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Palcos improváveis

Seja parado ou em movimento, arte é sempre arte. Mais do que um papel é a emoção e energia de representá-lo

18 dez 2016, 19:26 Mónica Costa
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Eu prefiro trabalhar para o povo. Eu partilho a arte e o público partilha a gorjeta.”

Luís, 35 anos

 

 

O espaço público das cidades é uma inconstância. Se no cimo das ruas encontramos as rotinas de quem trabalha nos cafés, mais a baixo as artes continuam.

O comércio tradicional das cidades perdeu voz mas as ruas iluminadas nesta época de natal continuam a ser prioridade nos passeios de fim de semana. Novas necessidades são criadas e novos rostos estão sempre a chegar.

 

 

A Rua Augusta, na baixa de Lisboa, é tradicionalmente conhecida pela alegria de quem lá vive, por quem lá passeia, retrosarias, restaurantes, pelo cheiro da castanha, doces e as variadas músicas que fazem da rua, diferente de outras.

Diariamente a Rua Augusta é palco de artistas. A escolha da rua não é um acaso. O lugar dos artistas é aqui, na rua central ao Terreiro do Paço. Localizada entre a Estação de Santa Apolónia e o Cais do Sodré.

 

 

Não era fim de semana e a noite ainda não havia caído. Quase fim do dia de trabalho, véspera de feriado e o corrupio das pessoas já nem se dava conta. Aproxima-se o natal e tudo procura as lembranças para os familiares. Época (talvez) feliz tanto para as famílias como para os artistas.

 

 

O Luís não olha as horas. No inicio da rua augusta trabalha 5h por dia, por opção, quer ganhe bem ou mal. Não trabalha sozinho, a rola é uma companhia do dia a dia. É isto que o realiza – a paixão pelo teatro, onde se formou. Esteve em Londres a tirar uma formação em teatro e é por isso que todos os dias se desloca à Rua Augusta: para representar a arte. Não o faz por dificuldades nem como part-time. É o trabalho do Luís, uma estátua – ser artista de teatro na rua.

 

 

Apesar de sentir que os artistas são mal pagos pelo número de horas, vê vantagens, como a fugida ao fisco. Lamenta a mentalidade de muitos outros pela falta de união e rivalidade. Compara inevitavelmente a vida em Portugal com Inglaterra e Holanda - sítios por onde passou. Preferia as outras culturas à nossa, pela espiritualidade entre pessoas. Revela que até não se ganhava mal como imigrante. Contudo, a vida também era mais cara.

 

 

Nunca foi um homem de fortunas. Ao contrário da família, que diz ser de posses. O Luís vive há 6 anos com a sua cara-metade e o filho de 3 anos.

 

Tenho família mas não sou ligado a eles. São pessoas de posses, gananciosos e eu não gosto dessa gente. A maior parte nem sabe que faço isto. Falta-lhes humildade.”, refere.

 

 

Para o Luís “passar o chapéu” (como os artistas se referem ao ato de receber gorjeta) não compensa todos os dias. Mas a paixão que o une à arte é muito mais para além do dinheiro. Não vive com dificuldades. Mas já passou por momentos menos felizes. O que hoje critica, já o fez outrora – gastar para o álcool, a noite e o pão na mesa como última prioridade.

 

 

Encara este estilo de vida com naturalidade e assume o palco da rua como outro qualquer, com pequenas diferenças: felicidade e liberdade.

“Na rua trabalha-se muito melhor, há outro tipo de espiritualidade” refere.

Não sente qualquer preconceito por ter escolhido a rua. Não o afeta. A energia positiva que recebe é suficiente para se descrever como um homem feliz.

 

 

Tenho uma portuguesa que me ficou na memória há 1 ano atrás. Chegou sem receio, colocou uma nota de 10euros e apreciou a arte. E ainda me perguntou se a nota valia uma fotografia. Vale as que quiser pelo facto de ter dado com alegria", disse o Luís.

 

 

Não reza que retribuam o que faz com valores muito altos. Prefere pouco mas muitas moedas, como sinal de muito público satisfeito com as atuações.

 

 

São 19:00 da tarde. Estamos a meio da rua augusta e encontrámos o Gaspar Silva, 32 anos, a preparar uma atuação de percussão. Sem papas na língua, parecia que a rua era a sua casa. Conhece quem passa, há quem vá de propósito escutar e ver a performance e reúne tudo o que precisa para recriar o ambiente: instrumentos, pessoas, alegria, dança e no fim as merecidas palmas.

Antes de fazer da rua o seu palco frequentava o 1º ano de Direito na Universidade Autónoma de Lisboa. Em paralelo com os estudos montava ar condicionados para poder pagar as propinas, mas a empresa faliu.

 

 

E como gostava de tocar aquele brinquedo aí que é o batuque resolvi vir também para sobreviver. Havia muitos artistas aqui a cantar e a tocar.”, referiu o Gaspar.

 

Há quatro anos que as ruas são o ganha pão do Gaspar. Guiado pelos instintos, começou por estar em Belém, um local mais calmo e onde não desse nas vistas. Sentia vergonha em atuar, falta de prática. Mais tarde os amigos e conhecidos reconheceram o talento e questionaram-no sobre a possibilidade de ir para a Rua Augusta. Um local onde o calmo não existe e as multidões são constantes. A família hoje em dia apoia este estilo de vida.

 

 

Foi um choque deixar a faculdade e vir para a rua. Os artistas de rua são vistos como sem abrigos, pessoas frustradas, que falharam na vida e precisam de sustentar os vícios. Hoje em dia a minha família orgulha-se de mim e apoiam-me. E graças a deus não preciso de ajuda. Tive a sorte de ser abençoado porque as pessoas aderem ao que eu faço”, disse o Gaspar.

 

Vive junto com a namorada e tem um filho. Uma luta diária e sem garantidas de no final do mês ter as contas pagas mas “tenho que dar a cara”, adiantou. O tempo que trabalha tem compensado e até hoje tem conseguido chegar todos os dias a casa com dinheiro e comida na mesa, ainda que à rasca.

 

No entanto já não é presença na rua todos os dias. O trabalho desgastou-o, principalmente as mãos, que são a ferramenta de trabalho do Gaspar. Hoje em dia, antes de atuar, preocupa-se em cobrir as mãos com pensos e evitar ferimentos.

 

O Gaspar enche a rua augusta de boa disposição. Foi aprendendo com a experiência e hoje a quantidade de pessoas que se juntam em volta dele é admirável. Não precisa de trabalhar com mais ninguém. Sozinho faz o espetáculo e ainda consegue bailarinos. “Espiritualidade, energias positivas”, já dizia o Luís no papel de estátua.

 

Gaspar Silva, Artista de rua
                                 Gaspar Silva, Artista de percussão

 

“É desgastante este trabalho. Mas quero viver da arte de rua. Mudar, nunca”, disse o Gaspar como se tratasse de um acordo de união de facto.

Muitos o reconhecem nas redes sociais e esse reconhecimento já conseguiu atingir mais do que a simples rua augusta. Hoje há quem o procure para tocar em festas e discotecas.

 

 

A rua para mim é tudo neste momento. Foi a minha salvação porque passei por uma fase muito difícil na vida. Cheguei a um ponto que não queria mais pedir e tive que me reinventar. Decidi fazer algo mais por mim e sou muito feliz aqui”, acrescentou.

 

Ser presença habitual na rua, durante uma série de horas seguidas é também uma oportunidade e uma porta aberta.

O tempo que decidiu dedicar a ser artista de rua permitiu-lhe crescer enquanto percussionista e pessoa. Mais recentemente começou a escrever um livro sobre a história de vida como artista de rua.

 

Uma história simples mas inspiradora. Tem um toquezinho”, adiantou o Gaspar.

 

As ruas fazem renascer a alma dos artistas. Vivem num estado de felicidade pura. E de alguma forma o inverso também acontece. Há quem parta do principio que podem ser uma mais valia para o comércio por ser peça fundamental para a animação da rua. Entre tantos artistas que enchem uma rua de cima a baixo, quase todos são reconhecidos como pessoas que vivem da arte de rua por uma necessidade. Mas existem as excepções. 

 

O Luís “é o artista”, disse uma rapariga, com intenção. Uma frase irónica mas positiva para os pobres de espírito.

O Gaspar é o exemplo de que nem tudo é reconhecível só através de um diploma.

 

Os artistas de rua são considerados factores de atração de mais gente. Acreditam que as multidões que ocupam as esplanadas gostam da animação que lhes é dada e, de certa forma, apoiam a ideia da rua ser associada às artes.

São pessoas que se inspiraram num estilo de vida e vivem desafogados com o pouco que têm. Porque o pouco traduz-se em muito por significar tanto para eles, os artistas.