Uma vida no “universo das palavras”
Dulce Martinho, professora desde os 19 anos, nunca parou de estudar. Sempre viveu no seu “universo das palavras” e no mundo das Línguas
3 FOTOS: Dulce MartinhoTem 54 anos e é professora. No entanto, continua a investir na sua formação. Desde o início da sua carreira que trabalha e estuda ao mesmo tempo. É uma apaixonada por livros e pela área das Línguas. Fez mestrado em Estudos Franceses e prosseguiu para o Doutoramento em Estudos Culturais.
Numa entrevista intimista, descontraída e num estilo coloquial, conta o seu percurso e explica que, num mundo em constante mudança, sente uma contínua necessidade da procura do conhecimento e, portanto, de continuar a estudar.
“Desde pequenina que quis ser professora, provavelmente por influência do meu pai e da estrutura familiar. Não é que ele tenha feito qualquer tipo de pressão, mas era uma referência.” É assim que Dulce Martinho começa a contar a sua história, que passa muito pela profissão. “Tanto quanto me lembro, nas redações da escola primária já escrevia que queria ser professora.” Rapidamente percebeu que a área que a fascinava era a das Línguas e sempre foi para isso que teve mais apetências. “No que corresponde ao Ensino Secundário, no meu tempo - final dos anos 70- , nós tínhamos três disciplinas obrigatórias: Português, Introdução à Política e Filosofia. Depois tínhamos de escolher outras três. Eu tive imensa dificuldade em prescindir de Alemão, por exemplo. Contudo, também não queria prescindir de História, de que gostava muito. Assim, escolhi História, Inglês e Francês. Mas ia assistir às aulas de Alemão das minhas colegas, porque gostava mesmo de línguas. E não tinha preferência por nenhuma.”
O gosto pela área das Línguas é algo que a acompanha desde sempre e, portanto, acabou por se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas, na vertente de Português/Francês. “Quando fui para o Ensino Superior, sabendo que queria ir para Línguas e Literaturas Modernas, voltei a ter dificuldade em escolher quais as duas línguas que queria seguir. Acabei por escolher Português e Francês.”
Começou a dar aulas aos 19 anos, por razões económicas. “Decidi trabalhar aos 19 anos por necessidade. Só tinha feito o primeiro ano do Ensino Superior. Juntei o facto de gostar de ser professora e o facto de, na altura, princípio da década de 80, haver muita falta de professores, nomeadamente de Francês, e comecei a dar aulas. Na altura, era muitíssimo fácil entrar no ensino, tanto que comecei a ser professora na escola à porta de casa. Foi uma conjugação dos dois fatores, a necessidade e a facilidade com que se era professora na altura. Isso resultou da massificação do ensino, na sequência do 25 de abril. No princípio da década de 80, o ensino foi alargado e não havia professores com formação suficientes.”
Hoje acha surpreendente ter começado a dar aulas tão cedo. Contudo, na altura, nunca pensou que não fosse capaz. “Agora, quando olho para trás, acho absolutamente espantoso ter começado a dar aulas aos 19 anos, até porque, nessa altura, tinha a idade de alguns dos meus alunos hoje. Mas, como as coisas se precipitaram, por razões económicas e familiares, eu achei que tinha de ir trabalhar e isso aconteceu com alguma naturalidade. É evidente que me lembro de que tinha medo, porque era uma situação nova.” O medo que sentia prendia-se com o facto de achar que podia não estar à altura do ponto de vista científico. “Não me lembro de ter sentido nenhum tipo de receio, no sentido de pensar que não ia conseguir exercer aquelas funções ou de não ser capaz de praticar o exercício da autoridade, que está inerente à profissão de professor. O meu medo maior, lembro-me disso, tinha que ver com o medo de não estar à altura do ponto de vista científico, que é uma coisa que ainda hoje se mantém. Isso levou-me sempre, ao longo da minha vida, a gostar de estudar e procurar formação. Sempre porque acho que preciso de mais, do ponto de vista científico. Por isso, na altura, concentrava todas as minhas capacidades na preparação das aulas. Não ter uma formação académica completa tornava-me insegura desse ponto de vista. Não por ser muito nova, mas porque tinha medo de não saber. É o receio que me lembro de ter, só esse.”
Dulce Martinho explica que tem uma necessidade constante de estudar e que sempre foi assim ao longo da sua vida. “Tenho a noção, cada vez mais clara, de que o mundo muda tão depressa que a ciência, seja ela qual for, também está sempre a mudar e que, por isso, a formação inicial que uma pessoa faz, por si só, não serve. Todos os dias deixa de servir. Por isso, sempre procurei estudar. Acho que o facto de, desde muito cedo, ter sido estudante e trabalhadora, me deu uma noção de gestão do tempo diferente. Acho que preciso sempre de ter coisas para fazer. Se tenho muitas coisas para fazer, muitas vezes dou comigo a queixar-me, mas, por outro lado, preciso, de facto, de ter coisas para fazer. Como o trabalho é sempre o mesmo, é ser professora, volta e meia, preciso de ir estudar mais um bocadinho, sempre na área das Línguas e Literaturas, mas sempre alguma coisa diferente.” Exatamente por isso, quando acabou a licenciatura, descansou um ou dois anos e rapidamente teve a necessidade de procurar outras coisas. Fez alguns cursos de línguas, como inglês e italiano, mas não cursos superiores. Ao longo do seu percurso houve também a necessidade de fazer formação pedagógica, essencial para se ser professor e se fazer carreira no ensino, como era seu objetivo.
Quando atingiu o objetivo de se tornar professora de carreira, decidiu que queria voltar a estudar. “Por altura do ano 2000, fui fazer o curso de Comunicação Social. Não acabei. Não fiz as cadeiras finais práticas que, na altura, naquele curso, se chamavam ateliers de televisão e de radiofonia. De facto, nunca quis ser jornalista. Não fui fazer Comunicação Social porque quisesse ser jornalista. Mais uma vez, foi por um motivo prático e um motivo afetivo. Por um motivo prático, porque era relativamente próximo do sítio onde moro. Por um motivo afetivo, porque fui ver o plano curricular do curso e agradou-me. Era suficentemente abrangente para me atualizar, dando-me respostas a vários níveis que já tinham feito parte da minha formação inicial, e também porque me permitia conhecer áreas novas de que gosto, como o Jornalismo, a História Contemporânea, as Línguas, a Comunicação (em vários âmbitos, como Marketing, Publicidade, etc). Tudo tem a ver com Comunicação, que é uma coisa de que eu gosto. Foi por isso que escolhi Comunicação Social.”
A sua entrada no curso de Comunicação Social aconteceu em pleno ano 2000 e, portanto, no boom dos computadores, da informática e das novas tecnologias. Isso fê-la perceber que não pertencia àquele mundo, mas estabeleceu um desafio para si mesma. “Foram aí os meus primeiros contactos com esse mundo da informática. Na altura estabeleci um desafio a mim própria: só abandonava o curso quando fizesse as cadeiras de informática que faziam parte do currículo. Portanto, com algumas lágrimas, acabei por as fazer. Claro que estas cadeiras que fiz nesse curso hoje devem estar completamente desatualizadas.”
Dulce Martinho entrou no curso de Comunicação Social já tinha trinta e muitos anos. “Era uma quase quarentona ao lado de jovens de 18 anos, prova disso era que na minha turma tinha um colega que tinha sido meu aluno.” Os professores manifestavam a sua estranheza e sugeriam que, em vez de estar a fazer outra licenciatura, fosse fazer um mestrado, mas Dulce Martinho nunca tinha pensado nisso. “Não tinha pensado em ir estudar para ter outro grau académico. Ia estudar porque me apetecia estudar.”
Depois de tantas vezes lhe terem sugerido que fosse fazer um mestrado, começou realmente a pensar nisso e decidiu que ia inscrever-se. “O meu percurso é feito de pequeninas coincidências. Houve um dia, em junho de 2005, em que não tinha trabalho na escola. Curiosamente era o dia do meu aniversário, 24 de junho. Decidi ir à Universidade de Aveiro inteirar-me dos cursos que havia. A senhora que me atendeu disse-me que as inscrições acabavam no dia 30 de junho, ou seja, passado uma semana. Portanto, se queria começar no ano seguinte tinha que me inscrever naquele prazo.”
Das várias opções disponíveis, Dulce Martinho candidatou-se a três mestrados: Estudos Franceses, Estudos Portugueses e Comunicação em Ciência, porque “lá está, sempre fui fascinada pela Comunicação.” Entrou em Estudos Franceses e Comunicação em Ciência. Não optou pelo segundo, porque percebeu, ao ler o currículo, que a falta de formação inicial na área, podia ser um problema. Inscreveu-se, então, em Estudos Franceses. Contudo, mais uma vez, explica que não o fez por obrigação nem para obter um grau académico. Fê-lo por gosto. “Lembro-me de pensar que se gostasse ficava e se não gostasse não ia mais. Prova disso é que na primeira semana não fui, porque tinha uma viagem marcada. Apareci na segunda semana. Em pouco tempo percebi que gostava muito. Tinha cadeiras como Cultura e Civilizações, Literaturas de Expressão Francesa e Hermenêuticas Culturais.” Ao longo das aulas, surgiu uma empatia com a professora que viria a ser a sua orientadora. Essa professora é uma das grandes especialistas nacionais da obra de Eduardo Lourenço. Assim, “acabei a fazer uma tese de Mestrado sobre Eduardo Lourenço. Eu não tinha qualquer formação filosófica. Portanto, conjugando tudo, a minha tese veio a ser sobre o pensamento de Eduardo Lourenço relativamente ao papel - político, cultural... - da França no contexto europeu.”
Quando acabou o Mestrado e a tese - que está publicada e teve até uma distinção no Prémio Jacques Delors em 2010 - foi desafiada a prosseguir para o Doutoramento e foi o que fez. Agora estuda Eduardo Lourenço e Pascal, desta vez, sim, enquanto filósofos. Contudo, este ano decidiu fazer uma pausa. Conta que está cansada intelectualmente. “Quando decidi ir estudar apetecia-me ler livros com um determinado foco. Hoje é o contrário. Apetece-me ler romances, livros diferentes, só porque sim, sem qualquer foco, só à procura de ideias novas.”
Relativamente à profissão, Dulce Martinho explica que não gosta da parte burocrática e administrativa que atualmente ocupa uma grande parte da vida dos professores. “Continuo a gostar muito de ser professora, mas a profissão está muito diferente. Do que gosto realmente é do contacto com os alunos e do contexto de sala de aula. Há um lado de transmissão na educação de que gosto muito. George Steiner tem um livro que se chama “O elogio da transmissão” que diz exatamente isso, que na educação escolar há uma transmissão alegre e responsável, que é o âmago da profissão docente. Eu concordo. Acho que me cabe a mim, que sou mais velha e investi na minha formação, transmitir algum do meu saber aos meus alunos, para que depois eles se desenvolvam através do cruzamento dos diferentes saberes que lhes foram transmitidos.”
“Se olhar para trás, não me vejo a poder escolher outra profissão.” Contudo, olhando para o futuro, confidencia que agora já se via a deixar de ser professora, por cansaço e porque acha que a profissão está muito diferente. “Se me perguntassem o que é que profissionalmente me via a fazer no futuro, acho que o que gostava mesmo era de ficar em casa, a trabalhar ao meu ritmo, na área da Tradução, porque, de facto, gosto cada vez mais de Línguas. Gosto cada vez mais de as comparar umas com as outras. Gosto cada vez mais do universo das palavras.” Confessa que pensa nisso também porque gosta também cada vez mais de trabalhar sozinha. “Pode ser um defeito, mas tenho dificuldade em trabalhar em grupo, talvez pelo percurso. Muito cedo me habituei a estudar sozinha.” Apesar de agora não se importar de deixar de ser professora e de passar a trabalhar na área da Tradução, refere que não se sente arrependida da profissão que escolheu, de modo nenhum.
Não se via envolvida em mais nenhum mundo que não o das letras, das palavras e das línguas. “Costumo dizer que não sei fazer mais nada. Há pessoas que são polivalentes e ecléticas. São professores/as, mas podiam ser gestores e ter uma empresa própria. Há outras que têm imenso jeito para pintar ou para a música. Eu não. Portanto, ainda bem que sou professora, porque se não fosse, também não sei o que poderia ter sido.” Além de ser professora, gosta de cozinhar e de fazer atividades domésticas, porque considera que são muito relaxantes e que permitem estar a trabalhar intelectualmente ao mesmo tempo. Diz, a rir, que já teve grandes ideias enquanto cozinhava ou aspirava a casa.
No futuro gostava de acabar o curso de italiano, no qual fez seis níveis em nove. Gostava ainda de estudar alemão, grego e latim. Gostava de fazer formação na área da Tradução, porque tudo o que sabe é empírico, e também de fazer um curso na área da Hotelaria e Restauração. Por fim, refere que “gostava que os alunos se lembrassem de mim e que os marcasse, como alguns professores me marcaram. Gosto quando eles me dizem que aprenderam alguma coisa comigo, nem que seja o significado de palavras ou expressões. Fico feliz quando isso acontece e essa é a minha máxima realização.”