25 anos TVI: o “boom” dos Reality Shows
Surgiram em 2000, quando a TVI já era um canal habitual nas casas dos portugueses. Hoje, depois de dezenas de edições, cheios de polémicas, tabus e reviravoltas, os reality shows continuam a ser programas com milhares de espectadores, que mergulham nas histórias acutilantes dos concorrentes de cada “jogo”.
Reality Show: Um novo formato do entretenimento
“O Big Brother foi uma ‘bomba’! Explodiu pela Endemol no mundo inteiro e mudou a televisão”. Teresa Guilherme, a cara do primeiro reality show em Portugal, é considerada a “rainha” deste formato. O título foi-lhe atribuído por ser a pessoa que mais realities apresentou até hoje.
Em Portugal, este género de programa foi exibido pela primeira vez no ano 2000 na Televisão Independente (TVI). A estação iniciou atividades em 1993 como segundo canal privado e a quarta rede Nacional de Televisão no país. Já era um canal maduro, com 7 anos, quando na passagem para o novo milénio, revolucionou a televisão portuguesa com as polémicas do primeiro reality show e desde então, não parou.
A partir desse momento, os realities entraram nos lares portugueses e ganharam cada vez mais espaço na programação da estação. A ponto de, em outubro de 2015, ter sido criado um canal exclusivo, o TVIReality que permitia observar os concorrentes 24 horas por dia. Teresa Guilherme considera que a entrada desta nova plataforma possibilitou a proximidade entre concorrentes e público, criando a sensação de que “os jogadores faziam parte das vidas dos espetadores”.
Ao longo de 17 anos, outros realities surgiam na grelha da programação da TVI. O canal, que foi pioneiro nesse género, apostou em várias edições e versões de realities polémicos, como o Love on Top, Big Brother VIP, Ilha da Tentação, Secret Story, entre outros formatos.
Momentos e concorrentes
Teresa Guilherme não duvida: “o que faz as pessoas querem ver é o amor, os atritos e as relações”. Desde o início que estes programas têm-nos dado momentos com essas características, que prendem os telespetadores à televisão e dividem opiniões.
O pontapé do Marco é um desses momentos. A agressão aconteceu na primeira edição do Big Brother, em 2000, e ainda hoje é uma das histórias mais lembradas. Depois de uma acesa discussão e de troca mútua de ofensas, Marco pontapeia Sónia e deixa-a a cair desamparada de uma cadeira.
Marta Cardoso recorda esse momento. Também ela era concorrente e diz que a agressão “marcou uma viragem nos realities e na vida dos concorrentes”. Antes de se ter tornado apresentadora, foi casada com o protagonista, e afirma que a atenção dada a este caso foi pela “novidade e pela personalidade do Marco”. Talvez por estes motivos, a agressão tenha sido transmitida em telejornais e programas radiofónicos.
Esse foi o pontapé de saída para um conjunto de outros momentos que acabaram em agressão. Vítor, Bruno, Pedro, Wilson, Nuno, Ezequiel e Bernardina são apenas alguns dos nomes que estão associados a momentos mais violentos. Mais recentemente, Nilton Bala foi expulso do Biggest Deal, por ter empurrado a colega Isabel Figueira. Teresa Guilherme diz acreditar que estes confrontos só acontecem porque “os concorrentes estão debaixo de muita pressão” e acrescenta: “muita gente fechada numa casa vai trazer conflito, mas também vai trazer amor”.
E o amor faz Teresa Guilherme lembrar-se de uma outra personagem. Fanny entrou jovem na segunda Casa dos Segredos e protagonizou um momento saudoso de choro e emoção. Após uma falsa saída de João Mota, que depois se viria a tornar vencedor do programa, os portugueses puderam assistir à reação de Fanny, em que a concorrente gritava mensagens de apoio ao amigo.
“Bates forte cá dentro” foi a expressão que ficou e que ainda hoje é utilizada. A jovem acabaria também por se tornar repórter e comentadora de realities e, por isso, Marta Cardoso considera a belle portugaise uma das concorrentes mais marcantes de todas as edições.
Ao longo de 17 anos, outros concorrentes deixaram a sua marca e conseguiram manter-se na ribalta. Falamos de, por exemplo, Helena Isabel. A vencedora da última edição da Casa dos Segredos conquistou o público e uma vitória incontestável, que a lançou para a posição de comentadora semanal.
O mesmo acontece com Eliane, vencedora da primeira edição de Love on Top. A concorrente não passou despercebida e foi repescada para participar em outros formatos, apareceu como comentadora e chegou a apresentar um programa de madrugada, o concurso Super Quiz.
Marta Cardoso convive de perto com essa realidade. A ex-concorrente é uma das caras habituais dos diários dos realities, que passaram a fazer parte do seu quotidiano: “a minha vida tomou um novo rumo. Foi reconstruída de início depois dessa experiência”.
Além de momentos arrepiantes de amor, conflito, tristeza, alegria, e de terem catapultado jovens talentos para o mundo da televisão, os reality shows conseguiram contar histórias que inspiraram os portugueses. Lourenço, que entrou na quarta edição do Secret Story, contou a sua na primeira pessoa. O canal já tinha prometido segredos cada vez mais polémicos quando este concorrente revelou o seu: “sou transexual”.
Foi a segunda vez que alguém com este passado participou num reality show em Portugal e a história só se repetiu recentemente, com a entrada da espanhola Amor Romera. A primeira foi em 2005, altura em que Filipa Gonçalves competiu com mais 14 famosos no programa Quinta das Celebridades.
Teresa Guilherme acredita que os realities têm esse poder: “permitem dar a conhecer. É importante que isso aconteça”. A “rainha” dos reality shows lamenta que a discriminação ainda exista em Portugal, mas aplaude os concorrentes e a capacidade que estes programas têm em “abanar o preconceito”.
Atrás das câmaras: a produção de um reality
“O reality show tem uma exigência diária e horária. É sempre na emergência”. Este é o testemunho de Carla Carvalho, produtora de realities e uma das integrantes na equipa que gira a roda da engrenagem e que faz a magia da televisão acontecer.
Trabalha neste género há 6 anos, quando a segunda edição da Casa dos Segredos estreou. Acrescenta que o nível de atenção é sempre maior que nos outros programas “porque de repente há uma briga, há alguém que se quer ir embora, ou há alguém que chora desalmadamente”.
Para além de realities, Carla Carvalho assinou programas de entretenimento com formatos diferentes. A experiência em televisão permite-lhe comparar a espontaneidade dos realities com a produção de outros programas: “existe muita preparação e ensaios que culminam tudo em duas horas de emissão, e isso não acontece nos reality shows”.
A evolução nas audiências
O primeiro Big Brother alcançou um pico de 23.9% de audiência e 76,7% de share (n.º de televisões ligadas) na última gala, com a vitória de Zé Maria: “na altura foi tudo uma grande loucura!”. É assim que Teresa Guilherme descreve a reação do público à estreia deste formato.
A estação de Queluz, depois da resposta positiva, apostou em várias edições de reality shows que, tal como nos diz Carla Carvalho, “foram o que lançou a TVI para a liderança das audiências”.
Quinta das Celebridades (2004-05), 1ª Companhia (2005), Perdidos na Tribo (2011) ou A Quinta (2015) foram outros dos formatos que conquistaram os portugueses e os prenderam aos ecrãs.
O sucesso é justificado pela vontade de “espreitar e de ter o poder de ver tudo o que se passa”, tal como nos diz Teresa Guilherme. A apresentadora acrescenta que esta ideia está presente nos logótipos de alguns programas, com imagens de olhos e fechaduras. A produtora Carla Carvalho concorda e reforça: “o público gosta de espreitar como é que as pessoas vivem dentro de uma casa que acompanham 24 horas por dia”.
Já Marta Cardoso diz que a principal razão para o sucesso está relacionada com a forma como o público se “identifica com os concorrentes que estão dentro da casa”. Por fim, Teresa Guilherme relembra que o amor e o conflito são também ingredientes fundamentais para a receita do sucesso.
O que o futuro nos reserva?
Há 17 anos, ninguém imaginava que os reality shows iriam ter tanto sucesso. Passaram-se mais de vinte edições e estes programas continuam a dar provas de que são uma aposta que dá frutos. Somam-se os espetadores, os momentos dentro das casas e os trocadilhos da Teresa. Somam-se as polémicas e os amores que nascem dentro dos jogos. Somam-se as derrotas, mas sobretudo as vitórias.
Por estes motivos, Carla Carvalho crê que “haverá sempre espaço na televisão portuguesa para estes programas”. Teresa Guilherme concorda e vais mais longe ao afirmar que o formato se resume a pessoas fechadas numa casa a serem vigiadas 24 horas por dia: “a partir daí podes ir para tudo e fazer mil edições completamente diferentes!”.