Emigração, o ingrediente secreto
Sérgio e Ana mostram que a receita para a felicidade está nas decisões sustentadas pelo amor
1 mai 2015, 21:12
/ Tiago Filipe Silva
«Foi a decisão mais difícil das nossas vidas, mas até à data tem sido positiva. Não nos arrependemos do que fizemos. Estamos numa cidade fantástica, com muita diversidade cultural, e fazemos aquilo de que gostamos, para além de sermos bem pagos por isso». É até com uma enorme gargalhada que Sérgio lembra o seu primeiro dia de trabalho.
«Em Inglaterra não existe o termo cozinheiro, é chef. Em Portugal, um chef é o topo da hierarquia. Pensei cá para mim, ainda agora cheguei e já fui promovido».
Lua-de-mel adiada
A oportunidade surgiu depois de vários meses de procura. Acabou por aparecer, mas não em Portugal. Em busca de um sonho largaram família, amigos, até a lua-de-mel ficou por gozar. Na altura outros valores falaram mais alto. O dinheiro não foi determinante para Sérgio, foi antes «a paixão pela hotelaria e pela cozinha» que o levou a terras de sua majestade. Já Ana deixa escapar um sorriso comprometedor para o companheiro quando admite que a mudança se deveu a fatores económicos.
«Em Portugal, o cargo que ocupo não é muito bem remunerado, então a ida para Londres foi vantajosa».
A decisão, segundo o casal, foi preparada com algum tempo de antecedência, no entanto implicou muitos sacrifícios, sobretudo na fase de adaptação.
«A nossa principal dificuldade foi a língua, por incrível que possa parecer. Uma coisa é estar a ouvir nos filmes, outra coisa é ver as pessoas a falar no seu dia-a-dia e sem legendas. E o clima é horrível».
Entre marido e mulher não se mete a colher
Na falta de legendas, encontraram um no outro o apoio necessário para fazer face às adversidades.
«Quando estamos mais em baixo, sabemos sempre que do outro lado da porta [que liga a cozinha ao bar] estamos lá um para o outro». Um beijo sela aquilo que pode ser visto como uma declaração de amor. Mas nem sempre as coisas funcionam em clima de romance.
Trabalhar no mesmo local tem as suas vicissitudes, e o casal não as esconde.
«O Sérgio gosta de ser mandão (risos) devido ao cargo que ocupa, e já discuti com ele várias vezes em casa por causa disso. Evitamos falar de coisas pessoais no trabalho e vice-versa, mas nem sempre conseguimos. Só nos temos um ao outro e é natural que queiramos desabafar por vezes».
O tempo é algo precioso para os dois. Tentam aproveitar ao máximo as horas vagas. Quando não estão a passear pela cidade, ficam em casa a ver filmes ou a matar saudades das famílias através da internet. As redes sociais têm um sabor agridoce, aproxima as pessoas mas belisca a saudade.
«Quando emigramos sabemos o que vai acontecer, no entanto sentimos falta de muita coisa, sobretudo daquelas que só damos valor quando não as temos. Até do sol, nunca pensei sentir falta do sol. Como os ingleses dizem, é uma “ life-changing experience”».
See you soon, Portugal!
Embora sintam saudades do que em Portugal ficou, mais Ana (que não esconde a emoção) do que Sérgio, o regresso a terras lusas não está em cima da mesa.
«Não gostamos de pensar no amanhã, preferimos focar-nos naquilo que temos hoje e pelo qual lutámos muito. Tudo depende do que a vida nos reserve daqui para a frente. Se entretanto surgir uma boa proposta para regressar, não teremos problemas em fazê-lo. A única certeza que temos é que, tal como a primeira, essa será uma decisão a dois».
O futuro próximo passa então por Londres, cidade à qual já chamam de casa e que à mesa, face ao caos habitual, definem como um veloz “cheeseburger”. Sérgio e Ana, tal como tantos outros portugueses que seguiram o mesmo caminho nos últimos anos, assumiram o risco de consciência tranquila, enfrentaram o medo do desconhecido e libertaram-se de todos os outros receios. Foram em busca da receita com que se fazem os sonhos, não os que se comem no Natal, os outros, os que alimentam a vida.
Porque a vida é feita de experiências, e esta terá com certeza um sabor especial.