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Historiador censurado pelo Estado Novo vence prémio

Prémio da Universidade de Lisboa foi atribuído ao historiador António Borges Coelho, autor de “Raízes em Expansão Portuguesa” e “Inquisição de Évora”, entre outras obras

12 out 2018, 16:30 Jéssica Azevedo
António Borges Coelho

Aos 90 anos, o autor de “Raízes em Expansão Portuguesa” e “Inquisição de Évora” foi distinguido com o Prémio da Universidade de Lisboa, divulgou esta terça-feira o júri à agência Lusa. António Borges Coelho aceitou “com júbilo” o prémio daquela que é a sua universidade, ainda que desconhecesse a existência do galardão.

O historiador recorda que a sua primeira matrícula na Universidade de Lisboa foi em 1948/49, interrompendo a mesma por um período de onze anos, onde se dedicou à oposição do Estado Novo - o que lhe valeu alguns anos de prisão - e retomando em 1962/63 a vida académica. O historiador referiu ainda que terá sido o último aluno a completar a licenciatura, com tese em filosofia sobre Leibniz, em Histórico-Filosóficas, curso entretanto reestruturado que deu lugar a Licenciatura em História, com variantes em Arte, Arqueologia e Filosofia.

António Borges Coelho regressou à Universidade de Lisboa em 1974, após o 25 de Abril, na qualidade de professor e onde lecionou durante 24 anos, período que destaca como “a época mais entusiasmante” da sua vida. A sua última aula foi dada em 1998.

“Havia uma apetência doida pela História, na sociedade, eram não só os alunos habituais que se matriculavam no curso de História, como os adultos que iam às aulas”, recorda o ex-professor da Faculdade de Letras de Lisboa.

Motivado pelo combate aos dogmas, viu proibida a circulação da sua obra historiográfica “Raízes da Expansão Portuguesa” (1964), semanas após a sua publicação, pela censura da ditadura. Borges Coelho defende que, nesta obra, a expansão portuguesa nos séculos XV e XVI, designadamente, a expansão marítima, foi impulsionada pela “alta burguesia marítima” e não pela nobreza, contestando a visão da época.

A sua investigação sobre Inquisição de Évora - tema que veio a resultar na sua Tese de Doutoramento, em 1980 - deixou preocupadas algumas consciências e levantaram a hipótese de reprovação do aluno. Porém, caso fosse reprovado, Borges Coelho estaria disposto a deixar a academia, a publicar um livro sobre o tema e a dedicar-se à literatura.

António Borges Coelho, entre outras distinções, recebeu o Prémio da Fundação Internacional Racionalista, e foi agraciado pelo Estado português com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’lago da Espada.