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A Ponte

No bairro do Rego, na freguesia das Avenidas Novas em Lisboa, existe uma ponte que é mais barreira do que passagem.

18 dez 2016, 19:04 João Guilherme
A Ponte

A iniciar a descida das escadas, que dão acesso à rua da Beneficência, encontramos Gracinda Rosa. Os 62 anos de idade e os problemas nas pernas tornam difícil a tarefa de todos os dias, atravessar a ponte.

 

 

O atual estado dos elevadores reflete o estado do bairro, Gracinda Rosa

 

 

“São raros os dias que me lembro dos dois (elevadores) a funcionar, aliás, só em dias de festa!”, começa por dizer Gracinda. A idosa afirma que a junta só se lembra dos residentes em “festas e votos”, “o estado dos elevadores reflete o atual estado do bairro”.

 

A ponte é uma infraestrutura construída por cima da linha de Sintra que permita a passagem dos residentes do bairro do Rego para a Avenida de Berna. A construção foi terminada no final dos anos 90 e teve como objetivo substituir a passagem de nível aqui existente.

 

A rua da Beneficência ficou então fechada, isolando o bairro da restante freguesia. A ponte conta com 12 lanços de escadas, um obstáculo para os moradores deste bairro. A solução são dois elevadores que permitam que o sobe e desce não seja uma árdua tarefa. O problema, reside aqui, os elevadores estão constantemente parados.

 

“Este elevador aqui, está parado há 5 meses”, diz-nos Vítor Magalhães. Este homem é um filho do bairro, passou aqui os seus 67 anos de vida. Sobre a situação dos elevadores diz-nos explicitamente, “isto é uma merda!”. “Arranjaram esta solução à pressa, e nunca resolveram o problema” acrescenta Vítor. 

 

 

Os mais idosos estão isolados, Vítor Magalhães

 

 

Vítor não se sente isolado porque, garante, ainda tem forças para fazer o percurso, mas “os mais idosos e com dificuldades já nem do bairro saem”. A avaria dos elevadores faz com que “quem ande de cadeiras de rodas tenha que ir até Entrecampos para ir ao hospital, são mais de mil metros quando podiam ser 10 (metros)”.

 

Este filho do bairro ainda se lembra da ligação sem a ponte, uma passagem de nível “controlada por uma senhora com um apito”. Nessa altura em que havia uma ligação terrestre, “os moradores sentiam-se mais perto da cidade”. Apesar de tudo Vítor compreende que “com tantos comboios a passar por aqui seria difícil que alguém passasse em segurança”.

 

Antes de continuar o seu caminho até casa, Vítor, fala ainda sobre a revolta dos habitantes, contando que há “uma petição pública para tentar resolver o problema”. A petição conta com 100 assinaturas, o lema é “uma ponte que não liga é um bairro que desliga”. Para Vítor Magalhães a culpa é “da Câmara, da Junta e da REFER que não se entendem!”    

 

Uma ponte que não liga é um bairro que desliga

 


 

A placa que atribui a responsabilidade de manutenção da infraestrutura.

 

 

     No lado sul da ponte (Avenida de Berna) uma placa que atribui responsabilidade à Câmara Municipal de Lisboa e à REFER, mas um morador diz-nos que “a responsabilidade é da junta, cederam-lhe a exploração”. Este morador prefere não ser identificado, passará a ser tratado por António, nome fictício.

 

     António garante-nos que a junta está ciente das suas responsabilidades e “têm um funcionário aqui todos os dias para tomar conta da ponte”. “Ele (o funcionário) está aí todos os dias, mas não percebe nada da manutenção dos elevadores”.

    

     De baixo de um dos lances de escada encontramos o “escritório” do funcionário da junta. O homem, usando um colete laranja que o identifica como funcionário da freguesia das Avenidas Novas. Confrontado com as perguntas escusa-se a responder e a ser identificado, diz-nos apenas “falem com a junta”. Foi o que tentei fazer.

 

     Depois da tentativa de contacto tanto com a junta de freguesia das Avenidas Novas como para a Infraestruturas de Portugal, empresa do erário público que resultou da fusão entre a Estradas de Portugal e a REFER, dos quais não obtivemos resposta, restou ligar para o número (da Junta de Freguesia) fixado num cone de trânsito com a inscrição “ para qualquer assunto contactar”.

 

     A ligação foi feita e encaminhada para a junta de freguesia, a funcionária que atendeu disse apenas “ a junta está ciente do problema e tentará solucioná-lo o mais brevemente possível”. Nada mais acrescentou quando questionada sobre o tempo pelo qual os moradores esperam ou sobre as soluções para sanar este problema de vez.

 

     “A junta também não faz nada, a verba não lhes chega”, diz-nos Vítor. Nos últimos tempos muito se tem falado de soluções: “Fala-se de uma rampa, mas mesmo assim o problema mantém-se. Os mais idosos terão que percorrer sempre uma grande distância.”

 

Este ano só tivemos luzes (de natal) porque aí vêm as eleições, António

 

     No que toca as soluções, António afirma que sabe de fonte segura o que se segue. “Vão colocar elevadores novos no próximo ano”, conta-nos o morador, “é a única forma de acabar com este problema”. Para António a data é “uma grande coincidência com as eleições autárquicas”, acrescenta mesmo que “este ano só tivemos luzes (de natal) porque aí vêm as eleições.”

 

     A iluminação de natal do bairro do Rego começa no novo princípio da rua da Beneficência. As marcas do antigo traçado, que ligava a rua à Avenida de Berna ainda são visíveis. Existe ainda um pequeno furo na vedação que alguns utilizam para mais depressa chegar à estação de Entrecampos.

 

     “De um lado do bairro ficaram as pessoas do outro os serviços”, diz nos Gracinda. “Para quem quer ir ao hospital ou há Junta é um transtorno, há o transporte da junta mas é pouco”, remata a moradora. De facto, a Junta disponibiliza um transporte para que os moradores possam facilmente aceder aos serviços da freguesia, mas “é só de manhã e faz poucas horas, não nos serve a todos”, afirma Gracinda.

 

Os moradores do Rego andam sempre a ser empurrados, Gracinda Rosa

 

     Ainda a meio das escadas Gracinda lamenta que “os moradores do Rego andem sempre a ser empurrados, foi assim desde que nos mudaram”. A mudança que a idosa fala deu-se nos anos 60. Os moradores do bairro do rego foram realojados aqui saindo da zona de Alcântara. “Fomos nós que demos as nossas casas para fazerem a ponte”, conta Gracinda.

 

 

alternativa ao elevador, a escada.

 

 

Em 1963 a quando do início dos trabalhos da Ponte 25 de Abril, os moradores da zona de Alcântara tiveram que ceder as suas habitações. As casas deram lugar aos enormes pilares do viaduto norte da ponte.

 

Apesar de ter sido o regime de Salazar que empurrou os moradores para aqui, não é este governante que Gracinda culpa, mas sim “o filho do Mário Soares, o senhor João Soares”. “Ele (João Soares) fez-nos uma ponte com medo que o túnel gerasse violência”, declara a moradora.

 

Antes do 25 de Abril o bairro era menos seguro, António

 

     No capítulo da segurança, António diz que “poucos roubos ou violência tiveram lugar”. O bairro é um sítio calmo, para o morador “antes do 25 de abril o bairro era menos seguro, estava cá a sede do Avante, a PIDE andava sempre por aqui”. É neste bairro que ainda hoje se encontra a sede do Partido Comunista Português.

 

     No que toca aos elevadores que tanto fazem perder a paciência aos moradores, António diz que a culpa é “da falta de manutenção”. “A empresa responsável só cá vem quando lhe pagam” e pouco podem fazer porque “a entidade responsável pela infraestrutura não compõe a cobertura e a água infiltra-se nos mecanismos” acrescenta António.

 

A degradação dos elevadores.

 

     O morador que não quer ser identificado espera “que desta vez a solução avance mesmo e que ponham uns elevadores novos”. António, mesmo assim, não se mostra confiante, “sabe como é, é a palavra de um político, o povo tem que arranjar sempre forma de se desenrascar por si próprio”.

 

     Os elevadores continuam avariados, muitas vezes por meses consecutivos. Os moradores vão-se desenvencilhando como podem neste pedaço de Lisboa isolado da “Lisbon” dos turistas. Aqui não chega o dinheiro dos turistas asiáticos e europeus.

 

Com as dificuldades inerentes, Gracinda acaba de descer as escadas e entra, finalmente, no bairro do Rego. A esperança por uma resolução para este problema é já muito pouca, “não sei se viverei até tudo estar normalizado”. Despede-se com um adeus e diz: “voltei ao isolamento”.