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Uma outra forma de amar

As pernas começam a falhar e os braços a doer. Vai-se perdendo a força, a coragem e a alegria. Ainda assim, o amor tem conseguido sustentar todas estas vulnerabilidades. Angelina Moreira de Castro tem 74 anos e para ela o Amor também pode matar

18 dez 2016, 19:25 Juliana Pinheiro
O amor também pode matar

É a mãe que os filhos mais velhos, Paulo e Margarida se orgulham. Cresceu com o mais bonito conceito do que é uma família feliz. Não precisavam de muito, tinham-se uns aos outros. Ambicionou o mesmo, aceitou casar-se para cumprir este objetivo, disse não aceitar menos do que tinha.

 

 

Dito e feito. Estava no caminho que sempre desejou. Mas como tudo na vida somos nós quem tem de tornar o aparentemente imperfeito naquilo que é perfeito.

 

 

Tinha dois filhos e não queria mais. No entanto, mesmo não querendo e não estando à espera, aconteceu pela terceira vez. Aceitou. Faria de tudo para receber o que se seguia da mesma maneira que fez com os dois filhos mais velhos.

 

 

A surpresa era outra, trocaram-lhe as voltas. Teve gémeas, duas. Duas meninas completamente especiais que só notou isso aos três anos de idade. 

 

 

O mundo caiu aos meus pés. Nunca pensei...Caiu-me tudo! Durante a gravidez não dava para perceber. Só consegui detetar que elas não eram miúdas normais, porque após a sua nascença elas não desenvolveram, em comparação com os outros dois filhos normais que tive, estas eram diferentes. E isso notou-se aos 3 anos de idade. Na altura, a medicina era ainda muito atardada. Os médicos não conseguiram detetar de imediato o que elas tinham. As especulações eram muitas, mais tarde, com várias consultas e opinião de vários médicos é que soubemos o que elas tinham.”

 

 

Deficiência intelectual é designada pela falta de capacidades de um ser se tornar dependente. Vivem num mundo à parte, pouco compreendido pela ciência. Pessoas que estão, mas ao mesmo tempo não estão no mesmo mundo que o nosso. Pensam de forma retardada, têm muitas falhas.

 

 

No caso, a deficiência grave impossibilita estas duas meninas de se tornarem dependentes. Quase como impossível educar um cérebro de 43 anos que corresponde a um de 3 anos.

 

 

Para os pais, Angelina e José Maria a revolta falou mais alto. Procuravam respostas e não as encontravam. Aprender a lidar com as gémeas demorou.

 

 

Eram agressivas, não aceitavam um não. Berravam muito. Chegaram a fugir de casa. Cada vez que passeavam com os pais faziam birras, não a dos miúdos normais, birras com 16 anos. No centro onde os pais as inscreveram, próprio para acolher pessoas assim, roubavam os objetos aos colegas.

 

 

A mãe Angelina deixou de trabalhar para se dedicar inteiramente à educação das gémeas, Deixou de sair. Mudou de prioridades, deixou de lados os outros filhos. Agora a prioridade era a Carla e a Ana Maria.

 

 

A adaptação à sociedade era cada vez mais impotente. Tornou-se necessário arranjarem um centro com capacidade para acolher estas especialidades, onde as ajudassem.

 

 

Aqui o que fazemos é treina-las, isto é, sabemos que pessoas com este tipo de problemática aprendem e desaprendem num ápice. Por isso mesmo, diariamente é sugerido que façam as mais diversas tarefas. Desde arrumar o prato do almoço, a desenhar, a bordar e a criar tapetes. Fazem desporto três vezes por semana também.” Acrescenta Carla Carneiro, educadora do centro.

 

Para Angelina este centro é uma ajuda no sentido que as recebe das nove da manha até às cinco e meia da tarde, mas não é suficiente. Porque não evoluem. Aliás, com o passar dos anos desaprendem tudo.

 

 

A psicóloga Bárbara Martins acrescenta: “Enquanto técnicos não há muito que possamos fazer. Podemos criar e incentivar nas mais diferentes áreas. Mas é muito pouco, porque são pessoas muito limitadas. “

 

 

Elas não sabem fazer as tarefas mais básicas. Não conseguem tomar banho sozinhas, fazer uma cama. Têm dificuldades a comer. Cada vez se torna mais difícil compreende-las... Têm muitas dificuldades em falar, apesar de anos de terapia da fala os efeitos não são notórios.” Disse a mãe.

 

 

Angelina sente-se só. Viu a família a desmoronar com o alzheimer que José Maria viveu antes da sua morte. Nessa altura, era ela, a única a tomar conta dos três. Com a morte de José Maria a solidão aumentou. Agora é só ela e as gémeas a dar vida à casa que habitam faz anos.

 

 

Nessa altura foi tudo ainda mais difícil. Eu passei a ter três preocupações. No bem estar dos três. Era a única lúcida, a única capaz de ajudar. Já não tinha o meu marido para me ajudar com a casa, com as contas, com as miúdas, já não tinha com quem desabafar, já não tinha quem me ouvisse.”

A vida não lhe exigiu menos que a adaptação. Teve de continuar, sem pensar nela e a pensar sempre nas filhas. Porque elas são indefesas, os filhos mais velhos não, eles sabem defender-se.

 

 

As dificuldades de criar umas filhas assim são imensas, “ Eu recebo dinheiro do estado por cada uma. Mas que se engane quem acha que é o suficiente e que chega para as despesas delas. Não chega. As minhas filhas podem ter um problema, mas não é por isso que deixam de ser humanas. Eu dou-lhes tudo, mesmo que para isso vá às minhas poupanças, que, aliás, o faço quase sempre. Todos os meses tenho de ir à farmácia e saio de lá pejada de medicamentos. Eu tenho de as alimentar. Eu tenho de pagar o centro onde andam, incluindo todas as atividades que participam (desporto, terapia da fala, psicologa). Eu tenho de as vestir, eu como mãe que sou tenho de cuidar a cem por cento delas. Andam sempre arranjadas e bonitas, porque é assim que faço questão que andem. “, explicou Angelina.

 

 

Os valores são às claras. Num total de 430€ oferecido pelo Estado, sendo que a Ana Maria ganha 250€ e a Carla 180€. A discrepância de valores não é conhecida. Repartindo este montante pelas despesas que tem não chega. 60€ de cada uma para pagar o centro. Aproximadamente 100€ de farmácia. Mais alimentação, vestuário, consultas médicas e outras despesas.

 

 

“Não me estou a queixar, apenas gosto de deixar claro que, ao contrário daquilo que muitos pensam, eu não ganho por elas. Porque aquilo que gasto elas não conseguem cobrir. Mas faço-o porque reconheço as necessidades que têm e as amo incondicionalmente. As minhas poupanças são direccionadas para as meninas”.

Sente-se exausta. Cansada. Sente que os anos estão definitivamente a passar por si. Cada vez tem menos paciência para estar com elas. As miúdas estão cada vez mais velhas e quanto maiores, mais difíceis de aturar são. E, hoje, a energia já não é a mesma. Porque sente que agora, também ela precisa de atenção.

Por isso mesmo, está a tentar encontrar um centro que tenha possibilidades para as acolher, não só durante o dia como à noite também. Angelina diz que isto poderá trazer várias consequências, porque não está habituada a passar sem elas. Mas está capaz o suficiente para reconhecer que não pode continuar assim. Mais do que nunca, reconhece que precisa de uma pausa.

 

 

Eu com esta idade sinto-me sem forças já, vai-me custar imenso separar delas, são tudo para mim, mas é tão complicado porque eu estou muitíssimo cansada psicologicamente. É um esforço pela minha sobrevivência. Se elas forem para um centro e ficarem lá a dormir, aos fins de semanas, quando estiver com elas eu aí vou estar apta, com forças e energia para as receber da melhor maneira.” Disse a mãe das gémeas.

 

O que lhe tira o sono é pensar que pode morrer sem ter um sitio adequado para as deixar.

Tem dois filhos é verdade, mas sabe que as gémeas não se podem separar. “Não são nada uma sem a outra”. Andam sempre juntas e por isso a mãe não quer que isso possa vir acontecer. Não quer também deixar ao cargo dos filhos esta responsabilidade porque têm consciencia que umas filhas assim debilitam muito uma vida, em todos os sentidos. Não só a nível económico mas, também, a nível pessoal. E esta mãe não quer de todo que os filhos passem pelo mesmo que passa ha já 34 anos.

Em conversa com a irmã Margarida percebemos, “No início, quando era nova, não compreendia porque as minhas irmãs eram assim. Elas batiam-me e tratavam-me muito mal. Cresci e percebi que elas eram diferentes. E aceitei. As minhas irmãs são muito importantes para mim. Faço de tudo para ajudar a minha mãe. Elas vem para minha casa muitas vezes e comigo, elas têm muito respeito. Penso muito no que será delas sem a minha mãe. Será muito complicado para todos. Eu sei que a responsabilidade vai passar para nós, mas não me importo. Felizmente tenho condições para as receber em minha casa, mas sei que se isso acontecer não poderia trabalhar, iria ter de colocar de lado os meus filhos, porque elas são realmente umas meninas muito especiais que necessitam de muitos cuidados e de muita paciência.”

 

 

Carla e Ana Maria caminham lado a lado, protegidas daquele que provavelmente é o amor mais puro do mundo, o da mãe.

No colo carregam as bonecas, carregadas de lenços, acessórios e brinquedos que as preenchem de felicidade. Têm o cabelo em formato de caracól e lá está a mãe com a escova, sempre atrás, a amparar, a segurar, a cuidar daqueles caracóis.

 

A cada dia têm uma reclamação a fazer, discutem e discutem...e não passam sem ver o tempo para o dia seguinte.

 

Este amor ainda que forte começa a desgastar, a ficar sem cor. Angelina diz que se fosse hoje faria de tudo para não engravidar. Está triste. Frágil.

Não sinto amor delas por mim, parecem umas meninas que não tem amor pela mãe. Não demonstram sentimentos por nada. E isso é tão frustrante às vezes...”