http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/madrid/geracao-erasmus

Geração Erasmus

Foi assim que Umberto Eco a apelidou e garante que são os primeiros cidadãos verdadeiramente europeus, todos nasceram em países diferentes, falam línguas diferentes mas todos tem em comum uma historia que começou no dia em que entraram no avião.

11 dez 2016, 17:49 Joana Pimentel
Geração Erasmus

Muitos são os estudantes do ensino superior português que optam por realizar Erasmus é considerada hoje um dos fenómenos mais importantes a nível mundial, que movimentou só em 2012, quatro milhões de jovens migrantes, segundo dados da UNESCO, citados pelo sociólogo irlandês David Cairns, especialista em mobilidade juvenil a trabalhar no ISCTE.

 

A mobilidade beneficia tanto os jovens como os países, afirmou o sociólogo, que fez a distinção entre a fuga e a circulação de cérebros. A fuga, afirmou, pode criar problemas para os países, na medida em que os mais talentosos vão embora. Já quanto à circulação - os jovens que saem e depois regressam - são um aspeto positivo e vantajoso, mas a sua gestão constitui um verdadeiro desafio para os governos nacionais.

 

Para David Cairns, a mobilidade é importante para contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional, do ponto de vista das sociedades é igualmente fundamental porque permite o desenvolvimento económico (se houver a capacidade de atrair talentos com altas qualificações), ao mesmo tempo que ajuda a torná-las mais tolerantes e diversas.

 

A jornalista Joana Pimentel esteve a conversa com Carolina Brás, um exemplo dessa mobilidade, tem 22 anos, é lisboeta e filha única. Atualmente frequenta a pós-graduação de jornalismo do ISCTE. Decidiu partir na aventura de realizar Erasmus e conta como foi a sua experiência e de como cresceu.

 

Como surgiu a aventura?

A oportunidade da minha aventura surgiu quando estava a frequentar a licenciatura em Economia, no ISCTE. E na minha licenciatura fazer Erasmus é muito importante, muito mesmo. Na altura estava muito focada naquilo que as empresas queriam, tinha muitas conferências sobre a importância de fazer Erasmus, a experiência internacional com que ficávamos e a importância dela. 

Comecei a pensar e sempre adorei espanhol, o povo e os seus hábitos. Eu não queria ir muito longe porque nunca tive como objetivo principal fazer Erasmus. Por isso, não queria ir para muito longe e pensei que se conseguisse juntar o meu gosto pelos nossos hermanos com a experiência de fazer Erasmus, para mim era mais fácil. 

                 

O que aconteceu depois?

 Depois fui ao gabinete de Relações Internacionais e disseram-me que existia a possibilidade de fazer Erasmus em Madrid e Sevilha, no entanto, tinha a ideia de Barcelona, mas não existiam equivalências. Escolhi Madrid por ser a Capital e depois foi esperar pelos resultados. 

 

              Como é que soubeste o resultado?

 

 Estava no metro com uma amiga a caminho de um concerto, quando saíram as listas dos resultados e eu estava super nervosa. Por um lado, queria que fosse positiva a resposta por outro se não entrasse não era mau. 

Não era o facto de ir sozinha, era não gostar do meu curso e fazê-lo lá fora. Abri a lista e vi o meu nome e a seguir estava que tinha sido aceite em Madrid.  

O meu primeiro pensamento foi “E agora?”. A minha amiga ficou feliz e eu também, mas ao mesmo tempo nervosa porque ia deixar quem mais gostava e depois tinha o problema de nunca ter “saído debaixo da saia dos pais”, por isso sentia felicidade e medo. O facto de ser filha única e até aos 11 anos ser a única criança na família fez com que tivesse mais impacto este resultado.

O Erasmus foi de Setembro até ao final de Janeiro. 

                  O que é que tu e os teus pais sentiram?

 

Ao início foi complicado porque eu nunca tinha saído de casa.

Complicado para eles porque nunca me viram longe. Complicado para mim porque não sabia o que era estar longe.

Eu também estava nervosa porque não fazia ideia do que iria ser. Eles não sabiam como eu iria reagir.

Tinham aquela proteção de pais galinha que, com 21 anos, não se justifica. 

Para a minha família foi um misto. A minha avó não queria, não gostava da ideia nem entendia porque tinha que ir para "tão longe", o resto dizia que eu fazia bem e que me ia fazer muito bem.

 

Chegada a Madrid?

Os meus pais quiseram-me levar, porque eu precisava de algum espaço para levar os meus casacos porque em Madrid faz mais frio que em Lisboa.

 

Decidimos ir os três, passar uma noite em minha casa e depois foram embora. Eles despediram-se de mim, com as suas malinhas, a minha mãe a chorar e assim que fecharam a porta pensei “agora a aventura vai começar”. Passados cinco minutos, começou a minha choradeira, até irem embora estava tranquila e a tranquilizava-os. 

 

Como foi a procura de casa? 

 

Encontrar casa foi muito fácil. Na altura em que a faculdade de Madrid me deu o “ok”.  O tempo entre ser aprovada e o “ok” da faculdade demora 3 meses. Soube que a faculdade deu a confirmação em Julho e tinha de ter casa em Setembro. Fui dando uma vista de olhos nas residências já estavam todas ocupadas. 

                  E depois o que aconteceu? 

 

Eu fui ver residências mais pelos meus pais, do que por mim. Eu queria ficar sozinha e deparei-me com os estúdios que são como cá, quarto, casa de banho e cozinha e existiam imensos. No final acabei por ficar num estúdio. 

Foi mais difícil encontrar nas condições que eu queria, do que a casa propriamente em si.

 

Levaste algumas coisas de casa? 

 

Sim, levei objetos que me fizessem sentir mais em casa, como por exemplo fotografias, peluches e até os panos da cozinha. Quando os meus pais me mandaram mensagem a dizer que já estavam em Lisboa, tive a plena consciência que estava por minha conta em risco. 

Coloquei-me na cama e pensei que ia ser a primeira noite de muitas que ia passar sozinha e no dia seguinte lá fui a minha nova vida.

 

Pensaste em voltar?

 

Pensei em voltar. Foi mais ou menos a meio do semestre, eu tive de trocar uma unidade curricular e noutra  que ia frequentar já tinham feito uma avaliação e pensei que não valia a pena porque estava a perder tempo. Nunca verbalizei este sentimento com ninguém do ISCTE, mas disse aos meus pais e amigos. 

 

Eu nunca disse ao ISCTE porque nunca tinha tido apoio, se eu dissesse que queria desistir era absolutamente ignorada. Mas passado um ou dois dias percebi que aquilo era bom para mim, que estava a gostar, senti que estava a crescer. 

 

O que foi mais difícil?

 

Vou começar por dizer o que foi fácil, a língua. As pessoas que conheci foram muito acessíveis, tive uma rapariga francesa que me ajudou imenso e que passei a ter um carinho especial por ela. 

O mais difícil foi estar longe. O facto de viver sozinha, não foi difícil, o que era difícil por exemplo era ter uma pilha de roupa para lavar e se não pegar nela a minha mãe não a vai por a lavar. Foi difícil estar longe das pessoas que eu gosto, porque tenho uma grande ligação com a minha família e com os amigos e na altura tinha namorado e por isso foi difícil. 

No entanto, grande parte dos meus amigos iam-me visitar, de duas em duas semanas tinha alguém a visitar-me o que era muito bom. 

 

Apoio por parte do ISCTE?

 

Não tive muito apoio por parte do ISCTE. Porque primeiro cheguei lá e a lista de unidades curriculares levadas daqui e em Madrid tiveram de ser alteradas. Tinha que ter as aulas imediatamente se não ia perder aulas, e a pessoa responsável pelo Erasmus demorava uma a duas semanas a responder ou respondia-me do género “desenrasca-te”. 

Esse acompanhamento sim, fazia de forma diferente.

 O ISCTE manda-te de Erasmus, e depois no final do ano usam os números para valorizar a imagem deles , mas no fundo não te ajudam. 

                  Apoio financeiro? 

De Setembro a Janeiro, o ISCTE pagou-me mil euros, ou seja, nada. 

Eu sei de casos de pessoas que não foram de Erasmus, por causa de questões monetárias. O apoio financeiro é mau, mas à partida já sabes disso.

Para mim onde o ISCTE falha mais, não é no apoio financeiro, mas sim na ajuda. Tens de te desenrascar, tu chegas ao pé do professor e perguntas que unidades curriculares é que tem equivalência e ele responde que não sabe e que não vai fazer o trabalho por ti. 

Eu não fazia a mínima ideia dos planos curriculares, das unidades curriculares. Estive dois meses a escolher unidades curriculares, para chegar ao GRI (gabinete de relações internacionais) e o professor volta a dizer que não pode ser aquela, no entanto, nunca me dá sugestões. As sugestões de unidades curriculares eu não fazia ideia do que tinha de fazer e o que mais me incomoda é o facto de saber que não sou a primeira aluna a ir de Erasmus para Madrid, se fosse a primeira percebia. 

                  Retiraste algo positivo?

No meio disto tudo sim existiu uma coisa positiva - que foi a equivalência numa unidade curricular, em que fiz o exame em Portugal em Espanha e depois o gabinete de relações internacionais optou por escolher a nota onde tive uma melhor prestação, a nota do exame em Portugal, nisso foram muito acessíveis. 

Na fase final não tenho nada a apontar, mas durante o Erasmus senti a falta de apoio.

              

O que mais gostaste?  

Da experiência de viver sozinha, sem dúvida alguma. 

 

O que menos gostaste?

 

Foi a parte académica. Como já referi não tive apoio nenhum do ISCTE. Fui para uma faculdade católica, as coisas eram completamente diferentes. O ISCTE não entrava em contacto comigo, portanto sobre as avaliações não fazia ideia de como iria ser o processo de avaliações. Perguntava aos professores como é que eram as avaliações lá porque eu não sabia. 

Lembras-te de algum exemplo? 

 

Por exemplo no ISCTE tens uma avaliação a meio do semestre e uma no final, e se chumbares na avaliação final passado duas semanas tens outra. E eu em Madrid pensei que seria assim, algumas unidades curriculares optavam por fazer continuamente e algumas só na avaliação final. Por isso, se chumbasse em Madrid não tinha opção e isso foi muito mau. 

Eu fiz lá os exames todos e vim a Portugal fazer três exames, sem estudar quase nada. Quando fazia pausa no estudo das unidades curriculares de Madrid, estudava para as unidades curriculares portuguesas porque não queria correr o risco de chumbar. E sabia que em Espanha era muito possível chumbar.

 Primeiro, porque a avaliação não era igual e segundo porque davam muita importância a forma como justificavas as coisas e eu não sendo espanhola não explicava da mesma forma e os professores ignoravam, era como se fosse espanhola. 

Passei às unidades curriculares de Portugal e de Madrid.

 

Hoje ainda consideras uma aventura?

 

Foi uma aventura. Não como a maior parte dos Erasmus que aproveitam mais a vida noturna. 

Considero que a minha aventura foi uma experiência. Faria tudo novamente, mas de forma diferente. A minha história é diferente porque fui sozinha, para uma Universidade completamente sozinha, não havia portugueses na Universidade nem no meu curso. 

Fiz um curso intensivo de Espanhol em Julho e em Setembro estava num avião para Madrid, fui com o curso fresquinho e dediquei-me muito aos estudos e pouco à parte social, se me arrependo? Nada.

 Mudaria o facto de não ter tentado ao máximo conhecer pessoas, pois por muito que tenha estudado, acho que não compensou. Apostava mais na parte internacional da experiência, da vida internacional. 

Viveria sozinha outra vez, porque acho que foi ótimo para o meu crescimento. 

ADOREI, ADOREI. 

 

Conselho para um estudante de Erasmus?

 

Para se divertirem ao máximo, aproveitar tudo, não só a parte de sair à noite e das festas. Aproveitar o crescimento pessoal que a experiência traz, aproveitar as amizades que se constroem. Partilhem experiências, mas estudem muito. 

 

Momento mais marcante?

 

Mais marcante pela positiva foi o dia em que conheci a rapariga francesa, porque estava completamente sozinha à porta dos serviços académicos e ela veio falar comigo. Perguntou se era de economia, ela também era e nesse dia fomos almoçar juntas e a partir dai criou-se uma amizade.

Quando saí á noite uma vez e fiquei até mais tarde dormi em casa dela. Ou seja, ela foi a minha companheira de Erasmus. 

                  Pela negativa? 

 

Pela negativa, foi no dia em que me disseram que metade das minhas unidades curriculares que estavam previstas no meu “contrato” entre o ISCTE e a Universidade Espanhola não existiam ou não tinham aberto.Senti-me um pouco perdida e sem saber o que fazer, porque parecia que não estava lá a fazer nada. 

 

Desejo inicial?

 

Fui convencida que ia aumentar a minha média, convencida que ia ser brutal, que ia conhecer muitos sítios. Saí daqui com o desejo de fazer algo direcionado para os alunos de Erasmus, no entanto, não aconteceu. 

Queria crescer, não ter a ajuda de ninguém.  

No final senti que realizei o meu desejo, embora a média não tenha aumentado o desejo de crescer foi muito bem-sucedido. 

 

Vês-te a emigrar? 

 

Sim, sem dúvida alguma. Só me vejo a trabalhar em Portugal, ou Espanha ou em países de língua espanhola. Adoro Espanha. 

 Percebi que quem está mesmo ao teu lado fica, por isso emigrar é opção. Se conseguir ficar em Portugal fico, não é imperativo sair.

                 

Crescimento pessoal?

 

                  Desde a experiência de Erasmus que sinto mais independente. Eu era muito dependente dos meus pais. Por exemplo, tinha alguma dúvida ligava aos meus pais. Tinha o meu espaço, mas sabia que tinha sempre os meus pais por perto, ia sair à noite ligava “mãe, pai, venham-me buscar”. Depois de Erasmus, sinto que estou mais independente, por exemplo quando precisava de alguma coisa ligava à minha mãe, quando precisava de alguma dica culinária ligava, hoje em dia vejo na Internet. 

                  A melhor coisa que a experiência de Erasmus me deu foi ser capaz de dizer aos meus pais que quando acabasse o curso não ia seguir mais nada relacionado com Economia. A partir daqui vou fazer algo relacionado com comunicação, não consigo mais estudar aquilo que não gosto. 

                  Sinto que estou mais forte, no sentido em que se os meus pais não concordarem que devo fazer uma coisa, vou fazer á mesma porque é o que quero. Antes de Erasmus era impensável, ficava mais presa aos meus pais. 

                  Aprendi a dar muito mais valor à família, amigos, pois quando não tens por perto é que sentes realmente a sua importância. Hoje em dia sou mais aventureira, mais proactiva em relação aquilo que quero. 

                  Defino o meu Erasmus como “experiência” e “crescimento”, crescia desta forma as vezes que fossem precisas e que quisessem. 

                  O Erasmus foi o meu empurrão. Antes de eu ir de Erasmus os meus pais eram uma coisa e agora são outra, eu cresci os meus pais cresceram e a nossa relação cresceu. 

                  A minha forma de olhar para a vida mudou.