o zoo de Lisboa que mais coopera para a preservação e conservação de certos animais. 

Depois de um belo passeio no Terreiro do Paço, é impossível não vislumbrar a estátua de D. José I, na Praça do Comércio. O que a maioria não sabe é que aquele elefante esculpido a pisar pessoas tem uma história. Depois de o nosso Rei D. Manuel I ter trazido o rinoceronte Indiano para Portugal, era crença de muitos que o seu inimigo mortal eram os elefantes. O Rei mandou soltar um elefante e um rinoceronte indiano na praça do comércio. É claro que o rinoceronte não resistiu a uma tromba, cinco toneladas e quatro metros de altura. Vinte e uma pessoas que acabaram por ser atropeladas pelo bicho asiático. 

A verdade é que com uma colecção de animais presos, onde só os burgueses os podiam visitar, fez com que Lineu escrevesse Systema Naturae. Um livro onde o autor estabelece uma classificação hierárquica das espécies e concebe um sistema que divide a natureza em três reinos, usado ainda hoje. 
As grades passaram de moda. As jaulas foram substituídas por terra batida. A segurança é agora assegurada pela criação de barreiras naturais que são tão eficazes como as grades, mas, com uma mais-valia: o bem-estar do animal. Assim, apesar de ter 129 anos, o Jardim Zoológico de Lisboa, situado em Sete Rios, é considerado um zoo do século XXI. 

No jardim zoológico de Lisboa, quando uma instalação sofre uma reestruturação, há uma preocupação que sobressai. Transformar a Aldeia dos Macacos ou o Vale dos Tigres não passa apenas pelo aumento do espaço. O enriquecimento ambiental visa preservar os comportamentos dos animais e é um conceito chave neste zoo. Talvez o que o distingue dos outros. Uma adaptação que faz com que os animais se sintam mais felizes, encorajados a fazer parte de disputas hierárquicas e que acasalem com maior frequência, é sem dúvida fundamental. Mas o segredo é estimular nos animais um comportamento selvagem. Este conceito é o lema do zoo pois lutam contra a extinção das espécies, o que quer dizer que qualquer animal no zoo está sujeito a ser libertado para o seu habitat natural. Uma das práticas que o zoo adota, e, que, não é captado pelos visitantes, é a estimulação sensorial. Quem estiver a visitar o Vale dos Tigres não se apercebe deste promenor mas há folhas de eucalipto penduradas, fezes de outros animais, perfume,– tudo para estimular ao macho um momento territorial, que é necessário para haver acasalamento. Se o tigre não se sentir ameaçado no seu próprio território, não haverão crias. 

Quando se chega ao Templo dos Primatas levamos logo com um bafo de macacadas - saltos de corda em corda,  lutas  por um par de meias, mães agarradas aos filhos à sombra. Está provado e toda a gente o sabe. Um animal feliz é um animal com vontade de acasar. 

Como nem tudo depende só de umas frutas frescas e de um pH de água ideal, o zoo tem o que é considerado o melhor hospital veterinário da europa pelo Comité Veterinário da Associação Europeia de Zoos e Aquários – EAZA. Ali não há tempo para a rotina. O trabalho invisível é o mais importante. Conhecer os hábitos dos animais é primordial para se ter informação sobre qual a melhor altura para se reproduzirem, mas, aqui, não adoecer é sinónimo de um veterinário competente. Se não tiver de interferir é porque as girafas estão a conseguir chegar ao feno e as suricatas a conseguir escavar.

Depois vinte minutos a ver um primata resolver um puzzle feeder, que, com muita observação, conseguimos perceber que é a “gamela” deles. Com um pau ou até mesmo com a mão, têm de ser capazes de resolver o labirinto até a comida sair por baixo – um estímulo cognitivo muito importante nos grandes primatas, uma vez que constroem muitas ferramentas na natureza. 
Dez girafas nasceram ali, em Sete Rios. Apenas cinco elefantes nasceram em jardins zoológicos na europa. Três deles nasceram no jardim zoológico de Lisboa. Ao lado está o Timon. As suricatas («Look! Meerkats! Meerkats!», como gritava a pequena inglesa) são dos mamíferos que mais reproduzem. Passado quatro meses já estão do tamanho dos pais. Mas quem ganha a corrida é o pinguim bebé do zoo. Num mês conseguiu por-se do tamanho dos seus progenitores. 
Um tratadora limpa o espaço dos cangurus. Não é um espaço muito amplo mas o mais importante é que seja rico. «Às vezes já só damos conta das crias alguns dias depois. Conseguem passar muito bem despercebidas» diz Tiago, educador no zoo há sete anos. 

Um amendoim em troca de uma melodia. «Hoje já não apoiamos essas práticas. O elefante morreu, já era velhote, mas nunca mais encorajámos esse tipo de atitudes. Aqui no zoo não queremos humanizar os animais. Quanto menor for o contacto com eles, melhor», diz Tiago enquanto liga o rádio para avisar os tratadores de que uma caneta caiu para instalações dos leões. «Se a caneta tivesse caido nos macacos o problema ia ser grande. Mas o mais provável é os leões não ligarem nenhuma». 

Quem apenas se preocupa em lamber uma folha de palmeira é uma fêmea okapi. Está pranha. A barriga grande e descaída não engana ninguém. A sua instalação tem um desnível, lá ao fundo. Não, não foi o terreno que abateu mas é a segurança de que o acasalamento acontece. O macho é mais pequeno do que a fêmea. 

Lisboa é conhecida pelo seu clima ameno e por ter o jardim zoológico com uma maior taxa de natalidade da europa. No zoo só há espécies que se adaptam bem ao clima, e as temperaturas na cidade são óptimas. «Tivemos um urso-polar mas chegámos à conclusão de que não valia a pena. O animal sofria quando chegava o Verão e por isso só temos espécies que são naturalmente de climas quentes», diz Tiago ao mesmo tempo que aponta para a ponte móvel da ilha dos macacos. «As pessoas podem nem reprara mas as instalações agora estão pensadas até mais ínfimo promenor. A divisão que separa a chita fêmea dos machos é espelhado. Ela  não pode ver o macho antes da época de acasalamento porque se não já não quer nada com ele», dá umas gargalhas  e comenta: «Mulheres!». A pequena ilha dos macacos está delimitada com água. A cor esverdeada dá a sensação de profundeza e os macacos têm medo.

Tudo se passa ali.