Uma outra forma de amar
Carla e Ana Maria são irmãs. Têm 43 anos. Não há nada que uma não faça sem a outra, caminham lado a lado, junto ao mais puro amor que existe, o da mãe
De sorriso rasgado, com as mãos entre as pernas e de olhos bem firmes e ao mesmo tempo frágeis. Frágeis ao ponto de pestanejarem com o passar de uma borboleta.
Angelina Moreira de Castro tem 74 anos e é reformada. Para ela a vida nem sempre foi fácil, pregou-lhe algumas partidas. Foi quando tinha 31 anos que percebeu que não teve filhas normais. Eram especiais, davam mais trabalho. Eram umas meninas com deficiência intelectual.
O que é a vida sem filhos?
Não sei bem. Atualmente tenho consciência que estaria tão mais descansada se não tivesse filhos. Estou cansada, estou muito cansada de filhos, não sei ...
Mas está cansada porquê?
(baixou o olhar. Fez um silêncio que prolongou por segundos.)
Sabe para muitas pessoas, ter filhos é uma dádiva, é uma felicidade extrema. Para mim, também foi. Mas com as partidas que a vida me pregou, comecei a sentir-me injustiçada, magoada, até mesmo com os que não tem culpa.
(levantou o olhar).
Têm quatro filhos. Todos diferentes. E dois deles muito especiais. Quando descobriu que ia ter duas filhas deficientes intelectuais?
O mundo caiu aos meus pés. Nunca pensei...Caiu-me tudo! Durante a gravidez não dava para perceber. Só consegui detetar que elas não eram miúdas normais, porque após a sua nascença elas não desenvolveram, em comparação com os outros dois filhos normais que tive, estas eram diferentes. E isso notou-se aos 3 anos de idade. Na altura, a medicina era ainda muito atardada. Os médicos não conseguiram compreender de imediato o que elas tinham. As especulações eram muitas, mais tarde, com várias consultas e opinião de vários médicos é que soubemos o que elas tinham.
O que sente uma mãe quando sabe de um diagnóstico que à partida a compromete para o resto da vida?
Sente-se automaticamente incapaz…Levei com um balde de água fria. Foi um misto de sentimentos. Mas, mais que todos, senti-me revoltada! Saber que as minhas filhas iam depender de mim para sempre fez-me sentir muito triste. Não só por mim, pelo meu falecido marido, ou pelos meus outros filhos (o Paulo e a Margarida), mas sobretudo por elas. Pela Carla e Ana Maria que iam precisar de uma mãe para a vida.
Uma mãe que, seguindo um ciclo normal de vida, parte antes dos filhos…
Posso dizer que quanto mais os anos passam, mais tenho medo que isso possa acontecer. Se lhe disser que prefiro ver as minhas filhas a partirem primeiro que eu, acredita? É normal para mim ter esse desejo, porque saber que posso deixa-las sozinhas neste mundo, sem um lar, sem o meu apoio, sem o meu carinho, sem o meu amor… O que vai ser das minhas filhas?
Elas conseguem ter a perceção da sua importância para a própria sobrevivência?
Não, não têm. As vezes, quando estou doente, de cama, impotente porque, as vezes nem sempre tenho forças, sentam-se ao meu lado. Abraçam-se a mim. Deitam-se sobre o meu peito e dizem-me que não querem que eu morra e que gostam muito de mim. Mas, eu sei que esse sentimento delas é bipolar. Porque pessoas com este tipo de problema, não sentem tanto quanto nós, hoje sentem amor, amanhã sentem ódio e nem sabem o porquê.
Como lidar com este paradoxo?
Elas são a minha companhia. Há dias bons e outros maus, como tudo. Há dias que chegam do centro educacional - próprio para pessoas com este porte de deficiência, onde exercem a mente, a questão social com outras pessoas, a fala, o corpo- e chegam a cantar, abraçadas às bonecas que têm e muito queridas. Depois há outros que chegam a casa, normalmente por volta das 17h, muito irritadas e inquietas. Nesses dias é terrível, porque berram muito, porquê são muito agressivas e, por mais que esteja habituada a estes comportamentos, é sempre uma incógnita o saber acalmá-las, porque nem com a força dos medicamentos, que o especialista delas receita, faz efeito. Esses são os piores dias. Se uma semana tem 7 dias, 5 deles elas ficam assim…
Todos temos dias maus. Naturalmente, diferentes dos das suas filhas. Angelina quando tem o seu dia não?
(Achou piada, riu-se…)
Eu não me posso permitir ter dias não. Todos os dias para mim são iguais. E sempre com um objetivo, cuidar das meninas. Eu não posso dar-me ao luxo, como se diz, de ter um dia não. Porque ninguém me compreenderia. Tudo depende de mim…
Como é o seu dia-a-dia?
Como já disse, os meus dias são sempre iguais… Acordo por volta das sete para acordar a Carla, vou com ela à casa de banho, para lhe dar duche e para a vestir. Depois, acordo a Ana Maria, faço igual. Já com as duas vestidas, preparo o pequeno-almoço. Depois disso, vou deixa-las ao Centro, que mesmo sendo ao pé de casa, tenho de as levar para me certificar que chegam bem…Quando achei que eram capazes de ir sozinhas, ligaram-me do centro a perguntar por elas. Até que, na rua, à procura delas, encontrei-as a falar com estranhos. Nunca mais… Passo pelo mercado, para fazer compras para o dia, as vezes pela farmácia e volto a casa. Aí espero, a arrumar tudo até as quatro e meia/cinco. Porque elas voltam a essa hora. Vou busca-las e a partir daí tenho de lhes preparar o lanche, o jantar, costumo vê-las desenhar nos seus cadernos. E aguardamos, juntas, pelo anoitecer.
Ao longo destes 31 anos foi possível colocar-se em primeiro lugar? Quero dizer, pensar em si primeiro?
É difícil pensar em mim primeiro… seria egoísta da minha parte. Acho que cada um de nós nasceu por uma razão. Talvez a minha foi para servir os outros. Fui obrigada a deixar de trabalhar pelos meus filhos. Não tinha só a Carla e a Ana Maria, tinha mais dois filhos que também precisavam de mim. Tentei fazer o melhor papel possível. Mais tarde, lidei com o problema de alzheimer do meu marido. Tinha em casa três pessoas a depender de mim. Infelizmente, já não está comigo. Abandonou-me nesta jornada de compromisso. Continuo com as minhas miúdas. Por isso, não tenho capacidade para pensar em mim primeiro e só depois nas minhas filhas. Tenho uma casa que precisa de mim, que não conhece outra ajuda a não ser a minha.
Os seus outros filhos, o Paulo e a Margarida não a apoiam? Não a ajudam com as irmãs?
Coitados deles. Não conseguem fazer muito. Têm as suas vidas, a sua família, não moram perto de mim. Seguiram a vida deles (e ainda bem). Eles são presentes, mas também não tem a possibilidade de fazer mais.
O que mudou desde a nascença delas?
Tudo! A minha vida mudou! Eu queria ajuda para as minhas filhas e não tinha dinheiro. Na altura trabalhava eu e o meu marido.
Eu tive de deixar de parte os meus outros dois filhos para me dedicar inteiramente às miúdas. Se fosse hoje, eu nunca teria filhos e com isso não quero que me julguem. O trabalho é muito e os apoios são poucos. Tive de deixar de viver por causa delas, tive de deixar de trabalhar, não podia ir à rua com elas porque muitas vezes roubavam coisas, falavam com toda a gente, pediam-me tudo e mais alguma coisa. O pior que elas têm é que são muito cansativas, e torna-se exaustivo.
Sei que está à procura de um centro educacional com capacidade para acolhê-las durante a noite...
Eu com esta idade sinto-me sem forças já, vai-me custar imenso separar delas, são tudo para mim, mas é tão complicado porque eu estou muitíssimo cansada psicologicamente. É um esforço pela minha sobrevivência. Se elas forem para um centro e ficarem lá a dormir, aos fins de semanas, quando estiver com elas eu aí vou estar apta, com forças e energia para as receber da melhor maneira.
O que mais a preocupa enquanto mãe?
Morrer sem saber onde as deixar. Morrer e não ter um sítio adequado onde possam ficar.
O que significam para si?
Eu não merecia ter umas filhas assim, ninguém merece. Mas tive e adaptei-me. Sinto que tenho mais amor por estas filhas do que pelos outros, porque os outros defendem-se, estas não, estas não se sabem defender.
Imagina-se sem elas?
Não. Neste momento não consigo imaginar, só quando acontecer. Mas vai ser difícil. Tem de ser, já me doem os braços, as pernas, já não lhes consigo dar banho.
Como é a vida com filhas deficientes intelectuais?
Uma vida desesperante. Às vezes quero dinheiro e não tenho. Nem a dormir tenho descanso, a cabeça não para de pensar.
São difíceis de lidar, são pouco ativas e têm muitas dificuldades. Por vezes, não sinto amor delas por mim, parecem umas meninas que não tem amor pela mãe. Não demonstram sentimentos por nada. E isso é tão frustrante às vezes.