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25 Anos de Pressões, Vampiros e Investigações que mudaram a História

Durante 25 anos de TVI, o jornalismo de investigação nasceu, teve a sua própria editoria e perdeu-a, entre estes momentos foi colecionando prémios. Hoje, os protagonistas desta área do jornalismo dizem-nos que este está a morrer lentamente.

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Nicolas Claux tinha na altura 32 anos quando cometeu homicídio em 1994 e foi condenado a 12 anos de prisão pelo crime cometido. A TVI falou com o “Vampiro de Paris”, como era conhecido, em 2004. O francês viveu em Cascais durante quatro anos e confessou que foi em Portugal que começou as práticas satânicas que o levariam a experiências fora do comum.


Esta é uma das reportagens que ao longo de 25 anos marcaram a estação de Queluz. Quem o diz é Humberto Pereira e Rui Romão, dois dos mais experientes repórteres de imagem da TVI. Foram eles que captaram as imagens do vampiro entre o Castelo de São Jorge e o Cemitério dos Prazeres. Os dois repórteres pensaram mesmo que iriam morrer numa daquelas noites, mas a isso já lá vamos.

Há um longo trabalho numa grande reportagem, inclua ela investigação ou não. O trabalho de preparação é árduo e é feito pelo jornalista. A escolha dos temas alvo de reportagem pode surgir a partir das próprias propostas do jornalista que as pretende investigar ou por sugestão da direção de informação, que nos dias de hoje detém o poder de decisão.

Hoje em dia a decisão máxima das reportagens da TVI pertence ao diretor de informação do canal, Sérgio Figueiredo, no entanto a estrutura era diferente há 10 anos. Cristina Carranca era nessa época a responsável pelas reportagens da emissora. Era ela quem coordenava juntamente com a equipa de repórteres o que iriam ou não fazer para o programa semanal “Repórter TVI”. Todas as propostas da coordenação editorial da grande reportagem eram depois sujeitas a validação da direção de informação. Esta coordenação específica durou entre 2005 e 2009.

Foi um ano antes de Carranca assumir a coordenação da grande reportagem do canal de Queluz que foi feita a primeira entrevista que Nicolas Claux deu para televisão. Ele esteve preso cerca de sete anos, saindo em liberdade condicional com obrigação de apresentação constante às autoridades. Na entrevista, o francês contou que em 2004 foi trabalhar para um dos maiores hospitais de Paris e foi aí que começou a frequentar a morgue, com o propósito de contactar com os corpos recém-chegados aquela instituição - com objetivos bem mais fortes do que apenas o contacto.

As várias partes da reportagem com o “Vampiro de Paris” foram gravadas em diferentes locais, mas foi no Cemitério dos Prazeres que Humberto Pereira e Rui Romão se lembram de Nico Claux ter tido uma súbita “entrada em estado de transe”. Foi nesse momento que os dois operadores de câmara com 25 anos de casa na TVI recearam pela vida. Enquanto gravavam uma reconstituição dos momentos em que o francês “profanava campas” em Paris e numa das campas recém-fechadas Nicolas entrou “num estado diferente” e quem o diz são os próprios Rui e Humberto. O que aconteceu depois? Isso já iremos saber.

Quem não estava no Cemitério dos Prazeres naquela noite era Gonçalo Prego, outro repórter de imagem da TVI. Gonçalo é responsável pela captação das imagem de várias grandes reportagens da estação, muitas delas premiadas. A reportagem “Verdade Inconveniente” em 2014, sobre os negócios por detrás dos colégios com contrato de associação, em conjunto com a jornalista Ana Leal foi premiada com o “Prémio Gazeta”, uma das mais importantes distinções para grande reportagem de investigação no âmbito internacional. Esta reportagem contou com a montagem de Miguel Freitas.

Gonçalo Prego está na TVI desde que esta abriu portas e fez a sua primeira transmissão e diz que no início não havia um espaço dedicado a este campo jornalístico. “Começou por haver um jornalista que propunha uma coisa maior e era aceite, depois passado uns meses, aparecia outro e assim se foi criando um espaço próprio”, recorda.

Chegou a ter uma editoria própria onde estavam inseridas um grupo restrito de pessoas que só faziam grande reportagem e que, por essa razão, criaram uma linha editorial que todo o público reconhecia como sendo da TVI. Linha editorial essa que acabou, segundo o próprio. “Acabou-se com a editoria própria e pôs-se a possibilidade de toda a gente fazer grande reportagem, o que não é mau, mas aquelas características e linha de pensamento e editorial desapareceram”, opina Prego.

Gonçalo Prego já testemunhou várias pressões. O repórter diz que apesar de nunca as ter sentido na pele, já por várias vezes assistiu a pressões sobre os colegas jornalistas. Gonçalo não estaria disposto a passar pelo mesmo. Enquanto capta imagens para ilustrar e embelezar os trabalhos jornalísticos afirma que o máximo que pode acontecer é ser-lhe pedido para que não filme num certo local, mas Gonçalo sabe os seus direitos e estes englobam a possibilidade de filmar em qualquer lugar na via pública.

Quem não sabia que era possível filmar em qualquer local da via pública eram os moradores que viviam próximo da zona do Cemitério dos Prazeres. Tanto foi que durante toda a noite gritaram das janelas das suas casas para que parassem com aqueles ocultismos que achavam estarem a acontecer naquele local de Lisboa. E enquanto os gritos se ouviam de madrugada continuavam as gravações que iriam ilustrar ao espetador os momentos em que Nico Claux entrava nos cemitérios para ir até às campas fechadas mais recentemente. “Queres ver que é agora que este gajo vai agarrar numa faca e matar-nos a todos ?”, indagou Rui Romão.

Foi num desses momentos em que, reclinado sobre uma dessas campas, Nico entra no estado “estranho” já anteriormente descrito e foi o segurança que acompanhava todos os intervenientes que o despertou daquele transe profundo em que o francês se encontrava, aplicando-lhe um murro nas costas. E o que ia fazer Nicolas Claux áquelas campas recém-fechadas? Ia procurar uma das suas fantasias: comer carne humana. Nicolas era portanto, para além de um homicida, um canibal. Nico disse na entrevista à TVI que “fez o favor de servir o diabo e que já não havia volta a dar”.

Muitas vezes os pactos com o diabo acabam por dificultar a vida a um repórter, ainda para mais se o caso envolver investigação. O diabo (entendam-se as pressões para que não se fale de um determinado assunto) vem dos mais variados tipos de poder. E Ana Leal que diga porque nos tempos em que contava aos portugueses os factos que ia apurando sobre o caso “Casa Pia” ou o “Caso Freeport”sofreu as mais variadas pressões, entre as quais a do próprio primeiro-ministro, à época José Sócrates.

António Prata, sub-diretor de informação da TVI também fala de José Sócrates e lembra os momentos em que o ex-Primeiro-Ministro falava sobre o “Jornal Nacional de Sexta” como sendo um telejornal que praticava um “jornalismo travestido”, admitindo que este foi um rude golpe de pressão. Contudo, António vê como a maior pressão, a de não falhar ao dar informação aos portugueses, e a de não continuar a denunciar e a investigar.

Para o sub-diretor de informação, “mal do jornalista que não lide com as pressões como um problema normal de redação”, estas fazem parte de quase todas as reportagens de investigação e quando estas pressões se tornam cada vez mais fortes à medida que se aproxima a data da publicação, António Prata diz ser ainda mais motivador e imperativo que a reportagem vá para o ar. Nunca, segundo o próprio, uma reportagem deixou de ir para o ar por pressões. Mesmo que sejam sobre temas sensíveis e complicados como a reportagem “I Love you Mom”.

Na história contada por Ana Leal os portugueses passaram a conhecer a realidade em que as autoridades inglesas tiravam os filhos às mães portuguesas que viviam naquele país com pouca ou nenhuma justificação. Com 30 anos de profissão, a jornalista de grande reportagem da estação de Queluz coleciona reportagens que pautaram investigações sobre os mais diversos temas. Ana conta que alguns dos assuntos apurados são indicados por fontes que a procuram por confiarem no seu trabalho, outros são descobertos após um olhar mais profundo sobre os mais variados temas.

Investigar casos requer cuidados e trabalho árduo, e por isso, muitas vezes Ana Leal conta com uma equipa para averiguar todos os trabalhos de investigação e conseguir “blindar” o material de possíveis denúncias, contando para isso também com a ajuda dos serviços jurídicos da TVI. Uma das repórteres residentes no programa “Repórter TVI”, Ana diz acreditar que o jornalismo de investigação tende a diminuir em Portugal devido ao pequeno grupo de jornalistas dedicados a fazer esse tipo de trabalho.
Esse pode ser um dos grandes problemas para o futuro do jornalismo de investigação em Portugal.

 

O futuro para Nicolas Claux em 2004 consistia apenas no desejo de se manter “limpo” de cometer qualquer atrocidade. Tendo morto uma pessoa em 1994, Nicolas dizia não querer voltar a cometer tal ato. Apesar de tudo o francês que morou em Cascais era suspeito de ter morto mais 7 pessoas em Paris, cidade onde morava, mas tal nunca chegou a ser provado. Nico afirmava querer continuar a praticar as suas atividades não ilegais, tais como a que mantinha com a namorada até morrer.

 

O jornalismo de investigação está a morrer. Quem o diz é Ana Leal, Gonçalo Prego, Rui Romão e Humberto Pereira. Os repórteres de imagem acreditam que as linguagens visuais estão a mudar. Apesar das transformações tecnológicas existentes, como drones ou outros equipamentos a preocupação passou a ser a do consumo imediato: reportagens mais em cima dos acontecimentos e obrigatoriamente menos trabalhadas. Já a jornalista de investigação acredita que não há já a vontade de arriscar em grandes investigações porque as empresas de media têm cada vez mais receio de perder processos contra grandes empresas. Contudo cabe-nos a nós olhar para os sucessos do passado para mudarmos a situação presente e acima de tudo a situação futura.

 

Nicolas Claux aprendeu a desenhar nos 7 anos que passou na prisão em França. E isso mudou a sua vida. Foi desenhando aquilo que o fascinava: assasinos famosos. E é por aí que vai hoje em dia, desenhando personagens como Charles Manson ou a tentar estabelecer um retrato de Jack “o Estripador”. Nos últimos anos várias foram os retratos das personagens que o fascinam que vendeu em leilões online destinados a clientes também eles fascinados pelos mais conhecidos homicidas de sempre. Até hoje, alegadamente, nunca mais matou.