Respirar cultura em Lisboa
Lisboa é a cidade com mais associações culturais no país
3 dez 2015, 14:36
/ Diana Adam Queiroz
8 FOTOS: BUS-Paragem Cultural
8 FOTOS: Salamandra Dourada
Numa realidade política que tende a cortar na cultura, há cada vez mais associações que aparecem para propagar a cultura na cidade de Lisboa.
São várias as pessoas que escolhem visitar associações culturais. Quer pela diversidade cultural como pelos preços convidativos. Filipa Garcez é frequentadora assídua. “Gosto do ambiente familiar que se encontra neste tipo de espaços, as refeições que servem são saudáveis e têm um preço acessível”, explica Filipa.
Lisboa é a cidade com mais associativismo cultural no país. Existem 367 associações culturais e recreativas em atividade, segundo o site www.racius.pt , que disponibiliza informações sobre empresas de todo o país.
BUS difunde a cultura no meio de quem não a conhece
Descemos as escadas do número 73, da rua Maria, nos Anjos, e encontramos um espaço mobilado quase como uma casa e é isso que se sente quando entramos. O Bus, Paragem Cultural preza e afirma-se por ser um espaço para todas as pessoas. Está aberto a qualquer projeto e gosta de ser a “maternidade” de novas aventuras culturais a todos os níveis.
Sara Spatz é um dos membro desta associação cultural sem fins lucrativos. Explica que não têm qualquer anseio por exclusivismos e que não é uma casa só para artistas. Pretendem divulgar a arte junto de quem não tem facilidade de se encontrar com ela. “A arte não é o público alvo, é a ferramenta!”, explica Sara.
O espaço em si é uma “metamorfose constante”, afirma Sara. Logo na entrada perdemo-nos facilmente na quantidade de arte que pinta as paredes. São ofertas de “artistas” que por ali passaram e quiseram deixar uma marca na associação. A mobília foi doada ou mesmo encontrada no lixo. Segundo Sara, há muita mobília boa deitada fora em Lisboa.
A associação não tem qualquer apoio governamental ou da Câmara de Lisboa. Sobrevive das quotas pagas pelos sócios e do lucro de alguns eventos. Sara desmistifica esta situação ao explicar que o Bus nem tentou pedir esse género de apoios monetários porque receiam que isso ponha em causa a autonomia da associação. Com uma renda de 1500 euros mensais, fora despesas, a associação debate-se diariamente para conseguir sobreviver. Sara conta que há meses em que algumas contas ficam em atraso mas no mês seguinte tenta-se recompor a situação criando, por exemplo, eventos que lhes possam trazer algum lucro.
Sara Spatz trabalha exclusivamente na associação, apesar de o salário não ser muito elevado, e conta que por vezes tem de viver da bondade de amigos. A ativista e outro dos membros do Bus são os únicos nesta situação e para Sara é bom ter outra pessoa que goste de arte e deste tipo de movimentos. A partilha proporciona um apoio compreensivo e cria entreajuda quando a situação fica mais apertada.
“Enquanto a sociedade formal caminha para um estreitamento, há cada vez mais um fluxo de pessoas que fogem dessa regulamentação e normalidade para recorrer a mecanismos sociais alternativos sem que seja necessário auferir lucro, sem que seja, muitas vezes, necessário dinheiro para que as coisas aconteçam”, conta Sara Spatz.
O Bus é também escola de música, dança e capoeira. As aulas são pagas mas o valor fica muito abaixo do comercial. A contribuição serve em parte para pagar o professor e uma parte fica para a associação.
Enquanto se disfruta de uma cerveja num ambiente rodeado dos mais diversos tipos de arte, na sala ao lado escuta-se o ensaio de uma banda. Para quem quer ter contacto com a arte mas não dispõe dos materiais o Bus tem disponíveis instrumentos musicais que os associados podem utilizar gratuitamente para explorarem o seu lado mais artístico.
Apesar de não estar abonada de dinheiro, Sara diz que vive feliz porque graças às atividades que o Bus proporciona há pessoas que se tornam mais felizes. Conta que já ganhou muito dinheiro noutros tempos mas que hoje em dia isso já não conta. Para a activista a vida baseia-se numa pergunta: “Tu queres ter ou ser? Eu prefiro ser...”, responde Sara.
Salamandra Dourada é uma casa para todos
A associação Salamandra Dourada nasceu, há 5 anos, de um grupo de amigos escuteiros que sentiu a necessidade de ter um grupo para desenvolver os projetos pessoais de cada um. Como todos acabavam por colaborar nos projetos, juntou-se o útil ao agradável. Até há 2 anos a associação não tinha um local fixo, por isso escolheram a Casa da Árvore, na Ameixoeira, para sede da associação. O espaço está bem guardado por dois cães, Serra da Estrela, que intimidam qualquer pessoa só com o ladrar. Uma melhor aproximação deixa perceber que são na realidade muito amigáveis.
A Salamandra costuma participar em ações da câmara, como campos de férias e outras atividades que têm como fim a inclusão social, e dão teto aos mais variados projectos artísticos. O bar da associação é a principal fonte de rendimento, a par dos eventos organizados. No passado já teve, através do projecto Ocupação de Tempos Livre (OTL), financiamento do Instituto Português da Juventude e Desporto (IPJD). O apoio permitia à associação ter colaboradores a tempo inteiro. Atualmente todas as iniciativas e o funcionamento da associação são assegurados pelo voluntariado dos seus membros.
João Arcanjo é um dos voluntários. Fundador do projeto, explica que escolheram estar na Ameixoeira devido à discrepância social que existe na freguesia. O espaço era um antigo armazém de fabrico de tacos de madeira para o chão que foi totalmente remodelado pelas mãos dos associados. Hoje encontramos um espaço acolhedor e ao mesmo tempo diferente do que é habitual. Decorações improvisadas com materiais reciclados e mobílias em segunda mão preenchem o espaço.
A Casa da Árvore é também um ponto de encontro para os habitantes do bairro e já inspirou alguns associados a realizarem eventos. Estas iniciativas promovem a arte e a cultura junto daqueles que normalmente não estão tão perto deste mundo. A receção calorosa das pessoas que trabalham no espaço também ajuda. À medida que se entra todos nos cumprimentam e apresentam-se, o que deixa o visitante à vontade para se sentir em familia.
O espaço é arrendado e custa à associação 750 euros mensais. Para o rentabilizar cedem algumas salas para ensaios musicais e ateliês em troca de uma contribuição solidária. Uma das condições para poder frequentar o espaço é ser sócio. A contribuição é simbólica, 3 euros por ano.
Existem várias ideias para a realização de eventos, mas falta mão-de-obra. Todos os meses lutam para pagar a renda e por isso gostariam de receber algum apoio por parte do Estado. “Seria muito mais confortável”, afirma João.
João Arcanjo define a associação como uma casa para todos, onde quem quer realizar atividades e eventos tem a porta aberta. Uma casa que após remodelações vai ser reinaugurada dia 5 de dezembro.
As associações Bus e Salamandra Dourada tentam-se afastar de conceitos e pré-conceitos. O público alvo são todas as pessoas bem intencionadas e de mente aberta.
Os cortes na cultura vêm desde 2010, ano que viu desaparecer 12,5% dos financiamentos às artes e à cultura. Em 2014 o Orçamento de Estado também cortou um total de 15 milhões de euros. Mesmo assim, entre janeiro de 2010 e novembro de 2015, foram inauguradas 238 associações culturais e recreativas só no distrito de Lisboa, revela o site racius.pt.
Viver para espalhar a cultura é o lema das pessoas envolvidas nestes movimentos. Apesar do lucro quase não existir e de muitas vezes terem de lutar para realizar as atividades, os membros destas associações não desistem. Quando o sistema falha nos apoios à cultura, a população levanta-se para “tapar os buracos” que precisam de ser preenchidos.
São várias as pessoas que escolhem visitar associações culturais. Quer pela diversidade cultural como pelos preços convidativos. Filipa Garcez é frequentadora assídua. “Gosto do ambiente familiar que se encontra neste tipo de espaços, as refeições que servem são saudáveis e têm um preço acessível”, explica Filipa.
Lisboa é a cidade com mais associativismo cultural no país. Existem 367 associações culturais e recreativas em atividade, segundo o site www.racius.pt , que disponibiliza informações sobre empresas de todo o país.
BUS difunde a cultura no meio de quem não a conhece
Descemos as escadas do número 73, da rua Maria, nos Anjos, e encontramos um espaço mobilado quase como uma casa e é isso que se sente quando entramos. O Bus, Paragem Cultural preza e afirma-se por ser um espaço para todas as pessoas. Está aberto a qualquer projeto e gosta de ser a “maternidade” de novas aventuras culturais a todos os níveis.
Sara Spatz é um dos membro desta associação cultural sem fins lucrativos. Explica que não têm qualquer anseio por exclusivismos e que não é uma casa só para artistas. Pretendem divulgar a arte junto de quem não tem facilidade de se encontrar com ela. “A arte não é o público alvo, é a ferramenta!”, explica Sara.
O espaço em si é uma “metamorfose constante”, afirma Sara. Logo na entrada perdemo-nos facilmente na quantidade de arte que pinta as paredes. São ofertas de “artistas” que por ali passaram e quiseram deixar uma marca na associação. A mobília foi doada ou mesmo encontrada no lixo. Segundo Sara, há muita mobília boa deitada fora em Lisboa.
A associação não tem qualquer apoio governamental ou da Câmara de Lisboa. Sobrevive das quotas pagas pelos sócios e do lucro de alguns eventos. Sara desmistifica esta situação ao explicar que o Bus nem tentou pedir esse género de apoios monetários porque receiam que isso ponha em causa a autonomia da associação. Com uma renda de 1500 euros mensais, fora despesas, a associação debate-se diariamente para conseguir sobreviver. Sara conta que há meses em que algumas contas ficam em atraso mas no mês seguinte tenta-se recompor a situação criando, por exemplo, eventos que lhes possam trazer algum lucro.
Sara Spatz trabalha exclusivamente na associação, apesar de o salário não ser muito elevado, e conta que por vezes tem de viver da bondade de amigos. A ativista e outro dos membros do Bus são os únicos nesta situação e para Sara é bom ter outra pessoa que goste de arte e deste tipo de movimentos. A partilha proporciona um apoio compreensivo e cria entreajuda quando a situação fica mais apertada.
“Enquanto a sociedade formal caminha para um estreitamento, há cada vez mais um fluxo de pessoas que fogem dessa regulamentação e normalidade para recorrer a mecanismos sociais alternativos sem que seja necessário auferir lucro, sem que seja, muitas vezes, necessário dinheiro para que as coisas aconteçam”, conta Sara Spatz.
O Bus é também escola de música, dança e capoeira. As aulas são pagas mas o valor fica muito abaixo do comercial. A contribuição serve em parte para pagar o professor e uma parte fica para a associação.
Enquanto se disfruta de uma cerveja num ambiente rodeado dos mais diversos tipos de arte, na sala ao lado escuta-se o ensaio de uma banda. Para quem quer ter contacto com a arte mas não dispõe dos materiais o Bus tem disponíveis instrumentos musicais que os associados podem utilizar gratuitamente para explorarem o seu lado mais artístico.
Apesar de não estar abonada de dinheiro, Sara diz que vive feliz porque graças às atividades que o Bus proporciona há pessoas que se tornam mais felizes. Conta que já ganhou muito dinheiro noutros tempos mas que hoje em dia isso já não conta. Para a activista a vida baseia-se numa pergunta: “Tu queres ter ou ser? Eu prefiro ser...”, responde Sara.
Salamandra Dourada é uma casa para todos
A associação Salamandra Dourada nasceu, há 5 anos, de um grupo de amigos escuteiros que sentiu a necessidade de ter um grupo para desenvolver os projetos pessoais de cada um. Como todos acabavam por colaborar nos projetos, juntou-se o útil ao agradável. Até há 2 anos a associação não tinha um local fixo, por isso escolheram a Casa da Árvore, na Ameixoeira, para sede da associação. O espaço está bem guardado por dois cães, Serra da Estrela, que intimidam qualquer pessoa só com o ladrar. Uma melhor aproximação deixa perceber que são na realidade muito amigáveis.
A Salamandra costuma participar em ações da câmara, como campos de férias e outras atividades que têm como fim a inclusão social, e dão teto aos mais variados projectos artísticos. O bar da associação é a principal fonte de rendimento, a par dos eventos organizados. No passado já teve, através do projecto Ocupação de Tempos Livre (OTL), financiamento do Instituto Português da Juventude e Desporto (IPJD). O apoio permitia à associação ter colaboradores a tempo inteiro. Atualmente todas as iniciativas e o funcionamento da associação são assegurados pelo voluntariado dos seus membros.
João Arcanjo é um dos voluntários. Fundador do projeto, explica que escolheram estar na Ameixoeira devido à discrepância social que existe na freguesia. O espaço era um antigo armazém de fabrico de tacos de madeira para o chão que foi totalmente remodelado pelas mãos dos associados. Hoje encontramos um espaço acolhedor e ao mesmo tempo diferente do que é habitual. Decorações improvisadas com materiais reciclados e mobílias em segunda mão preenchem o espaço.
A Casa da Árvore é também um ponto de encontro para os habitantes do bairro e já inspirou alguns associados a realizarem eventos. Estas iniciativas promovem a arte e a cultura junto daqueles que normalmente não estão tão perto deste mundo. A receção calorosa das pessoas que trabalham no espaço também ajuda. À medida que se entra todos nos cumprimentam e apresentam-se, o que deixa o visitante à vontade para se sentir em familia.
O espaço é arrendado e custa à associação 750 euros mensais. Para o rentabilizar cedem algumas salas para ensaios musicais e ateliês em troca de uma contribuição solidária. Uma das condições para poder frequentar o espaço é ser sócio. A contribuição é simbólica, 3 euros por ano.
Existem várias ideias para a realização de eventos, mas falta mão-de-obra. Todos os meses lutam para pagar a renda e por isso gostariam de receber algum apoio por parte do Estado. “Seria muito mais confortável”, afirma João.
João Arcanjo define a associação como uma casa para todos, onde quem quer realizar atividades e eventos tem a porta aberta. Uma casa que após remodelações vai ser reinaugurada dia 5 de dezembro.
As associações Bus e Salamandra Dourada tentam-se afastar de conceitos e pré-conceitos. O público alvo são todas as pessoas bem intencionadas e de mente aberta.
Os cortes na cultura vêm desde 2010, ano que viu desaparecer 12,5% dos financiamentos às artes e à cultura. Em 2014 o Orçamento de Estado também cortou um total de 15 milhões de euros. Mesmo assim, entre janeiro de 2010 e novembro de 2015, foram inauguradas 238 associações culturais e recreativas só no distrito de Lisboa, revela o site racius.pt.
Viver para espalhar a cultura é o lema das pessoas envolvidas nestes movimentos. Apesar do lucro quase não existir e de muitas vezes terem de lutar para realizar as atividades, os membros destas associações não desistem. Quando o sistema falha nos apoios à cultura, a população levanta-se para “tapar os buracos” que precisam de ser preenchidos.