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Moçambique: donativos angariados não foram entregues

Após seis meses do desastre natural em Moçambique provocado por dois ciclones tropicais, os donativos angariados ainda se encontram retidos em Portugal.

19 dez 2019, 00:00 Ana Rita Almeida
Distribuição de alimentos na Beira

O impacto das alterações climáticas colocou em risco os direitos mais básicos à humanidade em Moçambique. Quem já se encontrava em situações vulneráveis inevitavelmente ficou em maior risco. Uniram-se as forças e foram feitos vários apelos à solidariedade internacional. Em Portugal os bens foram angariados, no entanto após 6 meses do desastre ainda não se fizeram chegar às pessoas que necessitavam.

 

 

 

Num apelo à ONU a dia 26 de junho de 2019 o Primeiro-Ministro de Moçambique, Carlos Agostinho do Rosário, declarou:

“Sentimos na carne o que é esta necessidade de nos adaptarmos às mudanças climáticas”

 

@UNO news | Ciclone Kenneth 

 

Dentro dos grupos de Organizações Governamentais e Não Governamentais presentes na colaboração para a recuperação de Moçambique, Portugal teve um papel importante. Sendo uma ex-colónia e tendo em conta a representatividade da Comunidade de Países de Língua Portuguesa a residir em Portugal, o tema não pôde passar ao lado. Assim como foi notório o trabalho colaborativo entre várias entidades, até às instituições de Ensino Superior em cooperação com núcleos de Associações de Estudantes.

 

O grupo do Núcleo de Estudantes Africanos e Lusófonos entrou em contacto com a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para construir uma rede colaborativa entre os estudantes e iniciar uma angariação de fundos para que estes chegassem às pessoas em Moçambique.

 

@AE Nova FCSH 

 

A iniciativa foi avançada pelas redes sociais, de acordo com uma aluna representante da AE da FCSH, a adesão por parte da comunidade estudantil foi bastante positiva. Os alunos participaram ativamente na angariação dos donativos, começando com a partilha da iniciativa nas redes sociais, de forma a chegar a mais pessoas.

“alunos vieram e tentaram ajudar o máximo que podiam”, declara a representante da Associação de estudantes.

Logo após o ciclone Idai, a direção da Faculdade já estava em contactos com várias instituições de modo a criar uma rede de parcerias maior para a recolha dos donativos.  A aluna, durante a entrevista esclareceu que “uniram-se as forças, os próprios grafismos já estavam a ser feitos pelo próprio departamento de marketing da faculdade.”.

 

No entanto, a representante da Associação de Estudantes e a funcionária representante do Núcleo de Mecenato da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, alegam que todo este processo de angariação e recolha de donativos não teve o sucesso esperado. Esclarecem que “de facto as instituições estavam a pôr em primeiro lugar receber dinheiro e só depois os bens.” Pelo que “não haviam condições financeiras para transportar” admitindo que “os bens continuam cá.”

 

O grupo da Associação de Estudantes admite que atualmente “a nível de bens que cá estão, tendo em conta estes constrangimentos e tendo em conta que já passaram esses seis meses (…) vão ser utilizados e vão (…) ser entregues cá em Portugal.”

 

A Associação de Estudantes da FCSH é, atualmente, “bastante audível em muitas iniciativas” sejam elas de caris humanitário ou ambiental, difundindo várias causas ambientais dentro da comunidade estudantil “ou que pelo menos tenham essa linha de ação no seu quotidiano.”

 

“obviamente que isto causa um transtorno a nível interno”, confessam as representantes da Associação de Estudantes e do Núcleo de Mecenato da Nova FCSH, ao concluir que de facto todo o esforço e colaboração de todos os participantes na angariação de fundos, não cumpriu o seu objetivo inicial.

 

@Mário Macilau| Mozambique in a photography project

 

Ao contactar as instituições parceiras desta iniciativa portuguesa, questionando a razão que levou a que os donativos recolhidos não tivessem ainda chegado ao destino, a funcionária administrativa da Cruz Vermelha argumenta que a Organização tem a intenção de enviar os bens angariados em Portugal, mas que é um processo demorado devido à dificuldade de transporte. Esclarece que após estes seis meses ainda “está a ser enviado um barco cargueiro para Moçambique.” E que “os donativos monetários angariados estão a ser utilizados em Moçambique para a obtenção dos bens necessários, no país.”

 

 

Por parte dos CTT, que estão encarregues do transporte aéreo dos bens angariados, não foi possível obter resposta. Contudo, segundo as declarações da Nova FCSH alegam que também contactou a Embaixada de Moçambique em Portugal “a embaixada verificou que também não tinha condições financeiras para transportar.”

 

UNICEF | Tomé Raimunda dá de comer a uma criança da sua família, Teraza. A família ficou sem casa depois do ciclone Idai.

 

A 25 de outubro de 2019, seis meses após o desastre natural, a Organização Internacional para as Migrações anuncia que mais de 24,000 pessoas continuam em condições de insegurança. Sendo ainda muitas as vítimas que estão deslocadas e que estão distribuídas por várias comunidades de hospedeiras e campos de acolhimento. Devido às fortes tempestades muitas infraestruturas vitais para a sobrevivência destes povos foram arruinadas, como: escolas, hospitais, estradas, redes de saneamento e comunicação, mas também várias plantações, o que fez aumentar as carências alimentares para a população.

“De acordo com os dados mais recentes da DTM [Matriz de Rastreamento de Deslocados (DTM, na sigla inglesa] da OIM que acompanham o ciclone Kenneth, 24.036 deslocados continuam a ser rastreados” num comunicado emitido pela OIM

A chefe da Missão OIM em Moçambique, Katharina Schnoering, refere ainda, que:

 

"Os efeitos do ciclone Kenneth continuam a ser sentidos no norte de Moçambique. Apesar de seis meses terem passado e as águas terem recuado, a assistência continua a ser necessária (…)”  De forma a instar para uma continua preocupação em relação aos efeitos que ainda estão fortemente presentes na realidade do povo moçambicano. Mesmo com o trabalho colaborativo entre os locais e as organizações para a recuperação dos estragos, a OIM declara que os efeitos continuam a fazer-se sentir , declarando que "estão a tentar terminar rapidamente a reconstrução das casas danificadas antes da época de chuvas".

 

Karin Manente, representante do Programa Mundial de Alimentação, esclarece num comunicado à ONU News, que os progressos são notáveis na resposta aos ciclones, porém o acesso a água potável e assistência médica ainda são dificultados devido ao estado de devastação nas áreas afetadas. Manente afirma também que com apenas 42% do apelo inicial financiado, o número de pessoas que podem enfrentar graves níveis de desnutrição e fome, até à próxima colheita prevista para março de 2020, é bastante elevado.

 

O desastre natural que atingiu Moçambique provocou o risco de aumento de doenças transmissíveis. Segundo o Escritório das Nações Unidas de Assistência Humanitária, o surto de cólera tem sido contido devido ao sucesso da campanha de vacinação oral em combate à doença. Ainda assim, a malária está bastante presente e continua a aumentar na região de Sofala. A disseminação do vírus sida também apresenta uma grande preocupação na província de Sofala que de acordo com a Organização Não Governamental Médicos Sem-Fronteiras, o sexo transacional ou para sobrevivência pode ter aumentado.

 

 

"as mudanças climáticas já chegaram. Chegaram e vieram para ficar.", declara o Primeiro-Ministro moçambicano num comunicado à Organização das Nações Unidas.