É mãe, avó e pedopsiquiatra
Tem 65 anos e faz parte da primeira geração do curso de pedopsiquiatria em Portugal.
A seguir medicina desde 1968 sempre teve curiosidade no estudo e tratamento da mente dos adolescentes.
Considera-se uma pessoa feliz e está a poucos meses da reforma, mas nem assim pensa deixar de trabalhar.
Atualmente exerce a profissão em Évora e pelas mãos já lhe passaram todo o tipo patologias que podemos imaginar. Com uma bagagem profissional enorme, esta é uma entrevista realizada à Dra. Fernanda Barros.
O que leva uma jovem de vinte anos a escolher ser médica?
A curiosidade acerca dos outros, o querer saber mais sobre as outras pessoas. Sempre me interessou saber como é que as pessoas se relacionavam, como viviam. No fundo é a preocupação com a vida das pessoas e tentar resolver os seus problemas. As pessoas quando vêm ao médico, nomeadamente à minha especialidade, vêm à procura de soluções. Acho que foi isso que me fez querer ser médica.
Fernanda Barros durante a sua juventude.
Porque escolheu ser pedopsiquiatra?
Sempre tive um grande interesse no ser adolescente. A adolescência sempre foi uma área que me fascinou. Perceber como é que os adolescentes são, como é que vivem, que projetos têm, o que pensam fazer com a sua vida…
A pedopsiquiatria é muito mais do que tratar uma criança ou um jovem. No fundo, é compreender uma dinâmica familiar. Na maioria das vezes, uma criança é o reflexo do funcionamento de uma família. A criança nunca pode ser vista isoladamente, é o reflexo de como as dinâmicas a nível familiar, escolar e social funcionam.
Como foi o percurso até lá chegar?
Foi um percurso de muito trabalho. Entrei para a faculdade em 1968, tirei o meu curso de 6 anos e tive 3 anos de internato médico, o chamado ano comum. Depois entrei para a especialidade, psiquiatria de adultos, na altura ainda não existia a pedopsiquiatria. Eu faço parte do primeiro curso de pedopsiquiatra em Portugal. Portanto, andei anos e anos a fazer internato, só acabei em 1987. Em medicina é preciso atualizarmo-nos permanentemente quer ao nível das novas patologias, quer a nível farmacológico. Por exemplo, no início não havia medicação para crianças e hoje em dia não só já existe, como é eficaz.
Como se conquista a confiança de uma criança com problemas psicológicos?
Não mentindo, dizendo a verdade. As crianças e jovens são inteligentes e percebem mais do que os adultos normalmente julgam. Uma criança percebe sempre se nós estamos a mentir. Há uma questão que eu pergunto sempre “Porque é que estás aqui?”
Habitualmente, quando dizem que não sabem, ou é por timidez ou é porque não querem magoar o pai ou a mãe, denunciando coisas que sabem não ser normais.
Quais são os casos mais problemáticos que já lhe passaram pelas mãos?
Para mim os casos mais difíceis são as perturbações graves do comportamento. Por exemplo, os miúdos que aos 5 anos ameaçam bater, aos 6 anos levantam a mão, aos 8 anos dão um empurrão e aos 14 como já têm força partem para a agressão violenta (física). São miúdos que têm dificuldade em ouvir o não. O não nestas crianças não foi dado na altura certa.
Recusou tratar algum caso clínico?
Não, nunca me recusei. Claro que há casos mais fáceis de resolver que outros, mas nunca recusei.
Há sempre tratamento? Ou há casos mentais sem solução?
A prática mostra que os psicopatas não têm tratamento. É uma situação crónica, os psicopatas continuarão psicopatas. Eu não gosto de tratar psicopatas porque sei que as minhas palavras e a medicação batem num muro. São pessoas que não têm afetos, não têm ressonância afetiva. Não têm culpabilidade, não têm remorsos, não têm noção do bem e do mal.
Houve algum caso onde foi difícil distanciar-se emocionalmente?
Quando se tratam de questões com uma dimensão social, em que nós sabemos que a vida para aquela pessoa foi injusta e que não lhe foi dada oportunidade para ser feliz. Esses são os casos em que é mais difícil criar uma distância afetiva.
Lidar diariamente com os problemas dos outros, fá-la esquecer dos seus?
Não. Primeiro acho que sou uma pessoa feliz, não posso dizer propriamente que tenho problemas. Eu acho que as pessoas que trabalham nesta área têm de fazer pausas regularmente, nem que seja um dia, para descansarem. Como eu às vezes faço. Tiro um dia para pensar em mim, nas minhas coisas. Mas eu sou uma privilegiada, não tenho problemas, portanto, não tenho necessidade de arranjar tempo para pensar em problemas. No máximo tenho o problema de o carro não pegar de manhã. [risos]
Todos temos dias maus, como se lida com uma profissão psicologicamente tão exaustiva, nesses dias?
Nesses dias tento fazer um momento de pausa e valorizar aquilo que a minha vida tem de positivo, que é tudo no fundo. Mas claro que há dias que a pessoa acorda com os pés de fora, como se costuma dizer. Habitualmente, isso acontece-me ao fim do dia quando estou muito cansada. É mais por excesso de cansaço.
Ser mãe aos quarenta fazia parte dos planos? Como foi?
Não fazia parte dos planos mas ser mãe, para mim, é a melhor coisa da minha vida. Os meus filhos são a minha maior riqueza. É um prazer imenso, gostei de ser mãe e gosto de ser mãe. Eles são o meu maior investimento afetivo. Adoro os meus filhos e tenho prazer em estar com eles. Fiquei muito contente por ser uma menina, saiu-me a lutaria. E ela sabe, ainda hoje lhe disse isso. [sorriu]
Os seus dois filhos, João e Sara.
Tem-se mais ou menos paciência com essa idade para educar um filho?
Mais. Em princípio, a idade traz maior tolerância, menos ansiedade perante as pequenas coisas que eles têm, desde as doenças às birras. Por outro lado profissionalmente está-se noutra fase já. Quando o João nasceu estava no princípio da minha carreira, tinha muitos seminários e estava sempre preocupada em gerir o tempo. Com ela essa parte já estava toda resolvida.
O que distingue a Fernanda mulher, da Fernanda pedopsiquiatra?
Não sei… Acho que não existe verdadeiramente diferença porque faço tudo por paixão. Vivo com paixão as coisas que faço na vida, ser mãe, ser amiga, ser avó… Quando faço uma coisa faço sempre com um grande investimento, não consigo fazer as coisas por meias medidas e dedico-me com paixão e entusiasmo às coisas que faço. Tento ser eu própria e acho que é por isso que tenho sucesso na minha profissão. As pessoas percebem que sou autêntica e estou ali com elas, verdadeiramente. Em qualquer profissão é importante a pessoa estar porque gosta e com o mínimo de paixão, se a pessoa não gosta, não faz sacrifícios. É preciso ter o mínimo de paixão para fazer sacrifícios.
Sei que está prestes a reformar-se. Quais são os planos para o futuro?
Os projetos são continuar a trabalhar na minha área, no privado, e no projeto que tenho a nível internacional sobre histórias de vida. Talvez estudar História que sempre me apaixonou, ter tempo para mim… Não fazer nada de vez em quando. [risos] Penso que o melhor de estar reformado é pensar “hoje o dia é meu”. Poder deitar-me tarde por exemplo, é uma coisa que gostaria de fazer e nunca posso por causa do trabalho.
Se pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que mudava?
Não mudava nada. Aliás nem penso muito nisso. A pessoa não pode trazer sempre o passado às costas, não adiante de nada. Em relação a isso tenho um espírito muito prático.