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Longe da vista, mas perto do coração

Matilde e Ana moram em Lisboa, mas não é na capital que se sentem em casa. Têm histórias diferentes, mas ambas estão longe da terra onde sentem que pertencem

18 dez 2016, 19:15 Beatriz Martinho
reportagem

Sempre que é hora de regressar e de fazer as despedidas, Matilde chora. Desta vez foi fim-de-semana prolongado e, na hora de voltar, o sentimento de pertença a esta terra torna-se maior. As lágrimas escorrem-lhe pela cara. Sabe que durante algum tempo não volta. Além de roupa, na mala leva as memórias, as saudades e a vontade de voltar rapidamente.

 

Entrega a mala ao pai, que a coloca no carro. Depois de terem tudo arrumado partem rumo a Lisboa. Esta é a parte mais difícil para Matilde: a despedida. Abraça os avós, os tios e os primos e entra rápido no carro, tentando que custe menos. A viagem começa. Matilde olha pela janela e vê a serra a ficar cada vez mais longe.

 

Ao mesmo tempo, Ana também se prepara para regressar a Lisboa para mais uma semana de aulas. Arruma as suas coisas, enquanto a sua mãe prepara alguma comida para Ana levar. Quando tem tudo pronto, os pais levam-na à rodoviária, para apanhar o autocarro. Tem quase cinco horas de viagem pela frente. Sabe que volta passados quinze dias, mas o momento de ir embora custa sempre. O fim-de-semana passa a correr.

“Parece que ainda ontem cheguei e já tenho que ir embora. Parece sempre pouco tempo para quem tem tantas saudades para matar. Pode parecer ridículo para alguns, mas em quinze dias as saudades já são muitas. Não estou habituada a estar tão longe”, confessa Ana.

 

Matilde e Ana têm histórias diferentes, mas em comum têm o facto de estarem longe da terra onde sentem que pertencem. Ambas moram em Lisboa, mas não é na capital que se sentem em casa.

 

A mãe de Matilde, Maria, é natural de Oliveira de Frades, uma vila do distrito de Viseu, e foi lá que conheceu o marido, David. David sempre morou em Lisboa, mas costumava ir passar férias a Oliveira de Frades, porque os seus pais são naturais de lá. Conheceram-se enquanto eram jovens, namoraram e acabaram por casar. Na altura, Maria tinha acabado há poucos anos o curso de Engenharia Agronómica e trabalhava perto de casa. Achou que morar longe do marido, logo no início do casamento, não era o que queria. Assim, largou tudo e foi morar para Lisboa com ele. Mais tarde, fez um segundo curso em Matemática e conseguiu entrar no ensino. Atualmente é professora. Confessa que foi uma grande mudança, mas que já não se imagina a morar em Oliveira de Frades.

“Aqui, em Lisboa, já é a minha casa. Foi aqui que alcancei os meus objetivos: construí uma família, comprei e decorei a minha casa, arranjei um emprego de que gosto...”, conta Maria.

 

Apesar disso, Maria nunca perdeu a ligação à “terra”, como lhe chama. Vai a Oliveira de Frades sempre que pode, com o marido e as filhas. Refere, com um sorriso no rosto, que adora regressar, nomeadamente no Natal e nas férias do verão, quando a família toda se reúne.

“Tenho seis irmãos e, apesar de morarmos em sítios diferentes, reunimo-nos sempre em casa dos meus pais. Agora já temos todos as nossas vidas e as nossas próprias famílias, mas vamos sempre passar férias, todos juntos, à terra. Chegamos a ser mais de vinte à mesa. Claro que, ao fim de alguns dias, já estamos cansados da confusão, mas é muito bom. Espero que essa tradição não acabe e que a consigamos passar aos nossos filhos”, conta.

 

Voltando à viagem de Matilde e Ana, à medida que avançam em direção a Lisboa, uma de carro e a outra de autocarro, vão deixando de conseguir ver o verde que caracteriza as suas terras. Matilde continua a olhar pela janela e a pensar no que deixou para trás. Relembra os bons momentos com a família. Tem um duplo sentimento. Sente tristeza por o fim-de-semana ter acabado e ter que regressar a Lisboa, mas, por outro lado, sorri ao pensar que é uma sortuda por ter uma “terra”, como lhe chama, onde é tão feliz e onde acaba sempre por voltar. Ao longo da viagem, a tranquilidade da aldeia é substituída pela agitação dos carros na autoestrada. Enquanto isso, Ana começa a planear a sua semana de aulas. Nessa semana tem dois testes e um trabalho para entregar. As baterias estão recarregadas e as saudades atenuadas, para enfrentar mais quinze dias de trabalho que tem pela frente.

 

Maria já conseguiu passar para a filha Matilde o sentimento de pertença à “terra”. Matilde tem 15 anos. Nasceu em Lisboa, mas é a Oliveira de Frades que chama “terra”, tal como a mãe Maria. “Mesmo sem ter nascido lá, sinto que lá é que é a minha terra”, diz. Sempre que fala na “terra”, Matilde emociona-se. Conta que “uma vez na escola um professor pediu-me para falar das minhas férias e eu, ao falar na terra, comecei a chorar.”

“Pensar que faltam meses para voltar é triste”, confessa Matilde.

 

Quando é questionada sobre o que gosta em Oliveira de Frades, Matilde refere que gosta de tudo. Gosta do ambiente rural, com menos carros e menos prédios. Gosta das paisagens. “Gosto de acordar e ver a Serra da Gralheira, em vez de um conjunto de prédios”, diz. Gosta das idas ao rio com os primos. Gosta das pessoas. “Lá as pessoas conhecem-se todas e são simpáticas. Aqui em Lisboa, ninguém fala com ninguém”, desabafa Matilde. Gosta dos cheiros, como o cheiro da natureza e o cheiro da comida da avó. “Não há comida como a da minha avó. A única sopa que gosto é a dela. Talvez também porque os alimentos lá são diferentes. A carne é caseira e os legumes são biológicos”, conta. Gosta da lareira no inverno.

 

Matilde sonha poder ir viver para Oliveira de Frades quando crescer, mas quer estudar Ciências Farmacêuticas e considera que Lisboa é um sítio melhor para o fazer. Admite que em Oliveira de Frades haja menos oportunidades de emprego e de formação, mas não desiste da ideia de fazer vida lá.

 

Foi exatamente por esse motivo que Ana se mudou para Lisboa. Ana sempre viveu em Paços de Vilharigues, uma aldeia do concelho de Vouzela, que faz parte do distrito de Viseu. Quando acabou o 12º ano, decidiu que queria continuar a estudar. Sabia que teria que sair de casa para o fazer. Decidiu ir para Lisboa, estudar Jornalismo. Escolheu a capital por acreditar que tem um maior mercado de trabalho e mais oportunidades.

 

“A adaptação à cidade não foi muito fácil”, conta.

Para Ana, a realidade é muito diferente. Confessa que todos os dias, quando anda por Lisboa, na confusão do trânsito e dos transportes públicos, tem saudades da tranquilidade e da calma da sua aldeia. “A vida aqui é muito mais stressante e cansativa”, explica.  Apesar de passar a maior parte do tempo em Lisboa, é em Paços de Vilharigues que sente que é a sua casa. “Sempre que vou passar o fim-de-semana a Paços (de Vilharigues) digo ‘vou para casa’. Lá é que é a minha casa e acho que vai ser sempre assim”, conta Ana.

 

Ana refere que conta os dias para ir casa, para a sua aldeia. Não quer com isto dizer que não gosta de estar em Lisboa. Gosta muito do curso, dos colegas, com quem conseguiu estabelecer uma boa relação desde o início, e mesmo da cidade. Contudo, muitas vezes as saudades falam mais alto.

“Tenho saudades da minha família, do meu namorado, dos meus amigos e da minha cadela. Mas também de outras coisas mais materiais: do meu quarto, da minha cama, do meu sofá, das idas ao café com os meus amigos, da comida da minha mãe e da minha avó... Pode parecer cliché, mas só percebi a falta que isso tudo me fazia quando fui morar para tão longe”, explica.

 

Em relação ao futuro, Ana confessa que não pensa muito nisso. “Não sei se o meu futuro passa por Lisboa. Não sei se me encaixo aqui. Por enquanto estou por aqui, mas depois logo se vê. Não gosto muito de pensar nisso. Continuo a gostar mais de estar lá em cima (em Paços de Vilharigues) e de morar lá, mas é mais difícil arranjar emprego na minha área, no Jornalismo. Se surgir alguma oportunidade aqui aproveito”, refere. De uma coisa tem a certeza, more onde morar nunca vai perder a ligação com a sua terra e a vontade de voltar.

 

A viagem chegou ao fim. Matilde e Ana já chegaram a Lisboa. Ana saiu apressada do autocarro, porque ainda tem que apanhar o metro para ir para casa. A confusão de Lisboa e o ritmo acelerado das pessoas e dos carros relembra-a que o fim-de-semana acabou e que está de volta à rotina. Matilde adormeceu a meio da viagem, entre a saudade e o sono. Quando acordou já não via as árvores e o verde da Serra da Gralheira. Essa paisagem deu lugar aos prédios e às luzes da cidade. Resta a Ana e Matilde contarem os dias para regressarem à “terra”. Com o decorrer da semana, com as aulas, os amigos e a rotina, as saudades e as memórias ficam guardadas, mas nunca são esquecidas. Para elas, as suas terras ficam longe da vista, mas estão sempre perto do coração.