O último ator de um teatro de guerra
António José de Oliveira: "Pior do que uma guerra é fazer de conta que ela nunca existiu"
10 FOTOS: Guerra ColonialPé ante Pé, passo após passo o Tomás chega ao enferrujado portão de entrada na escola. Sorridente, embriagado pela sua inocência tão própria da despreocupação dos seus 14 anos. São nove da manhã, o início de mais um desbravado dia repleto de peripécias e afazeres menos emocionantes.
O pequeno Tomás é especial, ele é dos poucos da sua idade a ter ideia do que foi a Guerra Colonial. Não aprendeu na escola, não... A descolonização não é mais que uma brevíssima passagem nos livros curriculares de História de Portugal. O Ultramar, a Guerra Colonial, os 13 anos passados entre 1961 e 1974, são lecionados como uma miragem pouco ou nada eloquente do que realmente aconteceu.
Os dados apontam para cerca de 9 mil soldados portugueses mortos (dados retirados da “Cronologia da Guerra Colonial” de José Brandão). Foram estas as baixas humanas, portugueses de gema caídos, o que ocorreu durante esses tais 13 anos, que são resumidos em página e meia num manual de História. É impossível saber quantos portugueses pereceram ao certo. Provavelmente os números de vítimas portuguesas nesta guerra são ainda maiores, mas as mortes nunca foram tornadas públicas. Para o Estado Novo, menos baixas no terreno era reflexo de que Portugal estava a caminho de ganhar a guerra. Esta ideia propagandista despoletou uma intenção clara, por parte do Governo Português, de diminuir o número de baixas tornadas públicas.
De 1961 a 1974, Portugal declarou, estado de guerra nas antigas províncias ultramarinas portuguesas: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Até hoje esta foi a última vez que Portugal declarou estado de guerra.
Na Alemanha evita-se falar no Holocausto, nos Estados Unidos do Vietname, em Portugal o mesmo acontece com o Ultramar. O senhor António José, ex-presidente da Associação dos Ex-combatentes de Vila Franca de Xira e ele próprio ex-combatente, não entende essa negação. Uma hipocrisia que diz revolta-lo:
“Pior que uma guerra... É fazer de conta que ela nunca existiu!”, esclarece António José de Oliveira.
António José de Oliveira tem o hábito de partilhar a sua coletânea de memórias desse passado já distante. Sempre que possível, o avô António conta ao neto Tomás histórias da mocidade perdida para uma G3 em Angola. As lembranças por vezes são impiedosas. Remetem-no para um canto menos agradável da mente que o faz soluçar.
“Eu tive sorte... Não estamos a falar de fantasia, estas histórias são reais.... Roubaram-nos a nossa juventude.... Mas pior que tudo isso, pior do que uma guerra é fazer de conta que ela nunca existiu! Isto devia vir nos nossos livros de escola, mas as pessoas têm vergonha de falar do que aconteceu...”
De três irmãos, António José foi o último a ir para a Guerra Colonial. Durante 11 anos o coração daquela mãe esteve sempre em sobressalto, angustiado, à espera que os filhos voltassem, se voltassem... Para o Estado Novo o senhor António era só mais um, “só mais um pequeno pedaço de carne à espera de uma bala, esse era o papel dos soldados portugueses na Guerra Colonial, ser carne para canhão”, conta António José.
Avenida de Berna, dia 9 de Janeiro de 1972, António José de Oliveira assentava praça no “Grupo de Companhias de Trem Auto”, na “Companhia – Elefantes Amarelos”. Por já ter carta de condução, o que era raro na altura para um jovem de 20 anos, o senhor António foi colocado na Companhia de Transportes. Ali viria a ter formação para ser capaz de conduzir todos os veículos militares e, posteriormente, ele próprio passar a dar a formação aos novos recrutas. Deu três recrutas de condução, que consistiam numa instrução geral aos soldados que não tinham carta de condução.
António José, já tinha quase 14 meses de tropa no gélido mês de janeiro de 73, era raro alguém com 14 meses de tropa, perto do fim do tempo obrigatório de tropa, ser mobilizado para a Guerra Colonial e António sabia-o. Ao entrar no quartel viu um rapaz do Montijo a chorar, perto da vitrine na entrada do quartel, onde era afixada a folha com o nome dos soldados mobilizados para a Guerra Colonial.
“Aproximei-me e perguntei-lhe: -Que se passa? Ao que me responde: -Tu também estás... Tu também vais... –Vamos onde? Perguntei eu sem perceber o que estava a acontecer. -Para Angola! E lá estava o meu nome na vitrine, António José de Oliveira, 092098272, mobilizado para a guerra em Angola. Foi o maior choque da minha vida. Depois de 14 meses, agora ainda mais os que viriam a ser mais 23 meses em Angola... Uma mocidade perdida...”, conta o senhor António.
António e o rapaz do Montijo foram inseparáveis durante o tempo que estiveram em Cabinda.
A partida estava marcada para dia 9 de Fevereiro de 1973. Um dia que António José não gosta de relembrar. “A zona de embarque do Aeroporto Militar de Figo Maduro naquele dia era o sitio mais triste do mundo.” Mães, pais, esposas, irmãos e irmãs choravam compulsiva na incerteza se aquele seria o ultimo momento em que veriam o seu ente querido.
O Tomás sai agora para a hora de almoço. O seu intervalo predileto por ser o maior de todos. O almoço na cantina não lhe agrada, torce o nariz à pescada cozida com batatas, mas come. Comeu, porque a menina que lhe enche o olhar também o fez. A inocência que ainda guarda o pequeno Tomás contrasta fortemente com as palavras que o avô profere num café distante.
O avô António reconhece que hoje o verdadeiro inimigo é o stress pós-traumático. Diz ser rara a exceção do ex-combatente que nunca experienciou algum tipo de stress ou sofrimento depois de regressar. No entanto, ninguém o quer assumir. “Nós, ex-combatentes, temos vergonha de contar, de assumir e também muitos não querem reviver as experiências novamente ao contá-las”.
Para tentar simplificar toda a complexidade do stress pós-traumático falamos com a Diretora do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE (CIS-IUL), Carla Moleiro. Doutorada em Psicologia Clínica pela University of California, Santa Barbara, Estados Unidos da América, em 2003, Carla Moleiro tentou explicar toda envolvente do stress pós-truamático.
“A perturbação do stress pós-traumático é uma perturbação que surge nos manuais de psiquiatria depois das grandes guerras. E depois de se verificar, na altura, que uma quantidade grande de homens que regressavam de combate, voltavam à vida civil com um conjunto de sinais e sintomas reveladores de algum sofrimento das experiências traumáticas do combate. Esses sinais e sintomas eram suficientemente coerentes e sistemáticos entre pessoas para se perceber que aquilo não era uma reção idiossincrática de alguém. Era efetivamente um padrão, uma forma de demonstração de sofrimento face a uma situação de stress daquela natureza e que englobava um conjunto de sintomas que é muito vasto e flexível, que envolve desde híper-ativação face a estímulos ameaçadores, irritabilidade elevada, híper-vigilância, comportamentos de evitamento de situações simbólicas ou reais que relembrem as situações traumáticas, reexperiência das situações traumáticas de forma intrusiva, através de pesadelos ou flashbacks. Um conjunto de sinais e sintomas que era suficientemente consistente na experiencia daqueles homens para ter merecido a atenção clinica da American Psychological Association e da World Health Organization.”, explica a psicóloga Carla Moleiro.
Percebeu-se a dimensão do problema do stress pós-traumático quando os veteranos (como são chamados os ex-combatentes nos EUA) da guerra do Vietname começaram a demonstrar sintomas de sofrimento, o que culminou num aumento do número de suicídios nos EUA. Os sintomas do stress pós-traumático podem ser reprimidos durante anos.
“Hoje, todos nós (ex-combatentes) temos a nossa casa. Eu tenho quatro netos que adoro. Com que direito viria alguém de Espanha ou de Inglaterra, ou de onde fosse, matar os meus netos, incendiar a minha casa, vir destruir a minha vida? Por acaso nunca tive de o fazer, mas sei que a nossa tropa o fez... Agora chegam a esta idade (65 anos no caso de António José) e começam a pensar: então e se fizessem o que nós fizemos aos meus netos? Com que direito fiz eu tudo o que fiz? Isto conectado ao ser humano, o sistema nervoso não aguenta, é incapaz de lidar com estes pensamentos.”, confessa António José.
Também a psicóloga Carla Moleiro concorda com a teoria do senhor António José e relembra o que aconteceu com os soldados que regressaram do Vietname:
“Os combatentes do Vietname quando regressaram aos EUA, a maior parte deles não começou a ter sinais de stress pós-traumático logo após chegarem. Eles foram muito mal recebidos, estávamos numa altura de liberdade e dessas coisas todas e eles foram vistos como pessoas que tinham ido matar crianças e fazer coisas terríveis. Portanto, muitos destes homens puseram para dentro o sofrimento e tentaram adaptar-se à vida civil da forma que era possível. Umas ou duas décadas depois começaram a rebentar todos os quadros de stress pós-traumático decorrentes da experiência de guerra no Vietname. Mais veteranos acabaram por morrer nos EUA por suicídio do que os que morreram no Vietname.”
A situação em Portugal não foi assim tão diferente ao que aconteceu nos EUA após a guerra do Vietname.
“Como toda a Guerra Colonial foi durante o Estado Novo, nós eramos bandidos. O Partido Comunista, que era o partido do povo, a seguir ao 25 de abril, insultava os militares portugueses. Chamavam-nos assassinos, diziam que “tínhamos andado lá a matar pretos”. Nós nunca pedimos muito, nem queríamos dinheiro, só queríamos que tivessem aberto os hospitais militares. Era a obrigação de qualquer Governo para que estes homens que sofriam e sofrem de stress pós-traumático pudessem ser tratados. Custava muito pagar a uma psicóloga para acompanhar os ex-combatentes? A mim parece-me que não.”, reitera António José de Oliveira.
Ainda assim as associações de ex-combatentes, como a que António José presidia, foram disponibilizando acompanhamento psicológico. O senhor António acha que em vão e explica que “as pessoas têm medo de falar. Escondem-se. Não contam a verdade às psicólogas. Esse é o grande problema desta doença. É uma doença silenciosa”.
O pequeno Tomás saiu agora das aulas, mas o dia ainda não terminou. Chega agora o auge do pequeno reguila do avô António é dia de treino. Tomás joga futebol nos iniciados do Belenenses. São estas as viagens da verdade, um momento tanto de António como de Tomás, o momento em que Tomás mais pergunta sobre como foram os tempos em que para o avô tudo era diferente, os tempos em que a própria realidade parecia se ter auto-distorcido de modo sinistro e tenebroso. Este é já um ritual pré-treino que os dois têm. Cerca de 40 minutos de viagem entre Alverca do Ribatejo e Belém moldaram-se com o passar dos anos numa espécie de momento nostálgico para um e de descoberta para outro.
Há sempre pequenos detalhes que o avô António não partilha com o neto. Como o dia em que meteu o primeiro pé em Angola. A viagem de Lisboa a Angola foi a pior viagem de toda a sua vida. “O silêncio era aterrador. Não se ouvia vivalma além do barulho dos rotores da aeronave”. Todos eles, inclusive António José, pensavam como seria a próxima vez que entrassem naquele avião: se num caixão de metal ou em ansia de abraçar a sua família. À chegada dois autocarros os esperavam. Levaram António José para o quartel do Movimento de Viaturas Logísticas (MVL) em Cabinda. Ao entrar na base militar tem o primeiro choque com a realidade distorcida de um país em guerra. “Entro no edifício e vejo um soldado português a soldar um caixão. Com uma mão agarrava o maçarico, com outra uma sandes, a imperial estava assente no topo do caixão e enquanto isto fala com outro soldado e ria-se. Foi aí que pensei, estes gajos estão passados já, já não têm qualquer emoção. A realidade era essa, a guerra corroeu-nos de certo modo tanto a inocência como as emoções”.
“A minha primeira missão, logo nos primeiros dias, foi levar uma Berliet cheia de caixões para o aeroporto para serem transportados para Portugal. Chovia torrencialmente, era de noite, mas a cada relâmpago ficava de dia. Foi aí que percebi. Foi ali que entrei mesmo no espirito da guerra.. E pensei será que eu vou chegar ao fim?”
O papel do MVL era o de transporte e logística de tudo, de pessoas, a civis, passando por alimentos e medicamentos para as tropas e para os civis. O MVL era assim a espinha dorsal da estrutura do exercito português na Guerra Colonial. O senhor António era o condutor e transportava tudo isso e dependendo da mercadoria e do terreno tinha de ser capaz de manobrar Berliets, GMCs, Burros do Mato e Diamonds (tudo carrinhas militares de caixa aberta como se pode ver na foto galeria). Havia sempre um trajeto, levava uma patrulha para uma batida em busca de turras (como eram conhecidos os soldados angolanos), então ia deixa-los ao ponto A e depois apanha-los ao ponto B. Após largar a patrulha regressava sozinho diz que nessas viagens temia mais que tudo ser emboscado.
“Um dia vou a regressar ao quartel e vejo um turra à beira da estrada de espingarda em punho. Abrando. Vejo um pouco mais longe uma senhora negra à beira da estrada. Paro a Berliet. Baixo o vidro e pergunto o que se passava. Sempre com o pé no acelerado e o dedo no gatilho da G3. O turra nunca me olhou nos olhos só apontou para a mulher. Percebi logo o que se passava estava em trabalho de parto. Deixei-a entrar na Berliet e deixei com um médico e um enfermeiro no quartel, que a acompanharam no parto. Durante a semana seguinte, o tal turra esteve todos os dias no café a perguntar quem era o homem que tinha transportado a senhora, sem sorte porque eu estava em missão. Quando voltei lá me encontrei com ele agradeceu-me e queria saber o meu nome para dar ao filho. Hoje haverá um António José em Cabinda com cerca de 41 anos... Ou talvez não... Não sei se será vivo ou morto, não se sobreviveu à guerra. Esta foi a história mais embaraçosa pela qual passei na guerra e mostra que nem tudo foram momentos maus”.
Houve momentos que António temeu pela vida. Para além das muitas emboscadas que acabaram em breves trocas de tiros. A vida selvagem foi um problema. António José diz que houve uma vez que acho que era a última principalmente. Tinham sido avisados na recruta para o perigo que era depararem-se com um gorila, para não se mexerem e esperarem pelo melhor. Numa das missões de transporte um gorila meteu—se em frente à Berliet. António travou a fundo e virou estátua aterrorizado, pensando que era o fim, diz que o gorila ficava olhos nos olhos com ele e estava ele ao volante de uma carrinha militar. Atrás do gorila passou toda a sua família, gorilas fêmeas e crias. Por último, António diz que o gorila bateu com as mãos no peito como nos filmes e seguiu à sua vida.
O senhor António sobreviveu e está cá hoje para contar a história, mas continua a dizer que “nós não tínhamos o direito de ir para a terra dos outros matar, fazer mal, o que fosse; aquilo era e é deles.”
“Nós não andamos numa guerra. Era uma guerrilha. Era de espera, de traições. Nós eramos emboscados. Os turras metiam minas no chão, nos carros, davam meia dúzia de tiros às vezes e abalavam a fugir. A guerra é diferente. Guerra é guerra, com armas poderosas capazes de destruir cidades em inteiras.”
O senhor António realça mais uma vez o problema maior que existe em Portugal relativamente à Guerra Colonial. O facto de não faltar muitos anos para se perder no tempo uma página negra da História de Portugal.
“Existiam há uns anos 600 mil ex-combatentes, agora deve rondar os 500 mil e pouco. Nós somos um dinossauro que está em vias de extinção. Se calhar daqui a uns 10 anos já não vai haver nenhum ou vão haver muito poucos para contar a história. A real... E depois do último de nós morrer, vai haver um dia um maluco que vai escrever um livro sobre isto para ir para as escolas, mas agora que ainda existe quem lá esteve não o fazem.”
António José de Oliveira continuará a contar e a recontar a sua história, a história real como lhe chama, ao pequeno Tomás. Quer que saiba o que o avô fez e toda a integridade e valores que sempre o regeram.
“O meu neto um dia poderá dizer: o meu avô não foi nenhum assassino, o meu avô lutou pela bandeira de Portugal. É o orgulho que ele poderá ter do meu sacrifício que fui obrigado a fazer, a abdicar da minha mocidade...”
António José de Oliveira, 092098272, Grupo de Companhias de Trem Auto, Companhia – Elefantes Amarelos, MVL, culmina como começou:
“Abafar, abafar, abafar... Até que ao dia em que há de morrer o último”, encerra o avô António