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O horizonte do jovem pastor

Travassos, uma aldeia com pouco mais de 60 habitantes. É de lá que vem o nosso convidado desta semana. Conheça o percurso de vida do jovem Samuel

11 dez 2016, 21:22 Joana Tavares
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O horizonte do jovem pastor

11 dez 2016, 20:55

Sente que o campo será sempre a sua casa. Recorda-se de acordar com os galos a cantar bem cedo, de abrir a janela e ver neve por todo o lado, das noites passadas à lareira, das tardes de verão a correr pelos montes. Diz que é “apenas mais um” que teve de trocar “a vida do campo pela vida da cidade em busca de mais e melhor”.

 

Chama-se Samuel Pereira, tem 26 anos e vem de uma aldeia do concelho de Mondim de Basto. Filho de agricultores e um curioso nato, cedo teve de aprender a desenrascar-se sozinho e a ser “grande”. Ajudava nas lides agrícolas quando chegava da escola. Não por ter de ser, mas por querer saber sempre mais. Gostava de correr pelos montes atrás do rebanho. Sentia-se livre mas cheio de responsabilidade.

 

Hoje vive em Lisboa, na “cidade grande”, como foi acostumado a chamar. É militar e partilha connosco alguns dos momentos que mais o marcaram. Contudo, acha que o campo ainda vai voltar a fazer parte da sua vida. 

 

“A minha casa? É o campo!”

Filho de pais emigrantes, Samuel nasceu na Suíça a 11 de janeiro de 1990, nos subúrbios de Zurique. Os pais procuravam uma vida melhor lá fora, mas após 15 anos viram-se obrigados a regressar.

 

Não me estava a adaptar à escola de lá, a minha mãe teve de deixar de trabalhar e ficar comigo em casa porque eu fugia da escola. Então decidiram voltar e meter-me cá na escola. Depois já corria tudo bem”.

 

Foi então que voltaram para Travassos, uma pequena aldeia em Mondim de Basto, distrito de Vila Real. Travassos é uma zona rural em que os únicos ruídos são os da natureza: a água que corre no rio, o vento a passar pela vegetação, os pássaros, os animais do campo, os montes que rodeiam a aldeia. A casa onde habitavam era simples e pequena. Rústica, como o ambiente em redor.

 

As outras casas também são de pedra, [mas] acabava por ser um ambiente acolhedor.”

 

 

Em criança, saía cedinho de casa e voltava ainda antes do almoço. À tarde, apressava-se a fazer os trabalhos de casa para poder andar com os pais no campo.

 

Adorava ajudar os meus pais. Para ser sincero, gostava mais de aprender do que ajudar. Sempre tive imensa curiosidade pelas coisas que eles faziam relacionadas com a agricultura.”

 

Os animais – vacas e um rebanho - eram uma forma de subsistência da família, além da agricultura. Por vezes, depois dos trabalhos de casa feitos, ia pastar o rebanho para os montes, onde aproveitava para brincar com amigos. Mas sempre com os olhos postos nos animais. Ao anoitecer, regressava a casa. Já com o pai, faziam a contagem e caso faltasse algum animal lá tinha ele de regressar para o procurar.

 

 

O sonho da mãe sempre foi ter um filho formado. Já o pai sempre o incentivou a seguir os estudos mas com o intuito de conseguir um bom trabalho. Não queria que o filho soubesse o que era ter fome, como ele tinha sentido antes de emigrar. Depois de completar o secundário não quis estudar mais. Apesar do interesse pela arquitetura, optou por “fazer-se à vida”.

“Aos 19 anos decidi enveredar por uma carreira militar. As histórias que o meu pai me contava acabaram por influenciar esta minha escolha. E decidi concorrer para os paraquedistas.”

 

“WOW, isto é enorme!”

Samuel conta que a grande motivação para a nova fase era o dinheiro. Queria ser independente e ter dinheiro para as coisas que queria, como qualquer jovem da sua idade. Mas não era só isso.

 

Queria sair do meio rural, alargar horizontes, experienciar outras coisas, viver de outra forma.”

 

Era inverno e estava sozinho em casa, à lareira, numa sexta-feira à tarde, quando recebeu a chamada. Na segunda-feira seguinte tinha de estar no Porto para prestar provas de aptidão.  Depois de aprovado, seguiu para Tancos. Sente que foi lá que toda a transformação como pessoa começou.

 

Fiquei bastante feliz. Já estava à espera que me chamassem. Era o que eu mais queria. Senti que era o início de uma nova etapa. Mas pensei logo na minha mãe, como é que ela ia reagir. Ela era contra eu ir. Como eu ia ficar bastante tempo fora de casa, a minha mãe ia ficar triste, porque ia deixar de me ver todos os dias.”

 

Havia aviões a aterrar, viaturas a andar para trás e para a frente, pelotões a marchar. Muita coisa a acontecer ao mesmo tempo para quem vinha de um ambiente tão calmo. “Não esperava nada disto!”

 

Mas rapidamente percebeu que o dinheiro não era assim tanto para o esforço que estava a fazer. Em fevereiro de 2010 optou por pedir transferência para o quartel de infantaria, em Vila Real. 

 

Estava longe de casa, da minha família. As visitas a casa eram curtas, porque demorava muito tempo em viagens. Optei por pedir a transferência e ganhar tempo para mim, para a família e para os amigos.”

 

Foi em Vila Real que se apaixonou verdadeiramente pelo que fazia. Era tudo diferente. O quartel era mais calmo, mais pequeno, tinha menos agitação. As funções que passou a desempenhar eram mais desafiantes. Acabou por tirar vários cursos para progredir como Soldado. Foi depois desta mudança que começou a ganhar o verdadeiro gosto pelo Exército. Ponderou até concorrer aos quadros permanentes do Exército. Mais ainda não era altura certa.

 

 

É com orgulho que afirma ter pertencido ao RI13 (Regimento de Infantaria nº13). Apesar de nunca ter feito nenhuma missão no estrangeiro, foram várias as propostas recebidas. Mas o elo de ligação à família acabava sempre por prevalecer. Nesta “casa” adquiriu valores que leva para a vida.

 

Foi muito importante tudo aquilo que passei junto dos meus camaradas. Semanas em exercícios de treino na neve, exercícios com outros países, espírito de equipa e camaradagem uns para com os outros. Sentia que tinha ali a minha segunda família, eramos muito unidos e protetores connosco e com o próximo.”

 

Em 2013 decide fazer nova mudança. Pede nova transferência, mas para Queluz. Queria continuar a progredir na carreira. Ambicionava conhecer outras especialidades dentro do Exército. Mudar de ritmo de vida.

 

 

Mas nada correspondeu às expetativas e acabou até por perder o gosto pelo que fazia. Vinha de um quartel operacional, habituado a treinos diários, onde se sentia mais útil.

 

No RAAA1 [Regimento de Artilharia Antiaérea nº1] deixei de desempenhar funções ativas e comecei a desempenhar mais funções de secretariado e campinagem. Percebi que este quartel não correspondia em nada àquilo que se ouvia. Foi uma desilusão…”

 

A menos de um ano de terminar a carreira como militar, conta que pretende ficar por Lisboa.

 

Sem dúvidas que aqui tenho mais oportunidades de emprego do que perto de casa.”

 

Quanto às saudades, vai tentando colmatar com pequenas visitas. Depois de tantos anos fora de casa, recorda os dias em que era acordado pela mãe e ela lhe preparava o lanche.

 

Sinto saudades de quando ela me preparava uma grande fatia de pão caseiro com compota de amora. Ainda lhe sinto o cheiro [risos] 

 

Esta vida vai-me deixar saudades é pelas amizades que eu fiz. Há pessoas que se tornam verdadeiros irmãos, mesmo sem o serem”