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A Fábrica Viva

No coração industrial de S. João da Madeira, existe uma fábrica que é também um museu, um atelier e muitas outras coisas. Na Viarco, o passado está em todos os cantos e o futuro é uma coisa incerta – na única fábrica de lápis portuguesa o compromisso é com o presente.

12 nov 2018, 18:21 Rita Cruz
A Viarco produz lápis nas mesmas máquinas do  início do século XX.

No edifício de inícios do século passado, impõe-se o ruído das velhas máquinas. São “mecânica pura”, explica José Vieira, bisneto do fundador e atual administrador da Viarco.

 

Mas nem só de máquinas e operários se faz a fábrica: os visitantes são bem-vindos e artistas dos quatro cantos do mundo completam o quadro, povoando o espaço com as obras que desenvolvem em residências de uma ou duas semanas. A Viarco é um organismo vivo, onde a produção de lápis se alia à procura incessante de novos produtos, à criação artística e à divulgação cultural.

 

 

Um século de História, entre Vila do Conde e S. João da Madeira

A marca Viarco surgiu em 1936, mas a fábrica vila-condense que lhe deu origem, a Portugália, data de 1907. Nos anos 40, Manoel Vieira Araújo, o fundador, atravessou o Douro e veio instalá-la em S. João da Madeira, no concelho de Aveiro. É aí que se encontra hoje.

 

José Vieira, bisneto do fundador da fábrica, pensa que Manoel Vieira Araújo terá sentido necessidade de “dispersar o risco da actividade”, fazendo coisas que os outros não fizessem. Em terra de chapéus e sapatos, o lápis surge como uma oportunidade. Desde então, a Viarco tem sido sempre uma empresa familiar, garante o atual administrador da fábrica.

 

 

Preço não é valor

A dimensão familiar manteve-se – e as máquinas também. É uma pergunta comum, todos querem saber porque é que a Viarco mantém as mesmas máquinas desde o início do século passado. “Porque é isso que nós temos”, explica José Vieira. O investimento em máquinas mais modernas e eficientes foi sendo adiado por circunstâncias várias, e, hoje, é esta a realidade com que a empresa tem que trabalhar.

 

José Vieira, atualmente ao leme dos destinos da Viarco, não se preocupa com a 
concorrência e quer que a marca ocupe o seu próprio espaço.
 

Mas José Vieira não vê nisto um problema – pelo contrário. As velhas máquinas são “mais uma vantagem competitiva do que uma desvantagem”. E explica: “São mecânica pura, são simples de funcionamento”, o que significa que “podem ser transformadas com um custo de investimento muito baixo”. O conhecimento técnico acumulado por um século de trabalho pode, assim, aliar-se ao que José Vieira chama “conhecimento crítico e criativo”, aproveitando a versatilidade das máquinas para criar novos produtos a baixo custo. Em suma, explica, fazem “da manualidade o princípio de tudo”. Claro que, confessa, as máquinas antigas não produzem na quantidade e rapidez das máquinas modernas – mas esse também não é o objetivo da empresa. Em poucas palavras, o mote é criar valor: "não vamos perguntar quanto é que isto custa, vamos perguntar quanto é que isto vale". E o valor de que José Vieira não se cansa de falar é para o consumidor, primeiro, e, logo a seguir, para a fábrica e os seus funcionários.

 

“Não vamos perguntar quanto é que isto custa, vamos perguntar quanto é que isto vale.”

 

A Viarco de hoje encara com realismo a concorrência comercial. Sabe que não tem dimensão para, por exemplo, estar nas grandes superfícies ou conquistar o mercado do “regresso às aulas”. Mas também não quer, porque tem outros fins e outros meios para os alcançar. “Cada um tem as suas armas”, diz-nos José Vieira. As da Viarco são a versatilidade e a criatividade.

 

A Viarco quer criar o seu próprio espaço e nem pensa em concorrer com as grandes marcas internacionais nem com a produção barata e em larga escala de países como a China. Nem podia pensar nisso, porque, como explica José Vieira, “nós temos um projeto aqui dentro que nos obriga a recuperar uma série de coisas que não são lucrativas”. Refere-se à recuperação do edifício da fábrica, um dos objetivos que a Viarco tem para o futuro.

 

 

Uma fábrica que é mais do que isso

E se as máquinas são as mesmas, muito mudou entretanto: a Viarco é hoje muito mais do que uma fábrica. Lá dentro, o trabalho segue com calma e precisão. Fazer bem é melhor do que fazer rápido. Além disso, é preciso tempo para falar com os visitantes (e para dar entrevistas).

A Viarco recebe visitantes de todas as idades – crianças incluídas – no âmbito do projeto Turismo Industrial, da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Em parceria com seis empresas da região, a autarquia promove a divulgação do seu património industrial, com visitas guiadas às fábricas, instituições e museus industriais. Desde 2012, a Viarco faz parte desse circuito, atraindo, segundo José Vieira, cerca de 10 mil pessoas por ano.

 

A Viarco recebe visitantes que querem saber como se fazem um lápis 
e ver em funcionamento as máquinas antigas.

 

José Vieira olha para o projeto como “uma integração plena da organização com a comunidade”, uma espécie de “abre a porta, toma lá a chave, entra, sobe, desce…”. É também este o espírito que levou, em 2008, à abertura de um atelier na fábrica. Jovens artistas vêm, fazem e partem, dando lugar a outros, mas deixando marcas da sua passagem.

 

A arte em cada canto: fotografias de Graça Pereira Coutinho.

 

Entre o vai e vem das máquinas, as perguntas dos visitantes, a presença de artistas de todo o mundo e das obras que por lá vão deixando espalhadas, a Viarco é uma fábrica viva.

 

Da madeira americana às nossas mãos

Com tantos visitantes, já estão todos habituados a perguntas. E a presença de jornalistas também não é novidade. Nas três secções da fábrica – a secção de mina, a secção de arredondagem e área de impressão – os trabalhadores da Viarco encaram as perguntas com naturalidade e apreciam a curiosidade dos visitantes, explicando ao pormenor o processo de várias semanas necessário à produção de um lápis e de outros produtos da Viarco (ver galeria).

 

A madeira de cedro utilizada para fazer lápis vem dos Estados Unidos e a grafite da Alemanha. Há também muitas matérias-primas que vêm de território nacional, como é o caso do caulino ou das ceras. Antes de chegar aos consumidores, estes materiais passam pelas mãos dos trabalhadores da fábrica, para serem misturados, partidos, triturados, comprimidos, compactados, afiados, colados, pintados e estampados.

 

 

Todos fazem tudo, e, garante Galdina, há dois anos a trabalhar na fábrica, há muita rotatividade. É ela que nos explica que nem todas as fábricas funcionam da mesma maneira. “Normalmente, numa fábrica, as pessoas estão sempre a fazer o mesmo, têm um linha de montagem”, mas na aqui, vai-se mudando e acudindo onde for preciso. É um sistema que tem as suas vantagens. “Não são oito horas rotineiras”, conta Galdina, “aqui a gente não stressa”.

 

A aguarela de grafite, ou ArtGraf, foi criada pela Viarco 
em parceria com o pintor José Emídio.
 
"Sanduíches" de madeira e mina.

Um dia de cada vez

O futuro, para a Viarco, é incerto. “Essas coisas do futuro…”, desabafa José Vieira. “Nós estamos a viver tempos muito esquisitos”. Um mundo em turbulência e em mudanças que deixam antever um regresso a erros do passado é a justificação de José Vieira para viver um dia de cada vez.

“Quando falamos de futuro”, explica, “a única coisa que eu lhe posso dizer é que aquilo que nós estamos a fazer é estarmos comprometidos com um determinado projeto”. Prevê-se também restaurar o velho edifício, recuperando o património secular da fábrica. De resto, o importante é assegurar a solidez da empresa, para que ela possa enfrentar possíveis crises, e, acrescenta o atual administrador, garantir qualidade ao trabalho desenvolvido.