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De Mim Para Ti <3.

Da Carolina para o Pedro. Do Pedro para o mundo. A história de um amor que ultrapassou a linha da vida e que continua a ecoar nos corações que lhe dão forma

26 dez 2016, 23:54 Sónia Santos
De mim para ti

 

Ao longo do pontão que rompia o mar revolto da Praia da Rocha, uma mancha de pessoas caminhava a passo desalinhado, de olhos postos nas pedras que lhes serviam de chão. O vento gelado que batia de frente e arrepiava a maré, era capaz de petrificar o mais feroz dos corpos e congelar a mais ardente das almas. Mas ninguém ficou para trás.

 

Nas mãos, carregavam rosas brancas que contrastavam com o céu cinzento e escuro e, à medida que avançavam mar a dentro, algumas pétalas iam ficando para trás, roubadas pelo vento. Era dia dos namorados, mas as rosas não simbolizavam romance.

 

O motor de um barco que se fazia ouvir do lado esquerdo da margem, deu sinal de paragem. Era Pedro que lá estava, mas não ia sozinho. Junto ao peito, carregava um pote que abraçava com a mesma força de quem abraça algo que não quer largar. E não queria.  Como se alí estivesse a coisa mais preciosa que a vida lhe tinha dado. E estava…

 

 

 Era Carolina. A bailarina de cabelos longos e sorriso tímido que tinha conquistado o coração gélido de um outro Pedro que naquele já não tinha lugar.

 

Foi nesse gelo que me encontraste, foi a esse gelo que me foste buscar e é fora desse gelo que a tua presença me preserva, no calor do teu sorriso, no teu jeito, na tua teimosia, na tua imperfeição, nesse tanto que sendo só teu me faz sentir que também eu sou, no teu ser. Um dia parto sem voltar porque não haverá mais para onde ir. Um dia fico, em casa, num mundo que deixam de ser dois e o depois escrevemos os dois, nesse nosso jeito de sermos: Nesse teu jeito de aquecer o que de mais frio tenho e neste meu jeito de preencher o vazio que o mundo te oferece", Pedro Pinto

 

O corpo de Carolina era agora cinza e Pedro decidiu libertá-la e entregá-la ao mar que sempre foi o seu. Agora ela também era dele.

 

Quando imaginei esta cerimónia, diante de todos vós, pensei que o meu casamento com a Carolina fosse o motivo, mas a vida assim não o quis”.

 

Estas foram as primeiras palavras que Pedro dirigiu às dezenas de pessoas que, horas antes, se juntaram naquela praia para homenagear Carolina Tendon, a sua namorada, naquele que era suposto ser o dia que os celebrava - O dia que se celebra o amor.

 

 

 

Ele, como em tudo na vida, foi o primeiro chegar. Montou o palco, as luzes, o ecrã, um verdadeiro espetáculo como tantos outros em que participou, ou não fosse o “Reflect” para a música. Mas aquele era diferente. Ele não tinha planeado estar alí. Não era suposto haver um palco onde ele entrasse sem que a Carolina dançasse. Aquele não tinha sido o sítio escolhido por Pedro para a surpreender no fim-de-semana do dia dos namorados. As rosas deviam ter sido vermelhas e as lágrimas de alegria. A praia devia ter sido um ponto de encontro, e não de despedida. E a Mariana, a parceira de Carolina, não devia ter dançado sozinha, mas dançou.

 

Falaram pela primeira vez no dia 2 de Maio de 2009, num espetáculo de “Novos Talentos”. Nesse dia, Pedro Pinto, fundador da editora algarvia “Kimahera”, convidou o grupo de Carolina e Mariana, as OMG Family, a juntarem-se a ele, nos concertos ao vivo. Beijaram-se pela primeira vez no dia 5 de Dezembro do mesmo ano. A partir daí, partilharam todos os palcos da vida, vivendo um bonito conto de fados, onde a Carolina foi a sua princesa.

 

 

 

A Carolina contava o tempo e zangava-se comigo por eu nunca ter bem a certeza, mas eu sempre lhe disse que não se contam coisas que não terminam. Estava certo. Nada termina e um dia o tempo ajustará contas comigo, porque isto não fica assim". Pedro Pinto

 

“Pedro, já não tens namorada"

 

“Pedro, já não tens namorada, e nós já não temos a nossa filha Carolina”. Foi com estas palavras que, três dias antes, o pai afetivo de Carolina lhe confirmou, o que ele já pressentia. O silêncio da Carolina significava o pior. Tinha adormecido no seu quarto em Évora, e nem o beijo de Pedro podia voltar a acordar um coração que, fragilizado, deixou de bater.

 

A vida encarregou-se de dar um novo rumo à história que tinham vindo a construir. Ele já não ia levá-la ao concerto do Tiago Bettencourt no dia dos namorados, nem comprar a casa que ela tanto gostou no final daquele ano, nem segurar-lhe pela mão, quando de branco, a levasse ao altar.

 

Fizemos muitos planos e no final do Verão íamos viver juntos, finalmente. Depois de tantos anos a fazer a mala todos os fins-de-semana, finalmente o nosso pequeno grande espaço. Com os nossos animais (dois cães e dois gatos, para que pudessem brincar uns com os outros! Ah e coelhos também. A quinta toda, como tantas vezes dissémos" Pedro Pinto

 

 

Ela já não ia ser médica veterinária, e ele nunca mais ia poder estar na primeira fila a vê-la dançar, nem fotografar e filmar tudo, perpetuando cada momento e cada palavra, como sempre fez. É que Pedro tinha o estranho hábito de guardar cada recorte, cada página e cada mensagem, garantindo sempre, que nada ficaria por dizer.

 

 

 

 

Quis o destino que a minha história e a da Carolina fosse a mesma. Hoje percebo porque é que tinha de ser eu e não outra pessoa. Tinha de ser alguém chato, sempre de máquina na mão a fotografar, a filmar e a levar a paciência da Carolina ao limite. «Opá, deixa-me, chato!», repetiu ela tantas vezes… Estava tudo planeado e era necessário guardar cada momento para que pudesse ser agora recordado.” Pedro Pinto

 

Mas se a vida se encarregou de dar um novo rumo à sua história, o Pedro encarregou-se de provar à morte que se tinha metido com o namorado errado. A Carolina era demasiado importante para ser levada pela maré sem que o mundo tremesse. E o Pedro era demasiado teimoso para a deixar ir, sem que o mundo soubesse da dimensão do seu amor.

 

Enquanto o ar me passear pelos pulmões, hei-de abanar a terra a cada passada, agitar a água a cada braçada e temperar os lábios a cada gota de saudade que os meus olhos deixem fugir, mas continuo e agito. Agito o mundo para que, onde quer que estejas, sintas que o amor que fica pendurado no infinito não morre e que o tempo nada pode contra nós”, Pedro Pinto.

 

 

 

Da Carolina para o Pedro, do Pedro para o mundo

 

A partir daquele dia, na Praia da Rocha, começou uma nova história. A história que Pedro escreveu, com a ajuda de Carolina e da sua família, e de todos os que se apaixonaram pela bailarina de cabelos longos. Ergueu a cabeça, enxaguou as lágrimas, e fez do sentimento a força necessária para acordar todos os dias, e cumprir um último sonho: A Carolina já não podia ser médica veterinária, mas ainda podia ser escritora.

 

 

A Carolina tinha uma sensibilidade enorme e sentia tanto o mundo que foi capaz de escrevê-lo como poucos conseguiriam. Deixou textos que vou reunir com a ajuda da família e daí nascerá um livro, um pedaço de história para que a história que a Carolina escreveu nunca se apague.”

 

Este foi o primeiro recorte que Pedro encontrou, dos muitos que a Carolina tinha deixado. Um apelo para que se unissem, e foi o que fizeram. Os dias foram passados na casa dos pais de Carolina, em Portimão, a percorrer cada página, cada nota, cada mensagem, para que dalí surgisse o livro que ela sempre quis escrever. E sempre que surgia alguma dúvida sobre o que fazer, por onde seguir, aparecia uma nova mensagem que voltava a dar sentido a tudo, as mensagens que a Carolina deixou.

 

 

 

 

E assim surgiu o “De mim para mim”, o livro que reúne frases, textos, dedicatórias e poemas que Carolina escreveu, desde os 10 até aos 22 anos, por ordem cronológica, e respeitando a formatação estética que esta lhes tinha dado. À medida que vamos folheando o livro, acompanhamos o crescimento da Carolina, ao mesmo tempo que ela nos guia pela mão e nos confronta com as coisas mais importantes e simples da vida, mas que teimamos em mitigar. Fala-nos de amor. O amor ao próximo, à família, aos animais, à natureza, aos amigos, o amor à vida. O mesmo amor que fez com que as suas palavras não ficassem perdidas no tempo. Mas também nos fala da perda, da tristeza, da superação, da dor que sentimos quando perdemos algo que amamos. A mesma dor que ela deixou, mas que ajudou a superar. 

 

 

Mais do que uma vontade da Carolina, passou a ser uma vontade minha... nossa. Eu sabia que este livro iria existir. Só nunca pensei que fosse tão cedo.” Pedro Pinto

 

 

O “De Mim Para Mim” de Carolina Tendon foi dado a conhecer ao mundo no dia 21 de Junho de 2014, no dia do seu aniversário. O “TEMPO”, em Portimão, encheu-se para conhecer a história de Carolina Tendon, pela voz de Pedro Pinto, o mestre de cerimónias cujas mensagens de amor, divulgadas na sua página de Facebook, chegaram a todos os cantos do país, emocionando e contagiando todos aqueles que se sentiram inspirados por esta história de amor. Ele já não podia levá-la pela mão a conhecer o mundo, mas encarregou-se de garantir que, de alguma forma, ela chegasse a ele.

 

A cada oportunidade, levei-te a ver o mundo e tu mostraste-me o que de mais importante o mundo tem, e foi no teu amor que fui livre. Foi no teu amor que viajei. E quantas aventuras partilhámos juntos… nada ficou por fazer Carolina" Pedro Pinto

 

 

 

 

A partir daí, começou uma longa caminhada de 365 dias, percorrendo 17 mil quilómetros, de Norte a Sul do país. Foram mais de 50 apresentações e 30 fins-de-semana, onde acompanhado da família Kimahera e dos pais de Carolina, levou-a a todos os cantos do país. Bateu a todas as portas e, mesmo quando não tinha resposta, voltava a tentar, as vezes que fossem necessárias, garantindo que as palavras de Carolina chegassem a todos os locais onde a sua história se tinha cruzado. 

 

É por sentir que chego. É por sentir que parto, mas não vou. O que fica é demasiado grande e o que vai volta maior. Pelo meio? Pelo meio somos humanos, pelo meio temos coisas, pelo meio somos menos humanos por termos mais coisas e a mim interessa-me o que de humano fica nas coisas; um cheiro, um jeito, uma marca, um sinal, um pedaço que não deixa esquecer que quem esteve faz parte, mesmo quando parte."

 

 

A cada apresentação que chegava, o cenário era sempre o mesmo. Uma mesa, duas cadeiras e um pé de microfone, típico das apresentações de livros. Mas esta era diferente, esta era especial. Rapidamente o cenário frio dava lugar a um palco montado pela equipa Kimahera. Alí, falava-se de amor, contavam-se histórias, declamava-se poesia, mostravam-se vídeos, recortes, imagens, e cantava-se. Cantavam-se as palavras de Carolina, as palavras de Pedro, dos amigos e da família. Tudo era pensado ao pormenor, ou não fosse o Pedro, o Pedro de sempre.

 

Mas o sonho da Carolina não morava nas páginas daquele livro, mas sim na diferença que aquelas palavras poderiam fazer na vida de alguém. E foi com o objectivo de inspirar os outros que peguei na mochila e, durante um ano, dei a conhecer a nossa história e as mensagens da Carolina aos milhares de pessoas que nos quiseram sentir um pouco por todo o país." Pedro Pinto

 

Era um espetáculo. Um espetáculo que acabava sempre com uma enorme ovação, surpreendendo tudo e todos, mesmo aqueles que no início se mostravam frios e distantes, sem saber bem ao que iam. Até as 'altas entidades', que apareciam para “cumprir o protocolo”, acabavam rendidas. Havia uma sensação estranha que enchia os corações no final de cada apresentação. Os apertos de mão e beijinhos de circunstância do início, davam lugar a longos abraços sentidos, num misto de comoção e confortamento. As pessoas saíam mais bonitas, e pareciam mais felizes.

 

 

 

Évora, a segunda casa

 

Foi na porta nª 17 da Travessa da Tâmara, em Évora, que muitos dos textos foram escritos, pela noite dentro, quando a saudade apertava, e as pausas nos estudos deixavam. Foram três anos a subir e a descer a Rua do Raimundo, com a malinha de rodinhas já gasta das deslocações a casa e que, tantas vezes, foi Pedro a carregar.

 

 

 

Alí, dividiu os dias entre a cidade e o campo, no meio dos animais que tanto gostava e que um dia quis tratar. Faltava pouco, muito pouco. E ainda que nunca tenha erguido o diploma, os amigos e colegas, juntamente com o namorado Pedro, encarregaram-se de garantir que a capa, as fitas e o caminho que percorreu naquela instituição, ficasse bem marcado na cerimónia de final de curso.

 

 

 

A Carolina amava os animais e sempre fez deles membros da família. Primeiro o Kik, a Tita e principalmente a Kina, a sua eterna companheira e que lhe aquecia nas frias noites de estudo em Évora, mas que um dia, teve de ver partir.

 

A 7 de Setembro de 2012, o coração da Carolina ficou mais frágil porque ela não quis ser egoísta e libertou a Kina da dor que nada faria desaparecer, mas somente durar. Foi esse teu coração gigante que, enfraquecido, te traiu e nos empurrou a todos para a eterna saudade e revolta de não mais ver o teu doce sorriso… Carolina, cuida da Kina e espera por mim na nossa casa, naquela que querias e que eu não pude comprar. Espera com aquele vestido, aquele que me mostraste, e calça aquelas botas, aquelas que te ajudei a escolher.»

 


 

E depois do livro, eis que surge o «Gata.» O álbum que reúne a versão cantada dos muitos poemas e textos que Carolina e Pedro escreveram, entre tantas outras músicas que foram sendo criadas. As vozes são das muitas pessoas que fizeram parte desta história, incluindo aquelas que nunca chegaram a conhecer Carolina, mas que através do «De Mim para Mim», acabaram por fazer parte da família Kimahera. Amigos, artistas e até gente anónima, cujo único traço em comum foi terem sido, também eles, contagiados pelas palavras de Carolina.

 

O álbum, lançado a 7 de Setembro de 2015, o dia que assinalava a morte de Kina, foi uma homenagem de Pedro às suas duas gatas.

 

 

Mas a caminhada não acabou aqui. Foi num palco que se conheceram, e é no palco que Pedro continua a celebrá-la, ano após ano, por altura do seu aniversário. Criou o  «[] No Movimento.», um espetáculo de dança que reúne os melhores bailarinos nacionais, incluindo os que Carolina sempre admirou, e que agora partilham o palco que ela, sem saber, acabou por dar forma.

 

Um dia, ‘apresentaste-me’ a Rita Spider. E um dia, eu ‘apresentei-te’ à Rita Spider.” Pedro Pinto

 

 

 

Para que as gerações futuras saibam que, um dia, houve uma bailarina chamada Carolina Tendon, que sonhou pisar todos os palcos do mundo. E enquanto ecoar na memória dos que por lá passarem, uma parte dela, estará sempre lá, a cada ritmo, a cada batida, todos os dias, no movimento.

 

 

 

A última mensagem que lhe enviei, foi: «Carolina, onde é que tu estás?» Hoje percebo que onde estás não interessa, porque um dia estaremos juntos e será esse o motivo para continuar a seguir os meus sonhos, tal como me pediste. Se és agora uma estrela no céu, eu não sei. Mas sei que não preciso de olhar para cima para encontrar-te. Ao olhar para mim, vejo-te na pessoa que aprendi a ser, ao teu lado." Pedro Pinto

 

 

 

Eles não viveram juntos para sempre, mas tiveram um final feliz.