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A deficiência não é um entrave ao trabalho profissional

São pessoas inteligentes, vivem uma realidade única e especial.

18 dez 2016, 19:31 Joana Azevedo
4 FOTOS: Afid
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Afid

18 dez 2016, 19:21

Eu sei que sou uma pessoa com deficiência, mas não é por isso que sou menos pessoa, consigo perceber o que me dizem”, diz Francisco com naturalidade.

 

São pessoas com deficiência mental que querem integrar-se na sociedade contribuindo de alguma maneira. São associados da AFID e pertencem a um grupo nomeado de “inclusão social”, que tem por objetivo incentivá-los, treiná-los e monitoriza-los para desenvolverem atividades profissionais, tanto dentro da AFID como fora dela.

 

O grupo de “inclusão social”, como a AFID o chama, é um grupo que junta todos os jovens e adultos que pertencem à associação e têm um trabalho “profissional”.

 

Ao trabalho profissional que desenvolvem chama-se de Atividades Socialmente Úteis (ASU’s). A AFID tem protocolos com algumas empresas e estas desenvolvem um acordo com o próprio trabalhador. Estes protocolos, normalmente, têm duração de um ano, mas podem ser reavaliados e renovados.

 

A forma de remuneração destas atividades socialmente úteis é algo que é acordado entre a empresa e o jovem.

 

O que a lei diz é que todos aqueles que estão integrados em ASUS deverão ser gratificados num montante até 10% da pensão social deles (pensão social não chega a 200€). Todos os ASUS recebem bastante mais do que isto, (na AFID), a AFID paga o passe e a alimentação diariamente para irem para as empresas – ultrapassa os 10%. Têm cerca de 10 ou 12 pessoas a trabalhar em ASUS.”, conta Lutegarda Justo, diretora da Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente.

 

Todas as quartas-feiras à tarde, o grupo de “inclusão social” da AFID junta-se numa sala para conviverem um pouco, partilharem experiências, contarem histórias e trabalharem em conjunto para uma empresa. O trabalho que desenvolvem às quartas-feiras é de criarem flores com caixas de ovos vaziam, têm de pintar, recortar e colar para transformar as caixas em flores.

 

 

Encontramo-nos na sala do grupo de inclusão social, está uma grande agitação, querem todos conversar muito e contar histórias. A sala tem uma mesa grande com muitas cadeiras à volta, e ainda, outra mesa mais pequena encostada à parede que serve de apoio aos materiais deles.

 

Francisco é dos mais velhos da sala e já não se recorda quando é que entrou para a AFID, mas sabe que foram os familiares que conheceram a associação e o incentivaram a tornar-se associado.

Já é quase como um anfitrião da AFID, quando aparecem novos membros o Francisco dá-lhes a conhecer a associação. Adora pertencer ao grupo dos trabalhadores, faz sentir-se útil e capaz de realizar tarefas “como as outras pessoas”.

 

Tem um feitio complicado, não quer ser estudo de caso para as outras pessoas porque sente-se como uma pessoa normal apenas com caraterísticas vincadas. Francisco está numa cadeira de rodas e tem paralisia cerebral mas não é por isso que deixa de ter sentido de humor, por entre as lentes dos óculos os seus olhos brilham e o seu tom de voz é de muita sabedoria.

Quando lhe é perguntada a idade diz que já é “muito antigo” e pede que adivinhe a sua idade dando uma pista: “acaba em enta”. O seu sentido de humor torna as dificuldades em facilidades, saber brincar com os problemas traz-lhe mais felicidade.

Não quis ser ele a dizer a idade, a sua inteligência permitiu criar um diálogo engraçado sobre a sua idade até ser adivinhada.

Tem agora cinquenta anos e diz que já experimentou tudo aquilo que a associação oferece. Sente-se quase como cobaia, por vezes foi o primeiro a participar em algumas atividades especializadas e dar a sua opinião.

Para além do trabalho que desenvolve na sala do grupo às quartas-feiras, para o qual diz já não ter muita paciência, trabalha fora da associação.

 

Fora da AFID trabalho numa escola, como secretário. Antes ia mais vezes por semana, mas agora vou só às terças de manhã. A escola é ali em cima, às vezes vou de autocarro, mas quando está bom tempo prefiro ir na minha cadeira até lá.”

 

Uma das parcerias da AFID é com escolas primárias perto da associação em Alfragide, mais precisamente perto do IKEA. A proximidade é para facilitar as deslocações das pessoas. Pretende-se que sejam autónomos na sua deslocação e por isso torna-se mais acessível se o trajeto for curto, no entanto, há parcerias da AFID que não são tão perto como a escola em que Francisco trabalha.

 

Francisco tenta antecipar todas as perguntas, não quer ser apanhado de surpresa, o seu feitio não lhe permite ficar sem resposta. Então, quando se fala em remuneração fica surpreendido, não antecipava essa pergunta.

 

Se recebo dinheiro? Ordenado? Dessa não estava à espera... Pagam-me o transporte para lá, mas não era preciso... eu gosto de estar ocupado”, para Francisco o facto de estar ocupado é superior ao dinheiro que poderia receber.

 

O trabalho que desenvolve na escola teve um treino anterior, para que Francisco pudesse desenvolver as suas tarefas com êxito. À medida que os anos passam, admite que, se tornou mais preguiçoso e já não é tão rigoroso naquilo que faz.

 

Eu chego lá e vou para um sala perto da portaria. E eu atendo os telefones e guardo os recados para dar às pessoas, às vezes é ao diretor, outras é às empregadas, outras vezes são pais das criancinhas. AH!... Também mexo com o fax. Só que agora só vou lá uma vez e por isso, já me conheço, quando chego lá já não me lembro. Aquilo tem muitos botões e por isso eu fico confuso e não sei mexer. Sabes como se mexe no fax? Aquilo tens um botão grande verde, e depois tens outros. Tens papel, podes não ter papel, tens que pôr papel novo. E depois ainda tens de ficar atento quando o telefone toca e é fax.”

 

Para além das atividades socialmente úteis, Francisco tem outras ocupações e orgulha-se bastante delas.

 

Sou jogador de Boccia, já fui campeão e treino todos os dias. Também faço natação e estou na terapia todos os dias.”

 

Boccia é um desporto desenvolvido principalmente para pessoas com paralisia cerebral. É um desporto indoor, de precisão, em que são arremessadas bolas, seis de couro azuis e seis vermelhas, com o objectivo de as colocar o mais perto possível de uma bola branca chamada de “jack” ou bola alvo. É permitido o uso das mãos, dos pés ou de instrumentos de auxílio para atletas com grande comprometimento nos membros superiores e inferiores. Está modalidade pode ser disputada de forma individual, pares ou por equipas.

 

Francisco adora o Boccia, fez questão de explicar ao detalhe o que era o jogo, mas o seu diálogo é um pouco confuso. Tem a confiança suficiente para dizer que é dos melhores, aparecem jogadores novos na sua equipe mas nem sempre são bem vindos. Atualmente os treinos já não são diários pela sua capacidade física, mas continuam a ser regulares. Irá ter um torneio brevemente.

 

 

Passamos agora para a explicação de Lutegarda Justo sobre as atividade profissionais existentes dentro da AFID de caráter ocupacional e com intuito de os integrar socialmente e profissionalmente.

 

Para o âmbito de integração e inclusão, apenas de caráter ocupacional – na creche e na escola, lares, lavandarias  , parcerias internas com a AFID . Temos uma rede de parceiros que nos permite ter integrados, não nas ASU’s mas para os terem integrados dentro a AFID. Temos vários departamentos, para fazer treinos de autonomia e também de treino ocupacional. De forma a cumprir o objetivo da inclusão social. Integrar um autista numa atividade profissional é uma coisa muito difícil. Assim como integrar uma trissomia 21 é muito difícil. O social reage muito à aparência, portanto é difícil com que eles se consigam integrar. Quando são pequeninos tem graça, são bonitos, são engraçados, mas quando crescem debatem-se com alguma dificuldade. E isto recai um bocado na família também, que eles são todos dependentes de alguém, e portanto é complicado. Por isso desenvolvemos algumas atividades com tarefas definidas, não queremos que façam mais que uma ou duas tarefas mas têm que cumprir e portar-se bem. Os nossos meninos são acompanhados por psicólogas, depois de a psicóloga decidir que eles estão preparados para começar a desenvolver algum trabalho, vemos que tipo de trabalho eles podem e conseguem fazer dentro daquilo que podemos oferecer. Depois são treinados para as tarefas que vão fazer e só depois é que começam a trabalhar”, explica a diretora da AFID.

 

A AFID remete para a responsabilidade laboral, ao inclui-los em atividades profissionais pretende que estas pessoas possam e consigam cumprir horários, tarefas e funções. Tendo em conta que existe uma prestação de serviços e pretende-se que eles consigam terminar as tarefas a tempo e horas para que a associação tenha sucesso no seu trabalho e entrega de tarefas.

 

Estamos de volta à sala e a Maria quer muito contar a sua história.

 

Maria é bastante conversadora está muito atenta a todos aqueles que a rodeiam e sente-se como uma “mãe” de todos, com os seus quarenta e sete anos. Tem deficiência mental e um atraso no crescimento dos membros inferiores.

O sorriso na cara é constante ao longo da conversa, tem cabelos brancos, curtos e encaracolados, é muito magrinha e a sua voz é meio roca e doce.

Maria sente-se importante no grupo, com mais experiência e com muita sabedoria. Quer ajudar todos, principalmente os mais novos.

Maria explica quais são as suas responsabilidades dentro da associação.

 

Eu aqui dentro, às segundas à tarde, quartas à tarde e sextas à tarde faço estas flores que estás a ver aqui, que são feitas com caixas de ovos que já comemos. Pegamos em tesouras e cortamos para ficar em modo de flor, e depois temos ali tintas e pintamos. Também temos estes pauzinhos e fazemos um buraco para meter o pau e fazer o pezinho da flor. E isto é preciso ter muita atenção porque isto são umas encomendas que uma empresa nos faz. Temos que ter as flores todas que nos pedem prontas de duas em duas semanas à sexta-feira, depois pedem-nos mais à segunda-feira. E não pode falhar! Ás vezes os mais novos enganam-se (risos), por isso nós vamos ver as flores todas várias vezes para sabermos se ficou tudo bem. Também já ajudei a arrumar a sala onde nós lanchamos de manhã, almoçamos, lanchamos à tarde. Tinha que limpar as mesas todas, ver se não tinha ficado nada no chão. Depois tenho uma terapia, que são os massagens muito relaxantes à quinta-feira à tarde. E também vou ao ginásio, fazer remo por causa das minhas pernas... aquilo deixa-me mesmo, mesmo, cansada!”

 

Gosta de estar incluída no grupo e intitula o grupo como “nós aqui somos os que trabalhamos” e explica que a psicóloga ajuda-os a organizarem-se para conseguirem fazer tudo o que gostam e querem fazer.

Nos dias que sai do remo e está mais cansada, as quartas feiras de grupo deixam-na ainda mais cansada.

 

Há dias em que me dói a cabeça e não me apetece estar aqui com este barulho, mas gosto de todos e somos muito amigos. Percebemo-nos todos muito bem, e eu estou sempre a querer ajudar os outros e quando é preciso também me ajudam. (Olha para a monitora e ri-se) As nossas monitoras são todas muito queridas e ajudam-nos bastante. Quando nós estamos...(pausa) assim mais tristes elas ajudam-nos a não nos sentirmos tão diferentes.”

 

Maria sabe desde muito nova que tem uma deficiência e um atrofio nas pernas, diz que quando era mais nova foi difícil alguns momentos mas que depois soube superar. A entrada na AFID veio facilitar o seu quotidiano, pelas atividades que são desenvolvidas e que a torna útil para a associação e concretização pessoal.

 

O que para muitos pode parecer fácil para outros é uma tarefa mais complicada e que requer alguma concentração.

A descrição da sua semana vai até ao mais ínfimo pormenor.

 

Eu à segunda-feira de manhã e quinta-feira à tarde vou para uma escola primária, aqui perto, e trabalho na cozinha. Eu arrumo os talheres. E é um trabalho que preciso de ter muita atenção. Os talheres que estão lavados estão todos dentro de um alguidar, e eu tenho que separá-los. Preciso de contá-los e escrever numa folha ao lado quantos garfos grandes, garfos pequenos, facadas grandes, facas pequenas, colheres grandes e colheres pequenas é que estão lá. Apontar o dia e a hora e escrever lá o número de talheres. E tenho que pô-los nas divisões certas. Não me posso enganar! Os garfos grandes têm um sítio, os garfos pequenos já são num sítio diferente. E também as facas grandes e pequenas e as colheres grandes e pequenas. E por isso preciso de muita atenção e não me posso enganar.”

 

Não gosta de estar parada, tem os dias organizados para serem completos de atividades. O que mais gosta são as massagens que recebe, principalmente na cabeça. Quando conta do que mais gosta as frases são acompanhadas de risos e sorrisos, pois as massagens são uma das sessões de terapia. Confessa que está sempre a pedir para ter mais tempo de terapia e não pode ser!

 

Tal como Francisco a maior gratificação é poder estar ocupada.

 

A maior gratificação é poder fazer estas coisas, porque eu não gosto de estar parada. Por isso eu gosto de estar a fazer o que estou a fazer. E tenho os dias todos ocupados. Não gosto mesmo nada de estar sem fazer nada.

 

A AFID concentra-se numa procura de uma nova cultura social: a igualdade de oportunidades, a inclusão, a igualdade de género.

A associação tem um Centro de Atividades Ocupacionais que tem vindo a dar resposta a vinte pessoas com deficiência. Este Centro garante a ocupação e as condições de apoio técnico-pedagógico necessárias à reabilitação funcional dos seus clientes, tentando garantir-lhes a manutenção das suas autonomias pessoais.

AFID desenvolveu e criou duas empresas de inserção social, a AFIDGreen e a AFIDClean, sendo esta última vocacionada para os desempregados de longa duração.

A primeira apoiada pelo IEFP, enquadra-se nos objetivos do Plano de Ação para Inclusão das Pessoas com Deficiência ou Incapacidade, é uma pessoa coletiva sem fins lucrativos. Tem como missão promover os Direitos Humanos e a Cidadania, combater a exclusão social através da inserção profissional de públicos desfavorecidos, contribuir para a igualdade de oportunidades nos acesso ao mercado de trabalho. O tipo de trabalho desenvolvido pela AFIDGreen é ligado à jardinagem, os trabalhadores trabalham nos campos e nos jardins.

A AFIDCLean, também apoiada pelo IEFP, enquadra-se na legislação em vigor sobre as empresas de inserção e vocaciona toda a sua atividade para o cumprimento dos objetivos nos equipamentos sociais da Fundação AFID Diferença. A sua missão é promover os Direitos Humanos e a Cidadania, combater a exclusão social através da inserção profissional de desempregados de longa duração.

 

A Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente também desenvolve formações para as pessoas com deficiência.

 

Fazemos um trabalho de integração, em que fazemos treino em contexto, em relação aos transportes, em relação às tarefas que lhes são dadas.”, diz Lutegarda Justo.

 

Na sala o barulho é constante e Bernardo tem dificuldades na fala, Maria pede para que os outros façam menos barulho para Bernardo conseguir falar. Bernardo está de pé e Francisco vai buscar uma cadeira para ele se sentar.

 

Bernardo tem uma deficiência na fala, gaguez, não lhe permite uma comunicação rápida e constante. É tímido e o tremer das mãos é bastante, as pálpebras batucam conforme a repetição das sílabas onde fica bloqueado ao falar.

Apesar dessa dificuldade, gosta de conversar e vai arranjando mecanismos para dar a volta à gaguez, com as terapias.

Tem trinta e quatro anos, trabalha dentro e fora da AFID. Já trabalhou num supermercado como repositor e agora trabalha nos armazéns de um jornal. Na associação está encarregue de fazer os lanches para si e para os seus colegas.

Os trabalhos de que está responsável são de tarefas rotineiras e repetitivas. Inicialmente quando foi colocado num supermercado como repositor a ideia era que Bernardo conseguisse desenvolver mais facilmente a comunicação com pessoas fora da associação, a experiência teve pouco sucesso!

 

Aqui somos todos amigos, gostam todos de mim. Quando eu trabalhava no supermercado e tinha contacto com o público às vezes desistiam de falar comigo porque falo mais devagar, ou demorava muito tempo a dizer onde estavam as coisas das prateleiras. Não gostava quando me olhavam de forma diferente. Se eu estava ali a trabalhar é porque conseguia, e não para as pessoas terem pena de mim.”

 

Antes das quatro da tarde tem que estar a fazer os lanches, o que são os lanches?

 

Faço os lanches da tarde, tenho que abrir o pão e pôr a manteiga. Quer dizer... Não é só manteiga. À segunda-feira é pão com manteiga e fiambre, à sexta-feira é manteiga e presunto. Só à quarta-feira é que é pão com manteiga. Depois à terça e á quinta não sou eu a fazer os lanches.”

 

Aos dias que não faz os lanches trabalha no armazém de um jornal o dia todo, é suficientemente autónomo para se deslocar de transportes públicos e leva o almoço da AFID.

 

Estou a arrumar os jornais. Tenho lá muitos jornais e tenho que os separar em grupos, prende-los e depois por em filas.”, diz Bernardo.

 

A maior gratificação pelo seu trabalho atual é terem renovado o contrato, iria terminar agora e fizeram uma reavaliação do seu desempenho e renovaram o contrato por mais um ano.

 

Bernardo diz que não pensa em receber alguma remuneração, “eu gosto de lá estar e as pessoas recebem-me todas muito bem. Por isso eu gosto.”

 

 

Representar as Famílias ao nível da cidadania, sensibilização para os direitos contemplados na legislação atual, principalmente na Convenção dos Direitos das Nações Unidas, é um do principais objetivos da associação.

 

A pertença à AFID é uma mais-valia para pessoas com deficiência, pois tem como objetivo incluí-las como conseguirem na sociedade de forma profissional e social, e pelos testemunhos tem sido com muito sucesso!