A arte de ser avô
“Ninguém morre de amor” são as palavras que a neta de Narciso Costa, Lina Dionísio, recorda com mais amor e saudade. “Costita”, como era carinhosamente tratado pela família, é relembrado pelo enorme talento que tinha para as artes mas também, e especialmente, pela imensa influência que teve na vida da sua neta.
“Os filhos são os rendimentos e o netos são os juros.”
Para Lina Dionísio, também ela avó, a relação que tem com as duas netas é muito especial e saudável para ambas as partes. “Sempre mimei muito as minhas netas, os avós servem para os estragar – com mimos – para educar estão cá os pais”, ri.
Gosta de passar tempo com elas. Admite que a aprendizagem é mutua. Embora tenha muito a ensinar e a contar, acaba sempre por aprender imenso com as netas.
“Talvez a minha relação com o meu avô me tenha feito ser uma avó assim, ver a forma como se dava comigo, como gostava de falar comigo.”
Sente que, em comparação com a relação que manteve com os filhos, é mais compreensiva, flexível e paciente com as netas.
“Ser avó é tão bom. Eu adoro ter netas, e gostava de ter muitas mais…"
É com saudade na fala e no olhar que Lina Dionísio, neta do artista Narciso Costa, recorda todas as suas memórias dos anos que viveu com o avô “foram tempos tão bons”.
Mais do que familiar, a relação entre avô e neta era de uma imensa cumplicidade, ”às vezes até contra a minha avó e contra a minha tia”. “Não sei se era ele que descia à minha idade, nunca perdendo a postura característica, se era eu que tentava ser mais crescida.”
O vínculo com Narciso Costa foi dos mais importantes e marcantes da sua vida. O avô ajudou-a na construção da sua personalidade, na visão que tem do mundo, e nos passos que até certa altura deu, tornando-a um pouco do que ele era.
“O Costita era um visionário, um Dândy! Estava à frente do seu tempo. A maneira como se vestia, como falava e como andava. Estava muito à frente. Se olhar para mim percebe que não sou um velhota igual às outras, tenho um espirito menos antigo do que aquilo que dita a minha idade. Nisto saiu a ele! Foi ele que me influenciou a ser assim”
[Lina tem um ar jovem, aceita as suas rugas sem as esconder atrás de qualquer maquilhagem. Veste-se de uma forma descontraída, de jeans e camisa sem esquecer os ténis, que confessa serem o seu tipo de calçado preferido]
“Se olhasse para ele agora descrevia-o como alguém que vivia num mundo à parte. Fora do tempo em que estava realmente. Era uma pessoa que vivia no mundo da arte, no mundo do belo. Tocava violino e piano, pintava otimamente bem, e era extremamente culto.” Narciso era professor de desenho na Escola Industrial de Braga e no Liceu Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria, onde também deu aulas de Francês, recebeu dois prémios de cinzelagem, um de desenho de figura, dois de modelação e o 2º prémio de Arquitetura.
Com o cabelo grisalho enrolado numa trança, Lina fala do seu avô com um ar tão apaixonado quanto melancólico.
Sorrindo, relembra as tertúlias que tinham lugar na sala da casa onde viviam. Desde criança, e durante anos, viu entrar pela sua porta nomes como Lino António, António Lopes Vieira, entre outros. “A porta estava sempre fechada. Lembro-me de os ouvir a rir, mas não me lembro das conversas. Eram coisas de homens.”
Com uma gargalhada envergonhada confessa acreditar que nessas alturas o avô também partilhava as aventuras do tempo em que estudou na Suiça.
“O Costita não é o Costita sem o cheiro a tabaco e cachimbo. Ele fumava umas cigarrilhas que se chamavam as Odaliscas. Eu ia para as aulas e cheirava, ele impregnava a casa com o seu cheiro, até os gatos cheiravam…”
Narciso Costa incutiu na neta o gosto por ver o que de bonito havia à sua volta, ouvir e apreciar música clássica e pintar. Lina observava e absorvia tudo o que o avô fazia e ensinava. Com segurança diz que dele herdou o “bichinho do desenho, de o apreciar e de o criar”.
“Ele ensinou-me a apreciar as coisas bonitas da vida. A natureza, as pessoas. Tudo… Aprendi a gostar de ter flores em casa, aprendi a dizer que isto ou aquilo era bonito. Acima de tudo aprendi a ver o belo em tudo. O culto do belo. Um mundo onde quase ninguém vive”, afirma de olhos brilhantes e ar feliz. “Era um homem extremamente culto. Foi ele que me ensinou a falar francês, o pouco que sei hoje. Lembro-me que ele tinha uma pilha de jornais no escritório, os únicos que lia era o Ici Paris e o France Dimanche. Lembro-me que tinha uns comentários inteligentíssimos”
“Foi ele (o avô) que me ensinou a pintar, a olhar para a arte com olhos de ver.”
Na altura em que acabou o 7º ano, Lina mostrou vontade de ir para o curso de Belas Artes. Conta que, com 17 anos, os pais não permitiram que tal acontece. “Com essa idade não vais para aquele mundo de perdição, não vais não. Foi o que os meus pais me disseram na altura. Aliás, foi mais a minha mãe e a minha tia”, rememora Lina.
Lembra-se de ir imediatamente pedir o conforto do avô, as suas palavras. Precisava de o ouvir, como em todos os momentos da sua vida. “Não podes lutar contra tantos” disse-lhe quando Lina já se preparava para contestar a decisão dos seus pais e seguir o que realmente queria. “Parece que o estou a ouvir agora – tão engraçado! – Vais tirar agora o curso do magistério (atual curso de ensino) e daqui a dois anos já tens idade para ir para Belas Artes”. E assim fez.
A neta do artista concluiu o curso de professora com êxito e focou-se na entrada para a faculdade de belas artes.
Relembra, com o olhar focado no horizonte, como se tivesse a reviver tudo na sua cabeça, que a prova consistia em pintar um busto de gesso. “Era uma prova complicada, e o Costita ajudou-me muito a treinar”
Ambos entusiasmados, avô e neta, estudaram durante todas as férias aquela que seria a prova eliminatória de seleção.
“Na altura entrei em Lisboa mas ele (o avô) aconselhou-me a ir para o Porto. Já que ia sair de Leira tanto fazia ir para uma cidade ou para a outra, havia comboio para as duas e o ambiente no Porto era muito melhor. A universidade lá era melhor, os professores eram mais competentes e conhecidos no meio. A universidade de Lisboa, na altura, tinha umas condições péssimas.”
E mais uma vez, assim fez. Foi estudar para o Porto. Entrou no curso e sentiu-se nas nuvens. Era no mundo das artes que se sentia bem, que se sentia em casa mesmo estando longe. Durante esse percurso o avô mostrou-se sempre orgulhoso. “Eu sentia-me bem no meio em que o meu avô me tinha ensinado a viver e ele ficava feliz por isso.”
Estudou lá dois anos.
Com os olhos lacrimejantes, e pela primeira vez de saudade misturada com tristeza, conta que foi durante esse tempo que conheceu aquele que viria a ser o grande amor da sua vida, com quem casou e teve 5 filhos. Perdeu-o há 12 anos vítima de um tumor na cabeça.
Durante o namoro, e no meio de um sociedade ainda demasiado conservadora, foram vistos num café de mão dada. “Lembro-me que ele (Narciso Costa) só me disse para eu não abusar e perguntou-me se eu estava segura do que o ‘alfereszeco’ queria – na altura os alferes eram vistos com maus olhos. Mais ninguém me perguntou seja o que for, foi a única pessoa da família que conseguiu falar comigo sobre isso e me ajudou”
Namoravam, maior parte do tempo platónicamente, por carta [recorda]. “Ele entretanto foi mobilizado, já eu estava a acabar o curso e por carta dizia-me que morria de amor lá sozinho, que não conseguia viver sem mim. Queria que eu fosse ter com ele e quando voltasse acabava o semestre que faltava – tadito!”.
Foi nesta altura que a eterna apaixonada pelo seu avô ouviu o conselho que mais a marcou, e que não esquece nunca: “Tu vais fazer uma asneira na tua vida. Vais deixar o curso preso por um alferes. Ninguém morre de amor. Podemos morrer com uma pistola, com uma doença, sei lá, mas de amor ninguém morre”.
De cabeça baixa e olhar pesaroso, admite ter sido o único conselho que não seguiu. “O Costita ficou magoado comigo, só dizia que eu era burra e que não sabia o que estava a fazer”.
No entanto, Lina esclarece que não se arrepende da escolha que fez.
Acabou por deixar o curso a meio e foi de encontro com aquele que viria a ser o seu marido, casando, e acabando por exercer a profissão de professora primária.
Dos 5 filhos que teve apenas um herdou do seu avô - e da mãe - a veia artística, seguindo Design.
Hoje em dia sente remorsos por já não desenhar. Nos primeiros anos de aposentação frequentou aulas de pintura e chegou mesmo a pintar alguns quadros mas, atualmente, tem preguiça de o fazer. “O Costita deve estar muito triste por eu já não pintar”
Ainda hoje o avô tem influência na sua vida. “Adoro ir a um museu e ver o belo. Olhar para a lua, olhar para as folhas no chão. Olhar para uma pessoa e dizer que ela é bonita, isto é muito importante"
“Há coisas em mim que sinto que desperdicei. Por exemplo, o meu gosto por desenhar.”
Narciso Costa, o professor mais respeitado e admirado em Leiria, irá brevemente ser homenageado através de uma exposição das suas melhores obras. Esta tem vindo a ser preparada com o material que hoje se encontra em casa dos seus familiares. Há ainda quem acredite que a casa do pintor deveria ser um museu mas a falta de dinheiro nunca permitiu que tal acontecesse.
"Toda a gente o conhecia e gostava dele. Mesmo com o estilo dele. Uma vez, à porta da Sé onde ele ia buscar a minha avó, umas senhoras comentaram os sapatos e as calças dele e começaram a dizer que não sabiam que era dia de tourada. Sei que ele chegou ao pé delas e só lhes disse que não havia tourada porque não lhe apetecia tourear vacas e foi-se embora. Ele sabia que era diferente e sabia que muita gente comentava mas a sua inteligência e capacidade de resposta eram tão geniais quanto toda a sua figura e pessoa"
É, para a neta, um enorme orgulho não ser a única a lembrar-se do homem que mais marcou a sua personalidade e modo de vida.