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As duas faces da lua

De repente estamos perante uma balança emocional, de um lado temos a mania e do outro a depressão. É a lei do 50-50. Dois estados emocionais opostos e uma só pessoa. Esta é a história de vida de um homem e uma mulher a quem foi diagnosticado um quadro psiquiátrico bipolar tipo 1.

18 dez 2016, 22:10 Nádia Canhoto
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1986 – A primeira crise

 

Delfim Oliveira tinha quarenta anos quando recebeu uma chamada que lhe mudaria a vida para sempre.

O primeiro sintoma de crise bipolar que tive aconteceu em 1986, embora na altura não tivesse sido logo diagnosticado com esta patologia.”

Tinha uma vida totalmente normal, um trabalho, uma família e uma vida social saudável. Sempre foi uma pessoa extrovertida, já nos tempos de adolescente era Delfim quem comandava o grupo, fosse para o bem ou para o mal. Sempre teve extrema facilidade em relacionar-se com os outros e em fazer novas amizades.

Na escola eu era o chefe do grupo, para o bem e para o mal. Era eu quem planeava tudo”

Nasceu em Vila Pouca de Aguiar, uma pequena vila portuguesa no Norte do país, que pertence ao distrito de Vila Real. Mudou-se para Lisboa em 1964 onde esteve incorporado e ao serviço da Marinha de Guerra até 1969. A partir de 1969 iniciou o Curso de Gestão Contabilidade e Comércio até 1973.

 

O telefone tocou. Estávamos em pleno mês de agosto, num dia quente do verão de 1986. Foi completamente apanhado de surpresa quando lhe ligaram

Lembro-me bem desse dia. Ligaram-me a dizer que o meu pai tinha sido preso. Claro que fiquei em choque. Tive de meter-me num comboio e ir dar-lhe apoio porque ele precisava de mim.”

Não podia ter sido pior, foi obrigado a deixar tudo o que tinha e meter-se num comboio. A vida que levava há quarenta anos tinha sido deixada em suspenso. Nunca mais seria a mesma.

 

Segundo Delfim, à exceção de uma rutura amorosa, tudo corria normalmente na sua vida.

 

O acontecimento levou-o a um estado emocional triste que rapidamente evoluiu para hipomania. Tinha começado a primeira crise.

 

A hipomania é muitas vezes difícil de detetar. O doente sente-se bem e não sente nenhuma alteração comportamental. Digamos que os sintomas apresentados não são suficientemente graves a ponto de perturbar a vida social e laboral. Já num episódio maníaco, o doente, apresenta uma boa disposição excessiva e o comportamento é visivelmente alterado. Explica-nos Fernanda Barros – psiquiatra.

 

Se Delfim era extrovertido por natureza, mais extrovertido ficou com os primeiros sinais de bipolaridade.  

 

Esteve durante três meses em Vila Pouca de Aguiar, onde viveu sem limites, num quadro de mania-euforia. Estava montado o caos.

Estive lá cerca de três meses e foi a loucura total, entrei num estado emocional eufórico-maníaco, não tinha consciência daquilo que fazia… Comecei por perder o sono, só dormia duas horas por dia. Imagina a quantidade de tempo que tinha… Deixei de conseguir conservar as minhas amizades, o que é sintomático, refugiei-me na bebida e na noite (…) Perdi 15 kg no espaço de três meses.”

Os amigos fugiam a sete pés, mesmo que o convite fosse um simples almoço.

Depois dos amigos já não terem paciência para aturarem as minhas manias “euforias” adotei um cão como companhia a quem chamava “Piloto”, a fim de criar algum humor no quadro da insanidade delirante."

O meio era pequeno e os boatos não tardaram muito a fazer-se ouvir. Uns diziam que andava drogado, outros diziam que lhe tinha sido feito um bruxedo.

As pessoas achavam que o meu problema era um caso de bruxas.”

Delfim estava sozinho, nem mesmo o médico de família o conseguiu ajudar, a bipolaridade era quase um tabu na altura, pouco ou nada se sabia.

Recorri ao médico de família num estado físico e psíquico no limite, não obtive qualquer diagnóstico nem resposta almejada, devido ao fato de na época, ainda ser uma doença desconhecida por aquela especialidade médica.”

Com um estado físico e psíquico no limite e sem resposta médica, optou por seguir a sugestão de um familiar e começou a tomar um sedativo. Finalmente estava a voltar à normalidade, conseguiu voltar a dormir 8 horas ao dia. O estado de mania-euforia acalmou e aos poucos a sua vida foi voltando ao normal.

 

1989 – O diagnóstico

 

Já em Lisboa, os sinais que julgava desaparecidos voltaram a dar de si. Estamos agora em 1989, quando volta a ter uma recaída, desta vez de grau mais elevado e debilitante.

 

Estava num estado psíquico inimaginável. Foi então que decidiu seguir o conselho de um casal amigo e ir a uma consulta no Hospital Júlio de Matos. Foi aqui que lhe foi diagnosticada a doença bipolar. Estava perante um quadro bipolar tipo 1.

 

O doente a quem é diagnosticado um quadro bipolar tipo 1 oscila entre a mania e a depressão. Em alguns casos, as crises podem ser mistas, isto é, o doente sofre os dois sintomas, mania e depressão, ao mesmo tempo. Explica-nos Fernanda Barros - psiquiatra. 

 

O sofrimento já não era sequer descritível, parecia um poço sem fundo. Delfim acabou por aceitar o internamento que lhe foi proposto neste Hospital.

Aceitei o internamento, porque o sofrimento não tinha grau nem limites, as ideações suicidas eram imaginadas em atos radicais.”

Durante os 21 dias de internamento foi sujeito a sessões de eletrochoques. Na altura a terapêutica não estava a produzir os efeitos desejados e era a única opção para poder sair do buraco.

“Os eletrochoques tiraram-me do hospício” foram as palavras de Delfim enquanto nos contava este episódio da sua vida. Foi um choque porque não teve qualquer tipo de preparação prévia, não tinha consciência de quais eram os fins e os resultados a que estava a ser submetido.

Diz-nos para imaginarmos a cena dos eletrochoques do filme “Voando sobre um ninho de cucos.”

 É igual ao que mostram no filme. Amarraram-me a uma cama de ferro, sem roupa, extremamente fria, com um capacete na cabeça (…) foi um ato doloroso, causou-me sequelas e traumas, que demoraram cerca de dois anos a sarar. Mas recuperei de tudo e não fiquei traumatizado com a situação.”

Delfim quer deixar claro que as pessoas diagnosticadas com bipolaridade podem fazer uma vida perfeitamente normal, desde que tenham cuidado com a medicação.

A sensibilidade das pessoas bipolares é muito maior, sobretudo, aos fatores da vida, como os divórcios e a perda de trabalho (…) mas se respeitarem o diagnóstico e tomarem a medicação adequada, podem ter uma vida normal.” Reforça.

 

2016 – Atual Presidente da Direção da ADEB

 

Hoje com 70 anos é Presidente da Direção da ADEB – Associação de Apoios aos Doentes Depressivos e Bipolares, um projeto com 25 anos, em que acredita e luta todos os dias. Foi um dos fundadores em 1991.

Em Portugal continuam a ser poucos aqueles que dão a cara pela causa e isso continua a ser um problema. Por outro lado, os familiares muitas vezes fogem ao conhecimento, acabando por desvalorizar e não saber ajudar o doente bipolar. Acabam por estigmatizar sem saber, o que não significa que não gostem ou não queiram ajudar. Apenas ajudam de maneira errada.”

 

Existe de facto um estigma social em torno do transtorno bipolar. As alterações de humor de um doente bipolar, sobretudo, num episódio maníaco podem chocar as pessoas. O doente deixa de ter noção do certo e do errado e pode chegar a infringir normas sociais. Esclarece Fernanda Barros – psiquiatra.

 

Anabela também tinha pouco mais de quarenta anos quando lhe foi diagnosticado um quadro bipolar tipo 1. No seu caso foram vários os acontecimentos que despoletaram a doença.

Voltei de França com 18 anos e a mudança não foi fácil. Tive de voltar a aprender uma nova língua e ambientar-me a um meio mais pequeno. Estava habituada a outro estilo de vida.”

Foi nesta altura que teve a sua primeira depressão.

 

Já com vinte e poucos anos casou-se e fez juras de amor. Mas o seu casamento foi tudo menos um conto de fadas.

Passei por coisas que só quem passa consegue explicar. Cheguei a ser perseguida e tive de recorrer ao Apoio à Vítima. Mas são coisas que já lá vão e não me quero lembrar delas.”

 

2010 – O diagnóstico

 

Há seis anos teve um esgotamento profundo. Tinha batido no fundo, estava sem forças. Acabou por ser internada numa clínica em Telheiras. Durante o primeiro mês esteve na ala 1, que recebe os casos psiquiátricos mais graves, onde fez uma cura do sono. Nos dois meses seguintes, já com sinais visíveis de melhoria, fez psicoterapia e terapia de grupo.

 

A vontade de sair da clinica estava sempre presente.

Acabamos por nos sentir um bocado revoltados lá dentro. Mas também há cenas giras que se passam entre nós. Acabamos por nos apoiar uns aos outros (…) e sentia que tinha mais apoio ali do que cá fora, sentia-me compreendida e sinto que fiz amigos lá dentro.”

Outro episódio que recorda com alguma tristeza está relacionado com o filho mais novo.

 

2004 – O problema do filho

 

Aos quatro anos o meu filho foi diagnosticado como hiperativo com comportamento de oposição. Ele tinha comportamentos agressivos (…) cheguei a ter medo dele. Não foi fácil, uma mãe nunca está preparada para lidar com uma coisa destas. É preciso ter muita força e eu não sou de ferro.”

Hoje em dia, as coisas estão mais calmas, o filho está a recuperar e passam bons momentos juntos.

 

Com os pais e a irmã as coisas também não eram fáceis.

Sentia-me massacrada, não podia ter uma opinião, nem falar livremente, sentia-me pressionada a toda a hora (…) acabei por ter de me afastar da minha família durante uns tempos (…) no fundo sabia que para eles também não era fácil lidar com a minha doença.”

Mas a distância acabou por ajudar e hoje em dia as coisas estão normalizadas. O relacionamento com os pais é muito melhor e passa muito mais tempo com a mãe.

 

Anabela continua a ter momentos de grande vazio mas guarda-os para si. Uns dias são mais fáceis do que outros, é uma luta constante.

Claro que às vezes sinto um grande vazio por não ter ninguém com quem conversar sobre isto. Mas guardo-o para mim.”

 

2016 – Anabela de hoje

 

Hoje com 50 anos, Anabela, tenta pensar mais em si, começou finalmente a valorizar-se. Vive um dia de cada vez, aprendeu a viver no presente. Olha para o futuro com esperança de que terá dias melhor.

Estou a aprender a cuidar mais de mim. Valorizar-me mais e mimar-me mais e tento não ligar às coisas negativas que me dizem. Estou finalmente a dedicar-me a mim depois de tudo aquilo que passei. Não penso no passado nem no futuro, tento viver no presente.”

 

Delfim e Anabela são apenas dois exemplos onde a doença bipolar despertou. Duas histórias de vida diferentes, que retratam o testemunho de uma doença silenciosa. Pode aparecer em qualquer idade e ter ou não a ver com fatores genéticos.

É uma doença subjetiva, à semelhança, de outras patologias mentais. Requer tratamento, força de vontade e acompanhamento. Nem sempre é fácil, as crises variam de intensidade e não são previsíveis.

Neste caso, ambos chegaram ao internamento em determinada altura das suas vidas. Atingiram o limite mas hoje abraçam a vida de forma normal. Riem-se e estão positivos. É a vitória da outra face da lua que nem sempre conseguiu prevalecer.