Arquitetura da vitória
Henrique Marques, um dos elementos fundadores da Spaceworkers, conta como é ser arquiteto num país em que ninguém acredita nessa arte
1 mai 2015, 12:54
/ Beatriz Marujo
7 FOTOS: Arquitetura da vitória
O ano de 2015 mal começou e a Spaceworkers já recebeu dois prémios: Building of the Year 2015, na categoria de Casas e uma menção honrosa especial no concurso A+Award Popular Choice na categoria Residencial - Casas Privadas XL.
Henrique Marques, arquiteto coordenador da empresa, revela que o terceiro reconhecimento está para chegar. Nasceu em 1981, na cidade de Paredes, local onde tem o atelier. No início do século XXI decidiu entrar para a Faculdade de Arquitetura e Arte na Universidade Lusíada do Porto, onde se formou arquiteto. António Campelo e João Paulo Rapagão são os nomes mais importantes dessa etapa.
Mais tarde, quem o acolheu para estágio foi a Câmara Municipal de Paredes. Mas Henrique decidiu não ficar por lá… Passou por vários ateliers e acabou por se unir a Rui Dinis no projeto que comandam hoje.
O caminho estava pensado… O espaço era o objeto e as emoções as ferramentas. Henrique e a Spaceworkers «encaram o espaço como instrumento de comunicação, ordenamento e de interação com os sentimentos do público.»
Depois de quase uma década de trabalho … o mérito internacional começa a chegar. Henrique diz que não liga muito bem com esta glória mas que tem consciência que as premiações trazem mais credibilidade à empresa, aliás, serve de desempate em caso de dúvida dos clientes.
O momento de inspiração é, preferencialmente, «quando o telefone não toca», ou seja, a noite. Ser aquiteto pressupõe que a inspiração está sempre pronta a funcionar mas nem sempre é fácil. «Queremos que os nossos projetos despertem algo que as pessoas não estejam à espera de ver…Os clientes ficam (quase) sempre surpreendidos com o trabalho final das casas porque não estão à espera do que veem… e isso é interessante.»
O sorriso largo confirma as palavras: é a paixão que o move. Paixão pelo que faz e pelo que ainda não fez. Ainda há muito por fazer… como o projeto de uma igreja ou de um crematório, confessa Henrique, que se considera um lunático. Embora o objetivo final não seja obter um Pritzker, o arquiteto segreda que o lema depois de um trabalho cansativo e bem conseguido é «cheira a Pritzker que não se pode.»
O «nós» faz mais sentido
Henrique defende que a arquitetura só faz sentido se for desenvolvida em equipa. «Eu entendo a arquitetura como uma arte de partilha e discussão… pensar projetos de arquitetura sem discussão, na minha opinião, é quase a travessia no deserto… se não partilhas não é possível evoluíres.»
Por outro lado, esse «nós» pode também ser a ligação que Henrique tenta estabelecer com os clientes: «o cliente é soberano… nada lhe é imposto.» As casas são projetadas depois de conhecerem as pessoas. «Se fizermos uma casa para uma família de quatro pessoas, são quatro ideias completamente diferentes para a casa… para que de alguma forma cada um deles tenha as suas emoções lá vertidas. Damos um bocadinho de cada uma das personalidades das pessoas, para toda a gente se conseguir rever nos projetos.»
Os desenhos centram-se numa máxima comum: a sociedade. Traduzindo para miúdos, a Spaceworkers relaciona, mais uma vez, os projetos ao «nós»… à sociedade. A «praça é o local de reunião» das famílias, «as ruelas, ou seja, os corredores, são um bocado mais privadas. Os nossos edifícios trabalham muito nesse jogo constante entre o “mostra” e o “esconde”… o que acho que tem introduzido uma mais-valia nos projetos que apresentamos.»
«O projeto de licenciamento, que é o que a maioria dos arquitetos faz, para nós é quando está 1/3 concluído… os outros 2/3 vem depois.» A Spaceworkers diferencia-se pelo acompanhamento que dá aos clientes. Para além do desenho da casa, a empresa escolhe com o cliente aquilo faz mais sentido e elabora o projeto de execução: desde a porta, ao puxador, ao tapete de entrada … ao retocador da senhora … ao espaço onde o homem desfaz a barba, onde se colocam os vestidos de gala, onde se colocam os sapatos de salto alto.
«Cada projeto é quase como um filho… temos essa necessidade, esse dever moral de acompanhar digamos até ele ter a faculdade…. Até ele estar pronto.»
Spaceworkers: Trabalhadores do espaço
Henrique admite, apoiado pela segurança no olhar, que gosta de «brincar com as formas no sentido de fugir ao óbvio.» O encanto pelo espaço é a base da inspiração, na realidade, o que quer é que «o espaço vá seduzindo.»
As ideias fora do comum, por vezes utópicas, são a marca dos projetos. Henrique reconhece que há algo seu em cada casa mas não sabe o que é. Posto em causa pela irreverência, o arquiteto diz que até na sua formação foi questionado. «Foi por isso que não quis ficar na Câmara Municipal … quis provar que é possível fazer arquitetura.»
Embora reconheça que foram pessoas que muito lhe ensinaram, em Paredes os arquitetos estão «desencantados com a arquitetura.»
Porquê Paredes?
«Surgiu em paredes por causa de um projeto de família, porque nos inícios são os únicos que acreditam em nós.» Henrique é sincero… não havia dinheiro… tudo foi bancado por empréstimos e a boa vontade da família em apoiar o projeto e ceder o espaço.
«Nós queríamos pôr Paredes no mapa. Queríamos que uma obra nossa fosse publicada e preferencialmente reconhecida. Embora seja uma cidade que não valoriza a arquitetura, onde a concorrência é desleal e desqualificada.»
«Já tentamos cruzar fronteiras… isso da internacionalização é muito giro mas custa dinheiro, o gabinete é recente e todo o investimento foi nosso.»
Henrique Marques confidencia que a próxima boa nova virá com a edição de junho da revista Wallpaper... para a Spaceworkers, que tanto brinca com as emoções dos clientes, este é o momento de rasgar o sorriso.
Henrique Marques, arquiteto coordenador da empresa, revela que o terceiro reconhecimento está para chegar. Nasceu em 1981, na cidade de Paredes, local onde tem o atelier. No início do século XXI decidiu entrar para a Faculdade de Arquitetura e Arte na Universidade Lusíada do Porto, onde se formou arquiteto. António Campelo e João Paulo Rapagão são os nomes mais importantes dessa etapa.
Mais tarde, quem o acolheu para estágio foi a Câmara Municipal de Paredes. Mas Henrique decidiu não ficar por lá… Passou por vários ateliers e acabou por se unir a Rui Dinis no projeto que comandam hoje.
O caminho estava pensado… O espaço era o objeto e as emoções as ferramentas. Henrique e a Spaceworkers «encaram o espaço como instrumento de comunicação, ordenamento e de interação com os sentimentos do público.»
Depois de quase uma década de trabalho … o mérito internacional começa a chegar. Henrique diz que não liga muito bem com esta glória mas que tem consciência que as premiações trazem mais credibilidade à empresa, aliás, serve de desempate em caso de dúvida dos clientes.
O momento de inspiração é, preferencialmente, «quando o telefone não toca», ou seja, a noite. Ser aquiteto pressupõe que a inspiração está sempre pronta a funcionar mas nem sempre é fácil. «Queremos que os nossos projetos despertem algo que as pessoas não estejam à espera de ver…Os clientes ficam (quase) sempre surpreendidos com o trabalho final das casas porque não estão à espera do que veem… e isso é interessante.»
O sorriso largo confirma as palavras: é a paixão que o move. Paixão pelo que faz e pelo que ainda não fez. Ainda há muito por fazer… como o projeto de uma igreja ou de um crematório, confessa Henrique, que se considera um lunático. Embora o objetivo final não seja obter um Pritzker, o arquiteto segreda que o lema depois de um trabalho cansativo e bem conseguido é «cheira a Pritzker que não se pode.»
O «nós» faz mais sentido
Henrique defende que a arquitetura só faz sentido se for desenvolvida em equipa. «Eu entendo a arquitetura como uma arte de partilha e discussão… pensar projetos de arquitetura sem discussão, na minha opinião, é quase a travessia no deserto… se não partilhas não é possível evoluíres.»
Por outro lado, esse «nós» pode também ser a ligação que Henrique tenta estabelecer com os clientes: «o cliente é soberano… nada lhe é imposto.» As casas são projetadas depois de conhecerem as pessoas. «Se fizermos uma casa para uma família de quatro pessoas, são quatro ideias completamente diferentes para a casa… para que de alguma forma cada um deles tenha as suas emoções lá vertidas. Damos um bocadinho de cada uma das personalidades das pessoas, para toda a gente se conseguir rever nos projetos.»
Os desenhos centram-se numa máxima comum: a sociedade. Traduzindo para miúdos, a Spaceworkers relaciona, mais uma vez, os projetos ao «nós»… à sociedade. A «praça é o local de reunião» das famílias, «as ruelas, ou seja, os corredores, são um bocado mais privadas. Os nossos edifícios trabalham muito nesse jogo constante entre o “mostra” e o “esconde”… o que acho que tem introduzido uma mais-valia nos projetos que apresentamos.»
«O projeto de licenciamento, que é o que a maioria dos arquitetos faz, para nós é quando está 1/3 concluído… os outros 2/3 vem depois.» A Spaceworkers diferencia-se pelo acompanhamento que dá aos clientes. Para além do desenho da casa, a empresa escolhe com o cliente aquilo faz mais sentido e elabora o projeto de execução: desde a porta, ao puxador, ao tapete de entrada … ao retocador da senhora … ao espaço onde o homem desfaz a barba, onde se colocam os vestidos de gala, onde se colocam os sapatos de salto alto.
«Cada projeto é quase como um filho… temos essa necessidade, esse dever moral de acompanhar digamos até ele ter a faculdade…. Até ele estar pronto.»
Spaceworkers: Trabalhadores do espaço
Henrique admite, apoiado pela segurança no olhar, que gosta de «brincar com as formas no sentido de fugir ao óbvio.» O encanto pelo espaço é a base da inspiração, na realidade, o que quer é que «o espaço vá seduzindo.»
As ideias fora do comum, por vezes utópicas, são a marca dos projetos. Henrique reconhece que há algo seu em cada casa mas não sabe o que é. Posto em causa pela irreverência, o arquiteto diz que até na sua formação foi questionado. «Foi por isso que não quis ficar na Câmara Municipal … quis provar que é possível fazer arquitetura.»
Embora reconheça que foram pessoas que muito lhe ensinaram, em Paredes os arquitetos estão «desencantados com a arquitetura.»
Porquê Paredes?
«Surgiu em paredes por causa de um projeto de família, porque nos inícios são os únicos que acreditam em nós.» Henrique é sincero… não havia dinheiro… tudo foi bancado por empréstimos e a boa vontade da família em apoiar o projeto e ceder o espaço.
«Nós queríamos pôr Paredes no mapa. Queríamos que uma obra nossa fosse publicada e preferencialmente reconhecida. Embora seja uma cidade que não valoriza a arquitetura, onde a concorrência é desleal e desqualificada.»
«Já tentamos cruzar fronteiras… isso da internacionalização é muito giro mas custa dinheiro, o gabinete é recente e todo o investimento foi nosso.»
Henrique Marques confidencia que a próxima boa nova virá com a edição de junho da revista Wallpaper... para a Spaceworkers, que tanto brinca com as emoções dos clientes, este é o momento de rasgar o sorriso.