A realidade desfocada
Padre Querubim é diretor de um colégio com contrato de associação e vai desmitificar a realidade que foi desfocada durante a investigação do grupo GPS
1 mai 2015, 17:44
/ Mafalda Carvalho
6 FOTOS: Colégio Calvão
Foi em 2012 que o Grupo GPS ficou conhecido de uma forma que a opinião pública não esperava: um grupo corrupto que manipulava o dinheiro público para a criação de empresas privadas, em que no seio deste grupo estavam ex governantes de vários partidos políticos.
Nesse mesmo ano, iniciou-se uma investigação a um dos negócios do grupo GPS – os colégios privados. Nesta investigação pôs-se em causa a veracidade destes colégios privados e o desfavorecimento das escolas públicas. Porém, para além das escolas públicas e das escolas privadas, existe também outra modalidade de escolha de ensino que são as escolas com contrato de associação. Estas ficaram por esclarecer e por clarificar e acabaram por ficar perdidos entre aquilo que é verdade e mentira.
Padre Querubim é diretor de um destes colégios com contrato de associação e sente-se no dever de abrir as portas do colégio e mostrar uma realidade desfocada.
O encontro foi marcado para as 17 horas. Estamos a meio da semana e a azáfama escolar é bem sentida nos corredores do Colégio Nossa Senhora da Apresentação, em Calvão, Aveiro. O corredor por onde espero é longo, sendo interrompido por portas e por alguns raios de sol que teimam romper as folgas das cortinas. Está frio e se calássemos as vozes dos mais pequenos diria que aquele corredor seria um poço de histórias, já afogadas, mas nunca esquecidas.
A campainha do relógio digital que tinha no pulso marcava as 17 horas e de repente uns passos pesados contrariavam o silêncio e a paz. A sombra de uma figura robusta preenchia a largura do corredor e a postura assertiva avisava que alguém estava a chegar. Padre Querubim é diretor deste colégio há cinco anos. Entrou na última porta à esquerda e deu-me entrada imediata pedindo para ficar à vontade.
O gabinete não é muito grande, o crucifixo na parede atrás da secretária marca o teor católico e a quantidade de papelada e dossiers dá conta do trabalho de ser diretor. Entre apresentações informais e arrumações rápidas para dar mais espaço, a postura do «senhor diretor» torna-se mais leve e confortável, mas o olhar e a respiração avisam algum nervosismo.
Mais cedo ou mais tarde a questão teria de ser feita, por mais que soubesse que esta era uma ferida que está longe de curar.
Mafalda Carvalho (MC): Padre Querubim, fale-nos do Colégio, Qual a importância destas escolas para a comunidade envolvente?
Querubim Silva (QS): A construção desta escola e o início do seu funcionamento não tem nada a ver com as restantes escolas ao nível nacional. Trata-se de uma escola inserida num meio rural e teve início há cinquenta anos atrás, sendo construída pelo povo da região e funcionava como seminário. A partir daí e devido às necessidades do povo local deu origem à escola de hoje com cerca de mil alunos e que vai do quinto ao décimo segundo ano.
O colégio é uma escola conhecida na região e fora dela devido às suas características de inserção de alunos mais desprotegidos, quer ao nível social quer ao nível cognitivo, uma vez que os alunos com necessidades educativas especiais são acolhidos e orientados de uma forma mais cuidada, onde as atividades são selecionadas de acordo com as características específicas de cada aluno. É importante frisar que muitos destes alunos não são aceites nas escolas públicas e acabam por ir parar ao Colégio.
MC: Que ações foram feitas para quebrar este sistema de cortes?
QS: A partir do momento em que foi reduzido o financiamento a estas escolas, e que o poder político sem olhar às necessidades das mesmas e pensando só na parte financeira quis distingui-las, foram realizadas algumas manifestações, como por exemplo o Movimento SOS», «A Opção de Ensino Para a Minha/o Filha/o Escolho Eu» e «Providência Cautelar» levada a cabo por advogados. Enquanto que o poder políticos não perceber as necessidades deste tipo de ensino e olhar simplesmente para a parte financeira o sistema não irá mudar e estes cortes irão continuar.
MC: Quais as diferenças entre estas escolas e as escolas públicas?
QS: A estabilidade do corpo docente, uma vez que os docentes permanecem nestas escolas durante anos sem haver alteração. A relação que se cria entre a escola e a comunidade é muito importante, porque por vezes acabamos por ceder o espaço para outras atividades da aldeia. Este colégio não é só um espaço de ensino, mas é também um espaço de convívio e vivências.
Outro aspeto e particular destas escolas são as atividades extra-curriculares. O colégio é muito forte e reconhecido na área do desporto e nós defendemos isso mesmo. Incentivamos a que os alunos tenham atividades e outras coisas para realizar a não ser sair das aulas e ir para casa, desta forma ajustamos os horários para que as aulas terminem entre as 16 e as 17 para a seguir irem para as atividades. Neste colégio existem várias modalidades desportivas, ateliers de artes, teatro e música. É um espaço muito mais recreativo.
Por exemplo, ainda temos alunos que nos vem visitar, uns já com as suas vidas organizadas outros que ainda as estão a estruturar, mas há atividades festivas em que aparecem sempre antigos alunos. Estas são as principais diferenças entre este tipo de escolas e as escolas públicas.
MC: Como se encontra o colégio atualmente?
QS: É com grande angústia que vivo esta fase. Nesta escola há professores que estão cá há mais de trinta anos, já fazem parte da casa, no entanto, com estes cortes poderão ir embora amanhã. Não tenho nem consigo dar garantias. É um tempo incerto e ainda temos dinheiro para receber. Recordo que estamos em maio e ainda não recebemos todo o orçamento do ano e a escola tem de pedir empréstimos ao banco para pagar os salários aos funcionários.
Temos ações em tribunal, advogados a tratar da situação, mas sabemos o poder que o grupo político tem e por mais que a lei esteja do nosso lado, por vezes não conseguimos ter voz. Foi com grande insatisfação e tristeza que acompanhei a investigação dos colégios. Sinto que ficamos para trás e foi tudo posto no mesmo saco, no entanto, tenho esta casa aberta para todos conhecerem esta realidade e o esforço que se faz todo o dia para que esta casa continue assim.
MC: Em 2012, foi feita uma investigação sobre o grupo GPS e onde se falou das escolas públicas, privadas e com contrato de associação. Acha que esta investigação foi bem explicada? Reviu-se na definição que deram de escolas com contrato de associação?
QS: Sei que este assunto causa alguma controversa e a comunicação social devia ter um papel muito importante nesta matéria. Deveria simplificar as coisas e torná-las mais acessíveis e a verdade é que isso não aconteceu. Ouvi muita coisa na rua de pessoas que não sabem como as coisas funcionam e acho que esta entrevista já vai ajudar a clarificar.
Como já tinha referido anteriormente, esta escola já surgiu há muito tempo e por isso sempre foi um sitio de eleição para as localidades próximas. Normalmente, como o colégio é conhecido pelo acompanhamento e condições aceitáveis, os alunos mais problemáticos vem para o colégio, não vão para as escolas públicas. Aqui os professores adaptam-se e investem nos alunos para que estes se tornem indivíduos melhores.
Desta forma, o estado financia estas turmas da mesma forma de que os alunos da escola pública, aliás, segundo um estudo apresentado pelo ministério de educação os alunos no Colégio de Calvão ficam mais baratos do que na escola pública, o que difere é que o colégio tem a autonomia para gerir este orçamento do estado. Esta é uma escola em que nenhum aluno paga, ou seja é totalmente pública. É isto que representa as escolas com contrato de associação, são autónomas para gerir este dinheiro do estado.
MC: A opinião pública reconhece o esforço que se faz nestes colégios?
QS: Posso até chocar com estas palavras, mas é certo que os professores nesta casa aplicam mais do seu tempo e até das suas vidas e não recebem por isso. Infelizmente e com muita pena tenho de dizer que por obrigação do governos as escolas cada vez se tornam menos escolas para se tornarem empresas.
Não tenho dúvidas algumas que é isto que se passa nas escolas públicas e nessas escolas privadas, aqui a situação é diferente. Há necessidades, necessidades básicas que nós temos que transformar tripas em coração para que os projetos sejam realizados com sucesso. Só aqueles que conhecem o trabalho aqui realizado é que reconhecem o esforço.
MC: O que sente quando se referem a estes colégios como escolas ricas e luxuosas?
QS: Acho impressionante como é que acham estranho as nossas instalações, acho impressionante as reportagens que se fazem a criticar os colégios com contrato de associação quando nem sequer sabem o que isso é, acho impressionante que achem que as nossas escolas são o supra-sumo do luxo quando esta escola está a ser construída e adaptada há mais de 50 anos e aqui, os funcionários não abandonam a escola às 17 da tarde.
Cerca de trinta por cento dos trabalhadores já foram despedidos no espaço de dois anos. As condições e os apoios cada vez são menores e a capacidade de manter este espaço aberto é cada vez mais difícil. O Padre Querubim continua a unir forças e garante que não vai desistir desta luta, para que que estes alunos carenciados e com dificuldades tenham oportunidade de ter um ensino mais acompanhado e mais rico.
Deixo para trás um espaço colorido e animado, mas que carrega uma carga emocional de medo, recordações, saudades e muitas vivências.
Nesse mesmo ano, iniciou-se uma investigação a um dos negócios do grupo GPS – os colégios privados. Nesta investigação pôs-se em causa a veracidade destes colégios privados e o desfavorecimento das escolas públicas. Porém, para além das escolas públicas e das escolas privadas, existe também outra modalidade de escolha de ensino que são as escolas com contrato de associação. Estas ficaram por esclarecer e por clarificar e acabaram por ficar perdidos entre aquilo que é verdade e mentira.
Padre Querubim é diretor de um destes colégios com contrato de associação e sente-se no dever de abrir as portas do colégio e mostrar uma realidade desfocada.
O encontro foi marcado para as 17 horas. Estamos a meio da semana e a azáfama escolar é bem sentida nos corredores do Colégio Nossa Senhora da Apresentação, em Calvão, Aveiro. O corredor por onde espero é longo, sendo interrompido por portas e por alguns raios de sol que teimam romper as folgas das cortinas. Está frio e se calássemos as vozes dos mais pequenos diria que aquele corredor seria um poço de histórias, já afogadas, mas nunca esquecidas.
A campainha do relógio digital que tinha no pulso marcava as 17 horas e de repente uns passos pesados contrariavam o silêncio e a paz. A sombra de uma figura robusta preenchia a largura do corredor e a postura assertiva avisava que alguém estava a chegar. Padre Querubim é diretor deste colégio há cinco anos. Entrou na última porta à esquerda e deu-me entrada imediata pedindo para ficar à vontade.
O gabinete não é muito grande, o crucifixo na parede atrás da secretária marca o teor católico e a quantidade de papelada e dossiers dá conta do trabalho de ser diretor. Entre apresentações informais e arrumações rápidas para dar mais espaço, a postura do «senhor diretor» torna-se mais leve e confortável, mas o olhar e a respiração avisam algum nervosismo.
Mais cedo ou mais tarde a questão teria de ser feita, por mais que soubesse que esta era uma ferida que está longe de curar.
Mafalda Carvalho (MC): Padre Querubim, fale-nos do Colégio, Qual a importância destas escolas para a comunidade envolvente?
Querubim Silva (QS): A construção desta escola e o início do seu funcionamento não tem nada a ver com as restantes escolas ao nível nacional. Trata-se de uma escola inserida num meio rural e teve início há cinquenta anos atrás, sendo construída pelo povo da região e funcionava como seminário. A partir daí e devido às necessidades do povo local deu origem à escola de hoje com cerca de mil alunos e que vai do quinto ao décimo segundo ano.
O colégio é uma escola conhecida na região e fora dela devido às suas características de inserção de alunos mais desprotegidos, quer ao nível social quer ao nível cognitivo, uma vez que os alunos com necessidades educativas especiais são acolhidos e orientados de uma forma mais cuidada, onde as atividades são selecionadas de acordo com as características específicas de cada aluno. É importante frisar que muitos destes alunos não são aceites nas escolas públicas e acabam por ir parar ao Colégio.
MC: Que ações foram feitas para quebrar este sistema de cortes?
QS: A partir do momento em que foi reduzido o financiamento a estas escolas, e que o poder político sem olhar às necessidades das mesmas e pensando só na parte financeira quis distingui-las, foram realizadas algumas manifestações, como por exemplo o Movimento SOS», «A Opção de Ensino Para a Minha/o Filha/o Escolho Eu» e «Providência Cautelar» levada a cabo por advogados. Enquanto que o poder políticos não perceber as necessidades deste tipo de ensino e olhar simplesmente para a parte financeira o sistema não irá mudar e estes cortes irão continuar.
MC: Quais as diferenças entre estas escolas e as escolas públicas?
QS: A estabilidade do corpo docente, uma vez que os docentes permanecem nestas escolas durante anos sem haver alteração. A relação que se cria entre a escola e a comunidade é muito importante, porque por vezes acabamos por ceder o espaço para outras atividades da aldeia. Este colégio não é só um espaço de ensino, mas é também um espaço de convívio e vivências.
Outro aspeto e particular destas escolas são as atividades extra-curriculares. O colégio é muito forte e reconhecido na área do desporto e nós defendemos isso mesmo. Incentivamos a que os alunos tenham atividades e outras coisas para realizar a não ser sair das aulas e ir para casa, desta forma ajustamos os horários para que as aulas terminem entre as 16 e as 17 para a seguir irem para as atividades. Neste colégio existem várias modalidades desportivas, ateliers de artes, teatro e música. É um espaço muito mais recreativo.
Por exemplo, ainda temos alunos que nos vem visitar, uns já com as suas vidas organizadas outros que ainda as estão a estruturar, mas há atividades festivas em que aparecem sempre antigos alunos. Estas são as principais diferenças entre este tipo de escolas e as escolas públicas.
MC: Como se encontra o colégio atualmente?
QS: É com grande angústia que vivo esta fase. Nesta escola há professores que estão cá há mais de trinta anos, já fazem parte da casa, no entanto, com estes cortes poderão ir embora amanhã. Não tenho nem consigo dar garantias. É um tempo incerto e ainda temos dinheiro para receber. Recordo que estamos em maio e ainda não recebemos todo o orçamento do ano e a escola tem de pedir empréstimos ao banco para pagar os salários aos funcionários.
Temos ações em tribunal, advogados a tratar da situação, mas sabemos o poder que o grupo político tem e por mais que a lei esteja do nosso lado, por vezes não conseguimos ter voz. Foi com grande insatisfação e tristeza que acompanhei a investigação dos colégios. Sinto que ficamos para trás e foi tudo posto no mesmo saco, no entanto, tenho esta casa aberta para todos conhecerem esta realidade e o esforço que se faz todo o dia para que esta casa continue assim.
Se não fosse o colégio, mais de metade destes alunos não conseguiam ter acesso à educação. É assim que vivemos, na corda bamba. Não posso esconder que se vivem tempos muito difíceis e sinceramente, vejo o futuro muito negro.
MC: Em 2012, foi feita uma investigação sobre o grupo GPS e onde se falou das escolas públicas, privadas e com contrato de associação. Acha que esta investigação foi bem explicada? Reviu-se na definição que deram de escolas com contrato de associação?
QS: Sei que este assunto causa alguma controversa e a comunicação social devia ter um papel muito importante nesta matéria. Deveria simplificar as coisas e torná-las mais acessíveis e a verdade é que isso não aconteceu. Ouvi muita coisa na rua de pessoas que não sabem como as coisas funcionam e acho que esta entrevista já vai ajudar a clarificar.
Como já tinha referido anteriormente, esta escola já surgiu há muito tempo e por isso sempre foi um sitio de eleição para as localidades próximas. Normalmente, como o colégio é conhecido pelo acompanhamento e condições aceitáveis, os alunos mais problemáticos vem para o colégio, não vão para as escolas públicas. Aqui os professores adaptam-se e investem nos alunos para que estes se tornem indivíduos melhores.
Desta forma, o estado financia estas turmas da mesma forma de que os alunos da escola pública, aliás, segundo um estudo apresentado pelo ministério de educação os alunos no Colégio de Calvão ficam mais baratos do que na escola pública, o que difere é que o colégio tem a autonomia para gerir este orçamento do estado. Esta é uma escola em que nenhum aluno paga, ou seja é totalmente pública. É isto que representa as escolas com contrato de associação, são autónomas para gerir este dinheiro do estado.
MC: A opinião pública reconhece o esforço que se faz nestes colégios?
QS: Posso até chocar com estas palavras, mas é certo que os professores nesta casa aplicam mais do seu tempo e até das suas vidas e não recebem por isso. Infelizmente e com muita pena tenho de dizer que por obrigação do governos as escolas cada vez se tornam menos escolas para se tornarem empresas.
Não tenho dúvidas algumas que é isto que se passa nas escolas públicas e nessas escolas privadas, aqui a situação é diferente. Há necessidades, necessidades básicas que nós temos que transformar tripas em coração para que os projetos sejam realizados com sucesso. Só aqueles que conhecem o trabalho aqui realizado é que reconhecem o esforço.
MC: O que sente quando se referem a estes colégios como escolas ricas e luxuosas?
QS: Acho impressionante como é que acham estranho as nossas instalações, acho impressionante as reportagens que se fazem a criticar os colégios com contrato de associação quando nem sequer sabem o que isso é, acho impressionante que achem que as nossas escolas são o supra-sumo do luxo quando esta escola está a ser construída e adaptada há mais de 50 anos e aqui, os funcionários não abandonam a escola às 17 da tarde.
É fácil falar e criticar quando não se sente suor por nada e é muito mais fácil apontar o dedo quando gostamos das coisas já feitas e prontas.
Cerca de trinta por cento dos trabalhadores já foram despedidos no espaço de dois anos. As condições e os apoios cada vez são menores e a capacidade de manter este espaço aberto é cada vez mais difícil. O Padre Querubim continua a unir forças e garante que não vai desistir desta luta, para que que estes alunos carenciados e com dificuldades tenham oportunidade de ter um ensino mais acompanhado e mais rico.
Deixo para trás um espaço colorido e animado, mas que carrega uma carga emocional de medo, recordações, saudades e muitas vivências.