A casa de lego
Esta é a história de António e Duarte. Ambos partilham o fascínio pela construção de maquetes e legos mas assumem que a construção mais desafiante que tiveram de montar foi o regresso à vida
Naquela altura só quis pôr fim à minha vida… - confessa António com semblante carregado.
António tem 43 anos, cerca de 1,75m, moreno, barba feita e um corpo musculado. Nos braços, várias tatuagens retratam sonhos e momentos da vida de António. Filho de pais divorciados, perdeu a mãe aos 17 anos e o pai aos 21. Hoje em dia não tem qualquer ligação com nenhum dos seus 6 irmãos.
É mais um dia normal para António, o relógio ainda marca as 4 horas e 50 minutos da manhã e ele põe a última cesta do pão na carrinha e dá início à sua rotina diária com a carrinha do pão. Há cerca de cinco anos que António acorda mais cedo do que a maioria das pessoas para distribuir o pão pela sua terra.
No trajeto, encontra muitas pessoas acordadas à sua espera para lhe dar bom-dia e trocar umas palavras. Apesar de alguma pressa, António, cumprimenta todas as pessoas, maioritariamente senhoras, que o esperam e trata todas pelo nome. Já só falta entregar o pão num lugar, na prisão. António sai da carrinha, cumprimenta o homem que o esperava sempre com um sorriso. Alguns polícias que conversavam à porta da prisão vêm cumprimentar António. São velhos conhecidos, a prisão também não é um espaço desconhecido para António, passou quase uma década preso naquela mesma prisão.
Eu tinha cerca de 23 anos quando fui preso… tinha acabado de ficar sem pais e não andava muito bem… na altura todos me davam força, especialmente a minha namorada…
Acontece que eu estava revoltado com tudo, ainda não tinha aceitado a morte dos meus pais e cometi algumas asneiras.
Houve um dia em que eu estava a voltar para casa sozinho, vinha de uma noitada a pé mas faltava muito para chegar a casa. Foi quando reparei num carro mal fechado, abri, consegui por o carro a trabalhar e fui embora dali. Quando estava quase a chegar a casa fui apanhado numa operação STOP, estava bêbado, não tinha carta de condução na altura e o carro era roubado… para piorar a situação, acabei por dar um murro no polícia e tentar fugir a correr mas não consegui, fui logo apanhado…
De regresso a casa vindo da distribuição do pão, António apressa-se a ir buscar o equipamento de desporto e dirige-se para o ginásio quando o relógio já marca as 8 horas da manhã.
Faz parte da sua rotina passar pelo ginásio onde passa uma hora do seu dia. Ganhou o hábito de se exercitar durante os anos que passou na prisão, era das poucas coisas que podia fazer para que o tempo não parecesse estagnado.
Durante o treino, é inevitável não reparar na tatuagem que tem sobre o ombro: uma jaula.
Essa jaula foi tatuada para que António nunca se esqueça do que é estar preso e para não voltar a ficar privado da liberdade.
É com algum sofrimento que António relembra o momento em que é condenado.
Acabei por ser condenado a 8 anos de prisão e o pior é quando te fecham a cela… depois da decisão do juiz e durante o trajeto até à prisão quase que não percebes o que se passou… é quando sais da carrinha e começas a caminhar pelos corredores da prisão em direção à tua cela que percebes que o teu mundo acabou de desabar.
É inevitável sentires medo. – Confessa - Eu tinha 23 anos e fui colocado numa cela com um homem bem mais velho que eu, felizmente, ele acabou por se tornar numa pessoa impecável comigo. Para ele eu era quase um filho e para mim ele acabou por se tornar na minha única família… Todos me viraram as costas, os meus irmãos, a minha namorada, ninguém se importou comigo, deixaram-me entregue à minha sorte… Naquela altura só quis pôr fim à minha vida… queria acabar com a sensação de ter sido abandonado, e nessa altura o Jorge, o meu companheiro de cela, ajudou-me a superar essa fase…
Durante os primeiros meses na prisão, António não recebia qualquer visita dos familiares. Foi completamente abandonado. Só começou a receber visitas quando Jorge saiu com pena suspensa e fazia questão de ir visitar António uma vez por mês.
Entretanto, Duarte, que não deu pelas horas a passar, já está atrasado para entrar ao serviço no bar onde trabalha na estrada monumental do Funchal. Duarte é um jovem de 24 anos, tem quase 1,90m, magro e tem barba de dois dias.
Duarte cumpriu 1 ano e meio de prisão. Tinha sido condenado a 3 anos por posse de arma ilegal e ser reincidente em diversos desacatos no bairro onde vivia antes de ser preso.
Eu vivia num bairro problemático, já me tinham ameaçado e à minha mãe várias vezes, por isso achei que tinha de proteger a minha mãe e comprei uma arma. Eu e os outros que tínhamos alguns desentendimentos já tínhamos sido notificados pela polícia várias vezes e houve um dia, durante uma discussão mais acesa, que eu puxei da arma e a polícia chegou… já alguém tinha os tinha chamado, e ainda bem…senão…
Duarte não consegue evitar a emoção ao relembrar-se do episódio que o levou para a prisão precisamente com os dois rapazes com quem tinha tido desacatos por diversas vezes.
Senti que não era justo ser condenado a três anos de prisão por defender a minha família… e… os 18 meses que estive preso foram uma tortura, muito por incompetência dos polícias da prisão…
A família de Duarte nunca o abandonou, todas as semanas o jovem recebia visitas da sua irmã menor e dos seus pais, no entanto, era o único apoio com que ele contava, pelo menos uma vez por semana ele sabia que ninguém lhe ia fazer mal.
Enquanto estive na prisão fui agredido várias vezes pelos dois rapazes com quem fui preso e a polícia nunca fez nada… Os polícias tinham medo deles, sabiam o que se passava mas preferiram fechar os olhos.
Às vezes a minha mãe perguntava onde tinha feito aquelas feridas e eu inventava sempre uma desculpa, não a queria preocupar…
António acaba de chegar ao trabalho, o relógio de parede do restaurante onde trabalha, marca 11 horas e 40 minutos; faltam 15 minutos para ser chamado para trabalhar na cozinha.
O Jorge tinha acabado de sair da prisão e deixou uma vaga na cozinha, eu tinha de acordar e seguir em frente e achei que seria bom estar na cozinha, enquanto cozinhava o tempo ia passando… Comecei por servir os almoços, depois comecei a fazer pão, na altura ninguém ia lá deixar o pão e alguém tinha de o fazer.
Nunca tive problemas com ninguém na prisão… uma confusão ou outra, mas eu já tinha um bom porte físico, e comecei a frequentar o ginásio na prisão por isso não havia muitas confusões comigo. A certa altura comecei a criar amizades com alguns guardas e isso só me protegeu mais.
O bom comportamento de António fez com que fosse libertado sob pena suspensa ao fim de 6 anos. Na sua saída, voltou ao Porto Santo de onde era natural mas ninguém da sua família o esperava.
Chegares à rua 6 anos depois, e não veres ninguém é… - António emociona-se – é muito doloroso. Eu sei que errei mas… ninguém merece ser abandonado.
Entretanto Jorge, o seu grande apoio enquanto esteve preso, tinha migrado e já não se encontrava em território português.
Duarte olha para o relógio de pulso, há 15 minutos que já devia estar na sua hora de almoço, mas ainda tem tempo de ir atender mais um cliente com um sorriso – expressão bem diferente da que tinha enquanto esteve preso.
Houve uma altura em que eu não saia da minha cela para não ser agredido, só que um dia, eles agarraram-me e bateram-me tanto que acabei por ficar inconsciente e só me lembro de acordar numa cama de hospital com a minha mãe ao lado.
As agressões que Duarte sofreu, causaram-lhe diversos hematomas e levaram-lhe para o hospital durante quase 1 mês, no entanto, toda essa dor provocada pelas agressões permitiram por fim ao sofrimento da prisão.
Os guardas prisionais consideraram que não havia condições para Duarte voltar à prisão e assim, foi libertado quando apenas cumpria metade da sua pena, ainda que a tivesse de cumprir sob a forma de pena suspensa.
Foi o fim de um sofrimento! Chegar à rua e abraçar a minha família… não há forma de explicar o que se sente, é uma sensação incrível.
Duarte conta que, mal foi libertado e recuperou das lesões sofridas, começou à procura de um trabalho, queria ser útil para a sociedade e apressar-se a tirar a família do bairro onde cresceu. E, ao fim de 4 meses em liberdade, conseguiu trabalho no bar onde trabalha ainda hoje.
Eu queria ocupar o meu tempo, tinha perdido muito tempo naquela cela e quis ser útil. Descobri que eles estavam a precisar de um empregado através de um amigo e tentei a minha sorte.
Sabia que ia ser muito difícil eles darem um emprego a um ex-presidiário mas a única condição que me colocaram foi o de esconder a tatuagem que tenho no braço.
A tatuagem que Duarte refere é uma cicatriz tatuada feita poucos dias depois de sair da prisão. Essa cicatriz é, para ele, a ferida que nunca vai ser esquecida de ter estado preso.
António teve uma sorte totalmente diferente. Durante dois anos não conseguiu qualquer trabalho por culpa do cadastro.
É então que decide mudar-se para o Funchal e dar início a uma vida nova e acaba por conhecer Joana, a sua atual mulher. No entanto, António confessa que, até há pouco tempo, Joana não sabia nada do passado de António.
António conheceu Joana no seu primeiro emprego após chegar à Madeira e, tal como tinha feito com o seu patrão da altura, escondeu que tinha estado preso e que tinha uma família antes de passar pela prisão.
A vida de António estava a estabilizar: tinha emprego, tinha voltado a exercer o hobby que exercia desde miúdo (construir maquetes), tinha uma família e foi pai.
Depois de 2 anos “morto” no Porto Santo, chegar à Madeira trouxe-me uma nova vida, ninguém me conhecia porque só tinha estado na prisão e nunca tinha feito mais nada na ilha, estava feliz com a Joana e conseguia conciliar o trabalho com a minha paixão por maquetes.
Quando era miúdo fazia maquetes de tudo, cheguei a fazer uma caravela só com fósforos. Na prisão também fazia para passar o tempo e ganhar uns trocos.
Com o nascimento do meu filho comecei a comprar legos para tentar passar-lhe este meu gosto pelas construções.
No entanto, António foi posto à prova mais uma vez. Certa noite, António envolveu-se numa confusão com a polícia e acabou em agressões com os agentes.
Eu estava um pouco embriagado e os polícias começaram a provocar-me sem eu perceber porquê, e não respondi da melhor forma… Voltei para a prisão durante um ano…
O regresso à prisão trouxe o passado para o assombrar. O estabelecimento prisional entrou em contato com a família de António… a antiga família… Quem atendeu foi a filha que ele não sabia que tinha, Verónica.
António foi preso pela primeira vez quando a sua companheira da altura estava grávida de 1 mês e ela não quis que ele contactasse com a filha.
Na altura em que António foi preso pela segunda vez, Verónica tinha 14 anos e muita curiosidade em conhecer o pai mas não tinha forma de o fazer por não saber onde ele estava.
É numa das visitas semanais de Joana com o filho de António que Verónica se apresenta como filha de António.
- Para mim foi um choque! Não sabia que tinha uma filha… nunca ninguém me disse. Além de ter de explicar a reincidência na prisão, eu tinha explicar a existência da minha filha mais velha e eu não sabia como explicar…
Ao início não foi fácil para a Joana digerir tudo mas ao longo desse ano fui conhecendo a minha filha, e a Joana foi aceitando a minha outra vida.
Desta vez a sensação foi diferente… Já não tive medo, sabia ao que ia e nunca senti que a minha companheira me fosse abandonar e depois tinha uma filha para conhecer, e estava a adorar perceber que sem ter contacto com ela durante a sua vida, ela tinha vários traços de personalidade parecidos com os meus.
O teste de ADN foi só uma mera formalidade.
O relógio marca as 9 horas da noite, há 5 anos, depois de sair da prisão, que António tem um atelier de construção de maquetes onde, curiosamente, Duarte apresenta-se duas vezes por semana desde o início de 2016.
Quando António saiu da prisão tinha à sua espera Joana com o seu filho e Verónica que hoje em dia tem 20 anos e vive com o pai e com a sua madrasta.
António e Duarte partilham a experiência prisional apesar das diferentes histórias de cada um, ambos consideram que a prisão serviu para darem uma maior importância ao tempo e, com esse mesmo tempo, pretendem continuar a construir um rumo para a sua vida todos os dias.u