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Inocência que não volta

Um testemunho de Daniel Silva. Um jovem Viseense crescido no seio de uma familia de etnia cigana. Para além da fuga aos valores e tradições que lhe foram incutidos ao longo da sua vida, o jovem recorda uma infância marcante

18 dez 2016, 19:03 Jéssica Marques
Daniel Silva

“Haverá sempre a mesma criança em mim só que não brinca o que brincava. Eram tempos de inocência e só quando cresci é que me apercebia disso, quando se é pequeno não se tem a noção do que é o casamento”, Daniel Silva.

 

Daniel nasceu e cresceu em Viseu no seio de uma família de etnia cigana. Um jovem de 20 anos que se define como sendo um adolescente como todos os outros mas que guarda um dos mais íntimos segredos desde a sua infância. 

 

Um jovem de estatura média mas com capacidade de chegar aos mais altos objectivos que tem traçado ao longo da sua vida. No seu corpo carrega uma série de tatuagens a negro que contam histórias e vivências marcantes que confessa não desejar a ninguém. Para além da tinta em tom escuro que tem marcada na sua pele transporta na sua mente uma imagem, também a negro, do bairro onde cresceu até aos 18 anos. Cabelo rente, pouco maior do que a sua vontade de expressar em palavras as suas passagens enquanto criança naquele bairro social.

 

Encontrávamo-nos no jardim em frente ao seu prédio, um dos mais indesejados da cidade de Viseu, no conhecido bairro da Balsa. Daniel recorda que em tempos só passava naquele bairro quem fosse de etnia cigana ou que fosse conhecido das famílias que ali residiam.

 

“Hoje já não é assim tão agressivo”, salientou.

 

Difícil seria não se recordar da sua infância. Daniel relembra os seus anos mais tenros como sendo os melhores que já vivera. Ao mesmo tempo é neles que residem as mais obscuras lembranças. Hoje em dia está emigrado em Londres, no Reino Unido. Aos 18 anos decidiu que não era em Viseu que queria construir a sua vida e posteriormente uma família. Conta que para além de ter deixado para trás o seu bairro e os seus pais e amigos, deixou também uma marca bastante saliente na sua vida: a etnia cigana.

 

Daniel escolheu deixar para trás os valores e tradições que toda a sua vida lhe foram incutidas da etnia em que crescera até então. Foi uma decisão difícil. Mas Daniel recorda que à medida que cresceu e começou a entender o que o rodeava começou a ser crítico e a discordar com diversas situações em que se encontrava.

 

“A vida cigana não é para mim, não queria crescer no meio de delinquentes e ganhar a vida a vender droga ou a roubar. Os meus primos combinavam roubos entre outras coisas à minha frente e eu nunca alinhei, não queria acabar preso como muitos deles acabaram”, confessou o jovem.

 

Daniel recorda uma das pessoas que mais o marcaram na sua infância, a sua melhor amiga Soraia. Ela que, por entre conversas e brincadeiras, tinha os mesmos ideiais que Daniel ou seja, escapar a um rumo que não queriam seguir.

 

Relembra um momento marcante com uma voz tremida e um olhar nostálgico sobre o seu passado. A certo dia, Daniel encontrava-se com o seu grupo de amigos no mesmo jardim onde nos encontrávamos quando um dos mesmos colegas sugeriu que invadissem a central rodoviária de Viseu nessa noite, que se situa mesmo ao lado do Bairro da Balsa. A invasão teria de ser feita a partir das 02h00 da manhã em jeito de não encontrarem ninguém que os pudesse apanhar em flagrante. Daniel recusou entrar no esquema dos colegas e foi chamado de “maricas” e intitulado como não sendo um cigano de raça pelos próprios amigos.

 

No entanto, o grupo prosseguiu com o assalto. No dia seguinte, Daniel foi confrontado pelos seus pais acerca do assalto da noite anterior pois os seus amigos encontravam-se na esquadra pelo facto de terem sido impressionados pela polícia. Daniel contou a verdade e disse que não tinha nada a ver com o sucedido naquela noite.

 

Ainda no mesmo jardim conversávamos rodeados por crianças e lembranças frias como as que Daniel relembra em sintonia com o tempo que tradicionalmente se faz sentir na cidade de Viseu nesta altura.

 

Naquele momento recebeu uma chamada telefónica. Era a sua amiga de longa data, Soraia. Convidava Daniel para um café pois o pouco tempo de férias que tinha até então em Portugal estaria a chegar ao fim. Por falar em convites, até poderíamos visitar o interior da residência do jovem em questão mas foi-nos negada a entrada por uma razão. Nunca esquecendo a mentalidade do povo cigano: as raparigas que não as noivas dos filhos não podem, em qualquer circunstância, entrar no “muy nobre lar” dos familiares, salvo a excepção de que o pai ou “homem da casa” assim o autorize.

 

No entanto, Daniel olha para a sua decisão e não podia estar mais satisfeito. Ainda assim, ao sair da etnia cigana por completo, não esquece a sua família, apesar de residir em Londres, sempre que pode, regressa a Portugal para rever os pais e amigos. Mas a sua relação com os seus pais alterou-se a partir do momento em que, mais tarde, se apercebeu do que se teria passado na sua vida.

 

Daniel não tenta esquecer o maior segredo que guarda porque garante não o conseguir fazer por mais que tente. Relembra que na “vida cigana” há certas tradições e valores muito diferentes da vida das outras pessoas. Em relação à família, o comando é exercido de maneira completa e responsável pelo homem. Ele é o líder e a ele competem a proteção, a segurança e o sustento da família. A mulher e os filhos respeitam-no com máxima autoridade e são-lhe inteiramente subordinados. São os homens que resolvem as pendências, acertam o casamento dos filhos, decidem o destino das viagens e reúnem-se em conselhos sobre assuntos abrangentes e comuns a toda a etnia.

 

Recuámos novamente à sua infância, Daniel relembrou com um peso no olhar que quando atingiu os 12 anos de idade foi surpreendido pelos seus pais. Disseram-lhe que nunca poderia arranjar algum tipo de desentendimento com Soraia, a sua melhor amiga desde sempre e que se algum dia o fizesse, teria de recompor a situação imediatamente pois era com ela que ele iria “viver para sempre” – palavras dos mesmos. Daniel relembra que levou o que lhe foi dito com entusiasmo pois Soraia era a sua melhor amiga e não seria mau viver com ela.  

 

Mas mais tarde, apercebeu-se que o que se estava a tratar era mais grave do que uma simples brincadeira de crianças. O pai de Soraia teria prometido ao pai de Daniel que a sua filha iria casar com Daniel a troco de dinheiro. Era grave. Daniel acarretou com a ideia até se aperceber do que realmente se estaria a passar. Não chegou a casar com Soraia pelo facto de ter atingido os 18 anos e os dois terem recusado o casamento e assim “desrespeitarem” as tradições do povo cigano.

 

Levantámo-nos do banco do jardim onde nos encontrávamos e Daniel guiou-nos a passo lento a um dos locais onde guarda grandes memórias com Soraia: um pequeno pátio desviado do bairro da Balsa. Nesse pátio encontravam-se algumas crianças de etnia cigana com uma coluna de som onde se poderia ouvir uma música em que a letra falava por elas, “Mesmo sem zoom, toda a gente os via lá no sítio do costume, eram tempos honestos, todos só por um, a rua tinha outro perfume. O tempo não volta apenas volta a vontade de voltar atrás”, que pelas palavras de Daniel, a letra em questão foi produzida por um rapper de etnia cigana que fez bastante sucesso na cidade de Viseu e que é reconhecido por muitos jovens devido ao facto de retractar infâncias perdidas.

 

Naquele pátio, Daniel relembra que era como um refúgio do resto do mundo. Onde teve as conversas mais confidenciais com Soraia, onde surgiram as brincadeiras mais marcantes e onde teve os seus momentos de solidão. Ali poderia estar no seu mundo onde pensou e repensou na hipótese de emigrar para longe dali e poder construir uma vida dita normal como todos os outros jovens.

 

Voltamos à sua infância, à sua temível infância. Daniel sempre estimou a grande amizade que tinha com Soraia, e, segundo palavras do jovem foram passagens que lhe deixaram traumas no que toca a relacionamentos. Contudo os anos passaram e as duas crianças que eram na altura cresceram e tomaram consciência do meio em que estavam metidos. Por entre as linhas do tempo e por entre segredos de famílias, a química que ligava Daniel a Soraia não era meramente por acaso. “Só depois é que me apercebi que o que me unia à Soraia não era apenas a amizade. Eu sentia que algo mais forte nos mantinha próximos”. E a razão era óbvia: os laços que unem Soraia a Daniel são os laços de irmãos. Mas irmãos de pais diferentes. Sempre cresceram os dois porque os pais de ambos os lados assim o quiseram na esperança de que aquelas crianças nunca viriam a descobrir os verdadeiros laços que as uniam. Tudo por dinheiro e interesse entre famílias. “Não foi justo e quando descobrimos quisemos desaparecer de vez deste sítio. Sinto que nem hoje, nem nunca mais vou conseguir esquecer este mal terrível que trago na cabeça”, explicou.

 

A etnia cigana trouxe a Daniel tudo aquilo que ele não queria ser nem o que ele queria fazer para a sua vida. Lembra-se que no recreio da escola se não fossem os seus primos, estaria sempre sozinho porque “os outros miúdos não se chegavam aos ciganos, achavam que eramos sujos e que tínhamos piolhos”, afirmou. Por estas e por outras, o jovem explicou que o povo cigano dificilmente irá algum dia “misturar-se” com o resto das pessoas pois segundo as palavras do seu pai, “os ciganos não se esforçam por quebrar as barreiras que nos separam do resto do povo, talvez por saberem que se abrirem os limites dos nossos acampamentos aos não-ciganos, a mistura dos povos será inevitável, as tradições perderão a sua pureza, os costumes, os hábitos, os princípios e os valores serão de tal maneira modificados que acabariam por destruir e matar o muy nobre povo cigano.”

 

Sempre a caminhar em marcha lenta, deixámos para trás as crianças e a música que se ouvia em tom alto nas colunas para chegarmos novamente à parte da frente do seu prédio onde desde início conversávamos. Sentámo-nos. Daniel suspirava e olhava em seu redor, em silêncio observava as paredes grafitadas que formavam ruas pelas quais vagueou durante grande parte da sua vida.

 

Notava-se um certo receio e tristeza na sua voz ao recordar alguns momentos dolorosos. Mas ao mesmo tempo uma forma de libertação ao desabafar sobre os problemas que o atormentam.

 

Lembra-se dos costumes e tradições da etnia cigana? Eles assombram Daniel à medida que vai contando partes da sua história de vida. Chegámos finalmente à parte em que Daniel revelou o maior segredo que manteve guardado durante toda a sua vida.

 

O segredo que carregou e apenas mais um dos fortes motivos que o fizeram a desistir da vida que levou até atingir os 18 anos. Para além da mágoa que teve de ultrapassar em relação a Soraia e aos traumas que o suposto casamento lhe viria a trazer, Daniel assumiu a sua homossexualidade há poucos meses. Relata com um peso na consciência de que perdeu grande parte dos seus amigos que com ele cresceram naquele bairro e que, para além dos seus pais terem aceitado com muito custo esta notícia que o seu filho tinha para dar, Daniel sente um afastamento da família.

 

Os traumas que ficam foram imensos. Descobriu a sua orientação sexual desde cedo e apenas Soraia sabia disso. Mais ninguém duvidava dessa notícia que viria a ser uma desilusão para a sua família.

 

Daniel começou a fazer tatuagens no seu corpo como forma de se expressar sem ter que explicar por palavras o que estava a sentir ou o que tinha para desabafar ao mundo. A sua última tatuagem foi a de uma rosa com espinhos, a negro, com a letra “S” incutida e em torno da rosa tatuou uma citação, “Todo o Sangue Bom, Está Todo Num Tom” ao que Daniel explica que a letra “S” é o nome da sua irmã Soraia, a rosa com espinhos significa a sua orientação sexual pois desde que assumiu ser homossexual a sua vida tem tido muitos “espinhos” e por fim a citação é dedicada à sua irmã e melhor amiga de infância, que, apesar de terem passado por muitos períodos negros:

 

 “Deus soube o que fez e ele fez-nos irmãos, nunca nos poderíamos casar ou entrar nos esquemas estúpidos das nossas famílias”, disse.

 

Ganhou uma irmã na sua melhor amiga, sonho de muitos amigos hoje em dia. Mas o seu caso era especial. Apesar de todas as barreiras, Soraia, mais do que ninguém apoiou Daniel desde o primeiro dia e com a promessa de que continuará até ao último.

 

Daniel está prestes a abandonar Portugal novamente, o seu rumo chama ao dever. No seu testemunho revelou que a tradição cigana é muito rígida no que diz respeito ao casamento.

 

“As crianças ciganas, normalmente as moças, são prometidas, desde muito novas, aos seus futuros noivos e eu fui uma dessas vítimas”, confessou.

 

Na sua opinião o que acontece com as crianças ciganas é extremamente grave pois retiram-lhes a possibilidade de encontrar um rumo independente nas suas vidas e “é preciso muita força para conseguir seguir um caminho contrário ao que nos é traçado desde muito cedo”, disse o jovem.

 

“Aos 12 anos já tinha casamento marcado. Sempre que digo isto em voz alta, apetece-me chorar. Isto tem de acabar”, um testemunho de Daniel Silva.