Keil, o músico que não quer ser arquiteto
Durante três meses, todas as semanas entrou em casa de muitas famílias portuguesas, com a participação no programa de talentos da SIC FatorX. Hoje, à semelhança de muitos outros artistas, luta pela afirmação e pelo reconhecimento do seu trabalho num país que nem sempre valoriza as artes performativas e os artistas nacionais. Filipe Keil não desiste e acredita que há um lugar para si na música em Portugal.
1 mai 2015, 21:52
/ Emanuel Monteiro
5 FOTOS: Filipe Keil
Tiago Filipe Pinheiro Batista: Filipe Keil, o músico, Tiago Batista, o amigo. «É uma distinção entre as duas partes da minha vida. A minha imagem pessoal é diferente da que quero passar enquanto artista, daí a necessidade de criar um heterónimo, uma nova imagem. Acaba por ser uma vida para mim e uma vida para os meus sonhos».
Uma imagem e um nome para a vida dos sonhos que não foram escolhidos ao acaso. Filipe, por ser o segundo nome, Keil pela influência de Alfredo Keil e Maria Keil. O primeiro, compositor do hino nacional e a segunda, pintora e ilustradora modernista. Já a imagem de Filipe é inspirada nos estilos vintage nórdicos e convida à introspeção e ao revivalismo dos anos cinquenta e sessenta.
«O Tiago sou eu com os meus amigos e com a minha vida normal e o Keil é o universo que eu gostava muito de construir e de partilhar com os portugueses», reforça o músico com um entusiasmo que lhe salta das expressões do rosto.
«Para mim a arquitetura é a representação visual da música»
Natural de Chaves, Filipe lembra-se de gostar de música desde muito cedo. Tanto que aprendeu a tocar piano sozinho e com apenas 15 anos compôs uma música que lhe valeu a participação no Festival RTP da Canção.
Ainda assim, hoje, ocupa-se a tempo inteiro com o curso de Arquitetura, mas não se considera arquiteto. «Foi um plano B para conhecer um outro universo que possa ser uma mais-valia para a minha formação musical. Não quero estar fechado num só mundo. E é incrível, porque a arquitetura e a música são áreas com muitas e interessantes semelhanças. Para mim a arquitetura é a representação visual da música». Representação visual que vai precisamente ser o tema da dissertação de mestrado do músico que estuda arquitetura.
Facilmente se percebe que a música é a vida de Keil, ou a «extensão da vida», como prefere chamar-lhe. Em todos os momentos mortos da entrevista o jovem aproveitou para trautear umas músicas, de estilos tão diferentes como o clássico, o blues e o POP. «Eu canto em todo o lado, aliás, quase todo. Na maior parte das vezes nem me apercebo. Sinto uma necessidade constante de comunicar através da música».
«O FatorX será sempre uma mais-valia na minha carreira»
Foi a necessidade de comunicar através da música que o levou a tentar a sorte num programa de televisão. Em 2013, com 22 anos, participou no FatorX, onde foi selecionado como membro de uma das bandas a concurso, os Yeah!Land. Filipe não esconde o sorriso e a expressão nostálgica quando fala nos três meses mais «intensos» da sua vida. «É tão interessante percebermos que aquilo que fazemos tem algum reconhecimento. É um formato que projeta as nossas qualidades e é uma ferramenta ótima para nos impulsionar. Foi uma surpresa perceber que ia na rua e que havia pessoas que me abordavam e que se interessavam pelo meu trabalho».
Depois da participação no programa, o cenário foi-se alterando. A projeção e o reconhecimento do trabalho musical passaram a ser mais difíceis e a exigir maior esforço por parte de Filipe. O músico confessa que é inevitável o choque no processo de decadência do reconhecimento público, mas garante que estava consciente de que isso iria acontecer: «Eu já sabia para o que ia e também sabia as consequências. Projeções muito rápidas acabam sempre muito rápido. É aquela lógica de fast food artístico. Não vou dizer que foi fácil, mas aquilo que eu queria era cantar e mostrar o meu portefólio».
Experiência «intensa» que ainda custou a Filipe um ano de faculdade. Uma aventura que não voltaria a repetir, mas que da qual não se arrepende. «Aconteceu na altura certa e além disso o FatorX será sempre uma mais-valia na minha carreira».
«Há um lugar para mim e para toda a gente que tenha vontade, talento e sobretudo conteúdo»
Agora, sem o apoio de marcas ou de formatos internacionais, Keil segue um trajeto a solo. Um percurso que muitas vezes faz o músico sentir na pele a dificuldade de afirmação e de reconhecimento em Portugal. Uma realidade que Filipe associa à organização do mercado: «No estrangeiro, quando existe uma oportunidade para um artista, há sempre um impulso económico. A indústria musical aposta na qualidade. Em Portugal é diferente. Não existe tanto investimento por parte das editoras, que acabam por jogar à defensiva. Os artistas portugueses, maioritariamente, só conseguem uma projeção razoável com um certa idade. Tiveram de lutar e trabalhar durante muito tempo para conseguir chegar aonde estão».
Filipe serve-se do exemplo de Gisela João, uma artista que começou a cantar aos 16 anos e que só aos trinta conseguiu ser reconhecida e valorizada pela generalidade dos portugueses enquanto fadista.
A afirmação tardia dos artistas em Portugal é agravada pela profunda alteração do modelo de negócio da música, que vê a pirataria arruinar o trabalho das editoras e a forma de ganhar dinheiro dos músicos. Filipe Keil defende que não é o «fim». Para o músico, o futuro do negócio passa sobretudo pela performance, pela arte visual e pelo espetáculo ao vivo. «O artista tem de se adaptar e de utilizar uma nova linguagem. Uma linguagem performativa que seduza e que convença as pessoas a ir assistir aos espetáculos».
Um cenário pouco animador que, mesmo assim, não entristece Filipe: «o que é importante é saber jogar com as circunstâncias em que vivemos. Se o povo manda trabalhar, vamos para a frente, sempre a trabalhar».
Por isso, o jovem de 24 anos acredita que existe um lugar para Filipe Keil na música portuguesa: «Há um lugar para mim como existe lugar para toda a gente que tenha vontade, talento e sobretudo conteúdo, o ingrediente que confere longevidade aos artistas e aos seus trabalhos».
«As notícias são uma desilusão constante. Sinto-me mais protegido atrás do microfone do piano»
Conteúdo que Filipe garante tentar sempre colocar nas músicas que compõe, desde muito cedo. Exemplo disso foi o tema que escreveu aos 15 anos, no qual apelava a um mundo melhor, mais justo e menos desigual. «Foi a melhor forma de imprimir conteúdo à minha música. Poderia escrever alguma coisa sobre o amor, mas na altura não significava nada para mim. Já as atrocidades, as desigualdades, as lutas e as guerras que via na televisão diziam-me respeito, tocavam-me. E eu pensava: por que é que as coisas são assim? Queria realmente ver um mundo diferente. Na altura era bastante mais ingénuo. Entretanto, deixei de acreditar no tal mundo melhor».
Um mundo diferente que não se concretizou para Tiago Batista e que leva o Filipe Keil de hoje a criar um mundo próprio e a alhear-se de determinadas realidades. «As notícias são uma desilusão constante e retratam cenários cada vez mais duros. O nosso país está cheio de notícias negativas e isso só nos traz mais carga depressiva. Nessas alturas sinto-me mais protegido e confortável atrás do microfone e do piano».
«Tenho medo da morte (...) por não conseguir ter feito tudo aquilo que tinha planeado fazer»
Defesa de artista que não significa que Filipe não esteja atento à sociedade civil, até porque a principal fonte de inspiração para as músicas que compõe é aquilo que observa no dia a dia. «É aquilo que eu vejo que me inspira. Eu observo as coisas, organizo-as, reflito sobre elas e só depois é que as passo para o papel. Por isso é que consigo escrever letras em dez minutos. Mas o processo de observação e de reflexão pode estender-se durante várias semanas».
Um processo criativo a partir do qual Filipe quer construir a sua obra e deixar uma marca na sociedade e no mundo. «Quero tornar-me um modelo e uma influência para as pessoas. Um modelo artístico, pessoal e interventivo.» Modelos que o músico garante serem fundamentais para alcançar o tal mundo menos desigual que idealizou em criança. «Um dia gostava de ser lembrado como aquela pessoa que contribuiu para que houvesse uma mudança social, cultural ou de mentalidade».
Mudanças de um dia que Filipe tem medo de não concretizar. A expressão facial, mais rígida e contraída, reflete esse receio. «É por isso que tenho medo da morte. Não por ser o fim, mas por não conseguir ter feito tudo aquilo que tinha planeado fazer».