A força de um sonho
Entrevista a Susana C. Júdice, a escritora que quer pôr liberdade em tudo quanto escreve: num livro, numa expressão, numa personagem.
Susana vive entre livros, palavras e lembranças. Entre a família, a dança e a moda. Nasceu nos EUA, mas foi em Portugal que viveu a sua adolescência. Da dança à publicação do primeiro livro – Sonho de Liberum -, permitiu desde cedo que a arte entrasse na sua vida.
Agora, com 29 anos e depois do sucesso do primeiro livro, pretende continuar a dar liberdade às palavras, ao corpo e à mente. Está focada na expansão da obra pelo mundo e a continuar a aceitar os desafios que a vida lhe dá.
Na entrevista fala-se de ficção, de amor e de desafios. Fala-se do Sonho de Liberum e das razões por que vale a pena continuar a sonhar. Porque o sonho, esse, comanda a vida e, pegando nas suas palavras, «nada compra o poder chegar a casa no final do dia e saborear uma história fantástica, afastar-me da minha realidade».
É uma moral que pretende transmitir aos seus leitores. Desafiá-los a fechar os olhos por um segundo e embarcarem com ela numa viagem a este novo mundo, tão fictício e, ao mesmo tempo, tão próximo da realidade.
Ainda viveste algum tempo nos EUA. Como foi a vinda para Portugal?
Regressei com sensivelmente 9 anos e meio. Foi uma adaptação relativamente fácil no começo. Pouco tempo depois comecei a ter algumas dificuldades ao nível das saudades. Isso obrigou-me a regressar para visualizar e perceber as coisas de outra forma, com mais maturidade. Ajudou-me muito a aceitar a nova vida em Portugal. Comecei a lutar pelos meus sonhos desde então.
Que idade tinhas quando te interessaste pela escrita?
Tinha 11 anos. Comecei a escrever já em Portugal.
Nessa altura começaste por escrever o quê?
Engraçado que tive interesse em começar pela poesia, não por nenhum conto. Foi um começo espontâneo, algo que me surgiu naturalmente (risos).
Então a escrita não foi um refúgio nessa tua fase da adolescência. Começaste a escrever mesmo por gosto...
Sim, foi mais na tentativa de brincar com palavras. Comecei a achar piada ao rimar e então dedicava-me bastante àquilo. Tinha até o hábito de cronometrar o tempo que demorava a escrever porque sempre consegui fazê-lo de uma forma muito espontânea e rápida, nunca foi algo difícil para mim. E depois então mais à frente, já mesmo na adolescência, é que comecei a escrever mais líricas - de músicas, por exemplo - e muitas cartas de desabafo também à mistura (risos).
Achas que o facto de teres vivido noutro país influenciou não só a personalidade que tens hoje como também o teu gosto literário e a forma como escreves?
Creio que sim. Até porque a educação nos EUA é diferente, obrigava-nos a ler muito. Tínhamos de fazer relatórios mensais de livros ou capítulos, daí que a leitura desde cedo se tenha incutido na minha educação. A minha mãe também me lia muito quando eu era pequena e isso despertou bastante este gosto em mim. Mas sim, sem dúvida que a experiência de vida e o contacto com outra cultura me fez tomar o gosto pela escrita.
Houve algum momento marcante na tua vida que te fizesse crer que estava na altura de escreveres um livro?
O livro surgiu de um desafio. O meu marido e uma amiga minha analisaram toda a coleção de poesia e de desabafos que tenho em casa e disseram na brincadeira que devia escrever um livro. A minha reação foi muito positiva mas, ao mesmo tempo, disse-lhes logo: «vocês são loucos, porque eu não consigo escrever livro nenhum.» Mas, de facto, a ideia ficou lá e foi numa madrugada que me deu uma epifania e tive o deslumbre de uma possível estrutura do livro, ainda muito a cru. Depois fiz aquilo que sempre ensinei as minhas alunas da dança a fazer que é acreditarem nelas próprias e que não há nada impossível e lancei-me ao desafio.
Porquê uma obra fictícia?
Na verdade, porque é o meu estilo preferido de leitura. Adoro poder saborear um bocadinho de ficção quando chego a casa no final do dia e afastar-me da minha própria realidade, embrulhando-me numa história fantástica. E acima de tudo introduzi muita moral também na própria história fictícia. É uma escrita de ficção, mas que se aprende e se sente ao ler o livro.
A Gweniver é a protagonista da história. De alguma forma revês-te nela? Ou tiveste outra inspiração para criar essa personagem?
Eu creio que em todas as personagens tenho sempre um bocadinho de mim e já tenho ouvido que isso é algo comum em vários escritores. No entanto, a Gweniver de uma forma inconsciente acabou por refletir muito da minha própria personalidade, mas não que tivesse sido uma inspiração propositada de mim própria. Coincidiu. É das personagens que me identifico mais e talvez, por isso, tenha dado, inconscientemente, mais de mim a essa personagem. Aliás, muitas pessoas que leem o livro conseguem identificar traços meus nela.
Porquê Sonho de Liberum?
O Sonho de Liberum tem um duplo significado. Em primeiro lugar, Liberum é um dos reinos principais da história, reino esse que procura liberdade e refúgio da ditadura de Galium. Daí ser Sonho de Liberum: liberum porque significa liberdade em latim e o título traduz essa liberdade desesperada que aquele povo tanto procura no reino de Liberum. Em segundo lugar, o significado de liberdade própria, ou seja, o meu sonho de liberum, a minha expressão de liberdade ao escrever e a liberdade que quero que cada leitor encontre ao ler a obra.
Agora que tens a obra pronta mudavas algum pormenor?
Não mudava absolutamente nada. Estou mesmo muito contente com o resultado. Tem sido um sucesso e o feedback tem sido muito positivo. Especialmente e por ser uma primeira obra - que é sempre um “tiro no escuro” porque nunca sabemos qual será a reação - estou mesmo muito satisfeita. Já o li mais do que uma vez, aliás foi a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa depois da publicação e mesmo quando saiu a segunda edição - precisamente para ver se haveria alguma necessidade de alterar alguma coisa – continuo a não planear alterar nada, até porque o segundo livro virá no seguimento deste.
Quanto ao próximo livro, já podes adiantar alguma coisa?
Não, o segundo ainda está a ser trabalhado. Já várias pessoas me perguntaram, mas, por enquanto, posso apenas adiantar que estará talvez mais maduro do que o primeiro. Nota-se, efetivamente, uma maior maturidade. Foi uma alteração baseada nas críticas de pessoas experientes na área e creio que o segundo já vai quebrar essa “verdura”. Será a continuação do primeiro e mesmo no final deste, para quem o leu, percebe que haverá um segundo, mas de uma forma muito radical, onde se mantém dentro dos mesmos parâmetros, mas com situações completamente diferentes e que, na minha opinião pessoal, ainda faz com que possamos esperar mais deste do que do anterior.
Falaste que o feedback tem sido muito positivo. Apesar de ser uma obra fictícia, pensas que os leitores se conseguem rever nela?
Sim. Precisamente quando falei dos tais valores morais que acabam por ser incutidos. Quando comecei a escrever, mesmo na ficção, sempre me mentalizei que queria uma coisa o mais próxima possível da realidade. É claro que não possuímos os poderes mágicos, mas os elementos que descrevo existem, nomeadamente a água, a terra, o ar, o fogo... são elementos que conseguimos identificar de alguma forma no nosso dia-a-dia. Ah, e depois as situações em si, onde se retrata muito o amor, não apenas na forma de romance, mas também entre amizades, entre a família, o amor a uma causa... por aqui se consegue ver essa proximidade.
Então estás satisfeita com a proximidade ao mundo real que conseguiste criar?
Para minha surpresa sim, mais do que estava à espera. Inclusive na apresentação que fiz na FNAC em Faro, o escritor e poeta Fernando Cabrita, surpreendeu-me no sentido em que pegou em muitas frases do meu livro e as aplicou e comparou com a sociedade, a ecologia e a política de hoje em dia. Falou de inúmeras situações que eu própria desconhecia ou nunca tinha pensado associar dessa forma. Não estava sequer consciente disso, mas, de facto, comecei a utilizar essa ideia dele para fazer as minhas próprias apresentações e isso possibilitou-me atingir um público alvo diferente do inicial.
Achas que a publicação do livro veio alterar substancialmente a tua vida? Que te obrigou a prescindir de coisas como a dança?
Eu tenho um lema de vida que é «cada coisa tem uma fase» e não precisamos de abdicar a 100%, mas existem momentos cruciais na vida que nos obrigam a mudar de rumo e a tomar decisões. De facto, o Sonho de Liberum foi uma aventura literária que me tem levado a vários pontos que me deixam a pensar sobre o meu futuro. Por exemplo, estava ligada à dança, que é e será sempre um grande amor e uma grande paixão. No entanto consigo também perceber a perspetiva de que um livro - ou de forma mais ambiciosa, uma dedicação a uma possível vida literária, algo que não está garantido, mas que espero conseguir – também me dá outro tipo de futuro que uma vida como dançarina não permitiria, até porque o corpo também se começa a ressentir, já que danço há 25 anos (risos). Acho que devemos saborear cada fase da nossa vida e ter a consciência de quando é que devemos abrandar, de uma forma saudável. Foi um pouco o que aconteceu com a dança, nesta transição da vida onde a literatura foi uma coincidência, mas que acabou por preencher o meu futuro. Por isso, sim, posso afirmar que mudou radicalmente.
A um nível mais pessoal, pensas voltar aos EUA ou ficar em Portugal?
Sinceramente penso ficar, não sinto motivos alguns para voltar. Pretendo voltar em trabalho, na promoção do livro, tal como fiz no Canadá. No entanto, para viver, estou cada vez mais decidida a ficar pelo nosso cantinho português junto ao mar (risos).
Quais os planos para o futuro? Ainda tens mais apresentações este ano?
Este ano não. Tive de abrandar devido à moda. Nesta época natalícia sou precisa ativamente na loja. Não sei se irá surgir alguma coisa de última hora, mas para já não está prevista nenhuma apresentação. Pretendo continuar a divulgar ao máximo, até porque só fez o primeiro aniversário do livro agora e ainda tem muita palavra e magia para espalhar. Ao mesmo tempo estou dedicada ao segundo livro, para ver se consigo publicá-lo ao longo de 2017.