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Portugal visto de fora

Cristiano Marques é emigrante desde cedo. Retrata a situação actual de Portugal tendo aos 18 anos partido para a Suiça em busca de um futuro melhor

11 dez 2016, 17:21 Jéssica Marques
Cristiano Marques

O incessante e elevado desemprego jovem tem sido um desafio persistente para o governo, empregadores, e sobretudo, para os próprios jovens em Portugal. Algumas estatísticas e conclusões provam que os jovens entre os 15 e 24 anos, a nível global, estão a enfrentar uma situação muito mais difícil na procura de emprego em comparação com o mesmo grupo etário em 2007.  

 

Alternativas não há muitas. Com a situação que se instalou no país, os jovens vêm-se obrigados a emigrar em busca de melhores condições de vida. Os números não mentem: desde 2008 que 100 mil portugueses deixam o país todos os anos. A jornalista Jéssica Marques esteve à conversa com Cristiano Marques, um jovem de 23 anos que se tornou emigrante desde cedo.

 

Cristiano emigrou apenas com 18 anos e não pensa em regressar a Portugal. Com o agravamento da crise, sente o país a ficar mais longe.

 

Jéssica Marques: Ainda em Portugal, frequentavas o curso de Física-e-Química. Alguma vez tinhas pensado em emigrar?

 

Cristiano Marques: Como é natural naquela idade (18 anos) nunca pensaria numa coisa dessas! Aliás, era uma coisa que me estava completamente fora da linha horizonte. Com 18 anos a única coisa com que te preocupas é a diversão e eu nunca pensava no dia de amanhã. Deixava os estudos de lado para jogar Playstation ou jogar futebol, uma das minhas grandes paixões na altura que entretanto ficou pelo caminho, infelizmente. Mas cada dia que passava olhava para a televisão e só via miséria e não era a contar os trocos ao fim do mês que queria para a minha vida, então tive de fazer alguma coisa.

 

JM: O que sentiste quando te viste obrigado a deixar o país?

 

CM: Foi uma decisão que, embora não parecesse, rebolou meses na minha cabeça. Não conseguia dormir, faltava a muitas aulas porque já não tinha motivação de ali estar. Sofro muito com ansiedade e nessa altura atingi o limite, dias antes de ganhar coragem de contar aos meus pais o que já andava para contar há algum tempo, tive um ataque de pânico e foi aí que tive de dizer que queria emigrar para junto deles.

 

JM: Como reagiram os teus pais?

 

CM: Eles entendiam que eu não andava muito bem. Mas sempre quiseram que eu a minha irmã continuássemos os estudos e um dia nos tornássemos uns doutores ou arquitectos! Mas infelizmente nem todos o podem ser e o meu destino não era em Portugal, eu senti isso. Então eles compreenderam a minha situação. Mas ainda levei um sermão por estar a arriscar cedo demais (risos), no entanto hoje tenho a certeza que fiz a escolha certa embora tivesse custado muito.

Custou muito mesmo.

 

JM: Cresceste sem os teus pais, mas a tua irmã sempre te acompanhou ao longo do teu crescimento. O que viste nos olhos dela quando lhe disseste que ias emigrar?

 

CM: Ela apoiou a minha decisão rigidamente. Ela sempre foi assim, muito dura e nunca chorava! Mas no dia em que peguei nas malas e saí, chorou muito e eu também. Crescemos juntos com os nossos avós. Eu fui o irmão mais velho que a ajudava quando precisava de compor algum cabo ou quando alguma coisa se estragava. Desde que me lembro, ela sempre foi a mais ajuizada e a que tirava sempre boas notas. Denunciava-me sempre que tentava esconder alguma nota negativa. Sempre quis o meu bem e protegíamo-nos um ao outro, sempre foi assim. Por isto e muito mais eu sinto muito a falta das nossas brincadeiras e as nossas discussões. Gostava muito de poder voltar atrás no tempo e reviver tudo de novo.

 

JM: Qual foi a principal dificuldade que mais te marcou quando chegaste à Suíça?

 

CM: A língua. Como emigrei para junto dos meus pais, naquele cantão fala-se o alemão. E ter que sair à rua ou simplesmente ver televisão era uma tortura porque nunca entendia nada e na rua nunca podia falar com ninguém porque não me iam entender e eu não iria entender também.

 

JM: Lidaste com algum tipo de exclusão por parte das pessoas?

 

CM: Sim. Por incrível que pareça o racismo existe, e no início os meus colegas de trabalho sabiam que eu era português e punham-se a fazer trabalhos que não era suposto eu fazer. Implicavam comigo a toda a hora. Lembro-me que me diziam muitas vezes, “Se não estás contente, estão mais para vir para o teu lugar e não são portugueses!”. Enfim, foi das piores coisas que senti, mas o pior já passou.

 

JM: Tiveste de aprender a língua alemã, como foi a aprendizagem para ti?

 

CM: A língua é difícil de se pronunciar mas com treino e muitas noites de estudo depois do trabalho resolveram o meu problema. Tinha um livro enorme com tudo o que era necessário para falar e escrever correctamente o alemão. Como o meu pai já está bastante familiarizado com a língua também puxava por mim para ter um diálogo com ele em alemão. Praticava assim e aprendi rapidamente.

 

JM: E em relação ao teu trabalho? Era o que idealizavas no estrangeiro?

 

CM: Foi o principal motivo que me fez abandonar Portugal. O meu trabalho não é um de sonho, não sou médico, nem arquitecto como os meus pais tinham sonhado para mim. Sou segurança nas lojas de comércio. Não me queixo, cada trabalho tem as suas dificuldades, por exemplo, no meu trabalho, das piores coisas que tenho de fazer é ficar à porta das lojas durante o inverno, todas as noites quando estão -30° C na rua e quando está tudo coberto de neve. Mas não posso sair do sítio e não me posso mexer muito. Em relação aos rendimentos, estou contente com o dinheiro que tenho vindo a juntar para num futuro próximo construir uma casa em Portugal. Ganha-se bem mas também se trabalha muito! Não entendo como é que muitas pessoas se queixam em Portugal, se sentissem as dificuldades à séria aí sim, poderiam queixar-se.

JM: Quando vens a Portugal de férias, o que trazes na bagagem para além de roupas e outros objectos?

 

CM: Saudades. Muitas saudades do ar português, dos meus avós, da minha casa que deixei juntamente com o meu cão lá. Sempre que estou de partida para Portugal em tempo de férias, penso como será bom poder acordar e não fazer nada, estar em minha casa, perto da família e contar tudo o que há para contar.

 

JM: Vais e vens de carro. Torna-se difícil passar a fronteira de Portugal?

 

CM: Cada vez mais! Sempre custou mas à medida que os anos vão passando a vontade de regressar e ficar de vez é maior. Sempre que vou de férias é um castigo para voltar (risos). Mas a vida não é como queremos porque por mim ia e ficava de vez.

 

JM: Pensas em voltar a Portugal um dia?

 

CM: Gostava muito de poder gozar a minha reforma em Portugal claro. Se o país oferecesse condições rentáveis até voltava mais cedo do que o previsto mas nos dias que correm é arriscado voltar para Portugal de vez, diria até que é quase absurdo voltar para não ter trabalho. Portanto um dia, se houver saúde espero poder aproveitar os meus últimos anos no meu país natal.

 

JM: E já alguma vez pensaste em concluir os estudos ou já não é prioridade?

 

CM: Sinceramente não…ao início ainda pensei que tudo ficaria em “stand by” e um dia mais tarde acabava o que tinha começado. Mas penso, “será que vale a pena?”. Não, eu trabalho e ganho o meu dinheiro já. Cheguei até ao 12° ano o que já não foi mau de todo, os ensinamentos e os valores estão cá, não é um diploma ou um papel que vão mudar alguma coisa. Acho que não teria paciência já para tirar um curso ou estudar o que quer que seja. Deixou de ser uma prioridade para mim.

 

JM: Como descreves o teu país neste momento?

 

CM: Péssimo. Há uns anos atrás quem tivesse uma licenciatura era um sortudo e um rei porque poderia subir muito na vida, hoje em dia é apenas a fase inicial do desemprego o que é uma situação horrível! Nunca vi um país como o nosso em que infelizmente quem está no poder ainda aconselha os jovens a emigrar em vez de criar soluções para reduzir o desemprego. Assim Portugal nunca irá para a frente. É triste mas é o país que temos.