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Um advogado na defesa do ambiente

Todos os anos, no final de cada inverno, Marco Ferraz, advogado portuense, dinamiza e participa em ações de recolha de lixo. A Praia da Torreira e a Ria de Aveiro são o pano de fundo de uma luta que não tem tréguas.

30 nov 2019, 00:00 João Faria
Fotografias de

Num solarengo final de tarde de outono, o areal da Praia da Torreira, que vislumbro no horizonte, está vazio, despido de pessoas. De pessoas, mas também de lixo. Foi por que isso pedimos a este advogado, de 63 anos, uma conversa. Para falar de lixo e das suas consequências.

 

MARCO FERRAZ, O ADVOGADO

 

                               Marco Ferraz

 

Advogado no Porto, Marco Ferraz combate por aquilo em que acredita há cerca de 40 anos, num escritório do qual é sócio. Apesar da agenda preenchida e dos inúmeros compromissos associados à sua atividade profissional, todos os meses de fevereiro investe parte do seu tempo numa ação de limpeza de praias, através da recolha de todo o tipo de lixo e de resíduos.

 

MARCO FERRAZ, O ATIVISTA

 

Marco Ferraz comenta a sua ligação especial àquela praia. Corria o ano 2000. Já perto de completar meio século de vida, decide comprar casa na zona da Torreira, perto da praia com o mesmo nome. Um refúgio de fim-de-semana, um escape da agitada rotina portuense. Considera-a a sua segunda casa e a praia da Torreira como uma sua extensão. É parte do seu património de vida. Sente-se responsável pela conservação da praia que o cativou e que o fez apostar neste território fronteiriço à Ria de Aveiro.

 

A Praia da Torreira

 

É, portanto, com alguma tristeza que me descreve o estado de degradação em que, todos os invernos, nos seus habituais passeios de domingo, encontrava aquele areal. Embora elenque os variados objetos com que se foi deparando, põe a tónica na grande questão ambiental dos nossos tempos.

 

Há plástico por todo o lado. Para onde quer que se olhe, há plástico.

 

 

A INICIATIVA

 

A conversa dá um salto cronológico até ao início desta década, mais concretamente ao ano de 2013. Marco Ferraz tem a sua casa integrada num aldeamento muito próximo da praia, os “Jardins da Ria”. Em convívio frequente com os seus vizinhos e amigos locais, tornou-se tema frequente a poluição e detritos depositados na praia e no mar, com a qual já se iam habituando a conviver. A indignação e desagrado iam aumentando proporcionalmente ao definhar daquele que era o seu paraíso. “Falava com as pessoas e era cada vez mais nítido o inconformismo com a situação. Aquilo não podia continuar assim”. Da teoria à prática, e ainda que não consiga precisar, terão passado alguns meses. É nessa altura que, em reunião de Direção da “Associação de Proprietários dos Jardins da Ria”, gestora daquele aldeamento, a ideia surge. Marco Ferraz não sabe identificar o autor da mesma. Talvez todos, juntos pela mesma causa. Decidem organizar uma iniciativa de recolha de lixo na praia, endereçando, por e-mail, um convite a todos os proprietários, num apelo cívico e ambiental. “Fiquei muito contente por ver que se reconhecia ali um problema urgente. Muitas vezes, há boas intenções mas falta pôr mãos-à-obra.” Ficou expectante quanto ao nível de adesão à iniciativa. Não lhe era evidente que, programada para uma tarde de sábado, a mesma tivesse sucesso garantido. Mas, assume, desde cedo sentiu um grande entusiasmo e dinamismo em redor da campanha, que se lhe começava a revelar promissora.

 

No dia e hora marcados, o advogado compareceu no local combinado, a zona dunar contígua ao areal da Praia da Torreira. Não nos esconde a surpresa e o exceder de expectativas, quando se depara com o grupo reunido. “Eram mais de 40 pessoas, seguramente. Era um número alto, sobretudo considerando a relativa desertificação da terra”. Depois de alguns minutos, em que mais cidadãos se juntaram à causa, era o momento de concretizar um plano simples: espalhados pelo extenso território da praia, recolher, em sacos de plástico distribuídos pelos participantes, todo o lixo com que se deparassem.

 

 

Na primeira edição desta iniciativa, os voluntários depararam-se com um cenário mais dantesco do que aquele que conheciam e previam vir a encontrar. “Vimos de tudo. Encontrámos os objetos mais inimagináveis".

 

 

"Botas, galochas, luvas, caixas, garrafas de cerveja, pacotes de tudo e mais alguma coisa. Até fraldas de bebés", descreve ainda o advogado. A tarde de limpezas terá durado aproximadamente 3 horas e meia, segundo nos conta Marco Ferraz, que revela ter chegado ao fim do dia com o reconfortante sentimento de missão cumprida. “Quem tinha visto aquela praia e quem a via agora”. De facto, afiançou-nos, da paisagem da praia não constava já nada mais do que aquilo que a natureza produziu. A água e a areia. Todos se tinham dedicado, de corpo e alma, a algo que a todos toca, aos participantes e a todos os habitantes de um mundo em mudança.

 

Agora a questão tem outro destaque, mas já na altura se começava a ouvir falar das alterações climáticas e do desenvolvimento sustentável. Deu-se ali um primeiro sinal. As pessoas mostraram estar mais atentas.

 

Recolhido todo o lixo, em sacos de plástico individuais, importava saber qual a quantidade de lixo apurada. Sem estatísticas oficiais nem números exatos, o voluntário estima que, naquele ano, e nalguns dos seguintes, os valores tenham atingido as largas dezenas e, nalguns casos, até os 100 quilogramas de lixo. Marco Ferraz recorda a surpresa com que recebeu estes números “Numa zona pacata, fora dos grandes centros urbanos, são números importantes. Imagine-se o que se encontrará em Matosinhos ou na Costa de Caparica”.

 

O resultado de mais uma campanha

 

E que destino dar a tanto lixo, tanto dele não biodegradável? É aí que Marco Ferraz se penitencia e assume não haver o devido planeamento quanto à separação dos diversos tipos de lixo recolhido. Os resíduos, ao serem recolhidos por cada um dos participantes para o seu respetivo saco de plástico, ficavam inevitavelmente misturados. Assim, reconheceu que havia sido desconsiderada a reciclagem do lixo encontrado. Uma “falha de amador”, carateriza.

 

 

Finalizada a recolha, com os sacos devidamente selados, cada um dos participantes, ao volante dos seus automóveis, transportou o produto da campanha aos contentores municipais da Murtosa, distrito de Aveiro, onde depositaram o lixo.

 

O AMBIENTALISMO, HOJE, NA ERA DO PAN

 

A conversa regressa ao presente. Pergunto se algo se alterou, desde aquele ano de 2013. Se as consciências se alteraram, se as prioridades se inverteram. Estamos em 2019 e a ação climática é, hoje, central no debate político e social. O partido Pessoas, Animais, Natureza (PAN) cresceu exponencialmente nos últimos 4 anos, colocando no centro do seu discurso os problemas ambientais, que em muito decorrem da excessiva produção de lixo. Parece imperar, atualmente, uma maior perceção da comunidade global quanto aos riscos de um planeta ferido e a necessitar de urgente inversão de hábitos e consumos. Nesse sentido, indaguei Marco Ferraz sobre se esta realidade se fez refletir naquela praia, na povoação. Se, ao longo desta década, o número de ativistas aumentou, se a quantidade de lixo sofreu variações significativas e se mais iniciativas surgiram, por meios semelhantes e com os mesmos propósitos.

 

Sinto alguma hesitação na resposta. Diz-me que “o efeito novidade” também aqui se fez sentir. Esclarece, depois, que, se no primeiro ano a recetividade foi extraordinária e um enorme motivo de orgulho, a participação foi diminuindo gradualmente, reconhecendo dificuldades em reunir um grupo tão significativo, não obstante o “alerta verde” que todos ouvimos. Confessa, portanto, ligeira desilusão.

 

 

Procura justificar a falta de compromisso com um certo preconceito social associado ao ato de recolha de lixo, afirmando que a comunidade, de uma forma geral, revela algum desconforto face ao rótulo com que ainda se estereotipa esta prática. 

 

 

Mas nem tudo são más notícias já que, garante, se a mobilização para a recolha de lixo não tem assumido as proporções que as primeiras edições chegaram a prometer, a produção de lixo tem diminuído “significativamente”. Já não se vê tanto lixo, quer nas praias ou nas ruas, quer junto a uma outra zona extremamente fustigada por este flagelo: a Ria de Aveiro.  

 

        A Ria de Aveiro @ http://www.centerofportugal.com/viva-a-ria/

 

A este propósito, Marco Ferraz refere que, nos anos mais recentes, a Câmara Municipal da Murtosa, concelho de que faz parte a praia em que estivemos, tem desenvolvido alguns esforços no sentido de incentivar a uma conduta ambiental responsável. Com uma paisagem de cortar a respiração, “local de culto” de populares e pescadores, também aquele extenso curso de água sofre as consequências do lixo e da poluição. Assim, a edilidade local promove, anualmente, ações de recolha de lixo depositado nas margens da Ria, tendo-as já alargado também à zona da praia. http://aemurtosa.edu.pt/a-praia-e-a-ria-aqui-tao-perto-limpeza-de-praia/

 

 

Marco Ferraz mostra-se muito satisfeito, pela sempre maior amplitude e capacidade de dinamização de que as instituições de poder local dispõem. Ele que também nelas participa, sempre que possível, com o mesmo espírito de dedicação do qual sente não ter que se orgulhar, afirmando estar apenas a cumprir a sua obrigação.

 

Não descurando, antes elogiando, todas as iniciativas que se possam somar às já existentes, o nosso entrevistado diz, em jeito de finalização, e porque a conversa já ia longa, que o ambientalismo não pode ser uma efeméride. De pouco importará a dedicação à causa se a mesma se resumir a um dia ou dois dias por ano. “Temos que adotar estas preocupações como um modo de vida. Todos os dias. Só assim surtirá efeito.

 

Não podemos olhar para estas iniciativas como quem celebra um feriado anual.

 

No final desta entrevista telefónica, agradece-me. Porque passar a mensagem é importante. Não basta um. Diz que temos que ser todos, por uma causa de todos.