O som da mudança
Não é obrigatório parar quando a vida muda. A necessidade de bem-estar e reencontro pessoal é muitas vezes a principal razão para encontrar uma nova ocupação, um novo estímulo.
Com carreiras e histórias de vida diferentes, a força de vontade e motivação é o factor principal na vida de muitas pessoas que acordam prontas para dar aos outros o melhor que podem, e sentirem-se bem numa altura em que o cansaço de uma vida inteira pode ter um peso demasiado alto.
“Foi o pior momento da minha vida. Não queria acreditar que aquilo me estava a acontecer… Nem a ele. Perdemos os dois a vida naquele dia, a diferença é que o meu corpo ficou por cima da terra e o dele por baixo”. É assim que Guilhermina descreve o dia em que recebeu o telefonema com a notícia da morte do seu único filho, num acidente de mota.
Mãe solteira, agora com 59 anos, perdeu o seu filho há 8. Viviam os dois, sozinhos. Não tinham familiares próximos mas sempre foram felizes – garante. O pai do seu filho abandonou-os antes do seu nascimento. “O meu filho era a minha companhia. A minha vida. Ia começar agora a trabalhar, concretizar o seu sonho. Estava a vir para Lisboa quando tudo aconteceu. Nunca gostei que ele andasse de mota, mas a verdade é que este foi o único acidente que teve.”
Ainda inconformada com a morte do filho, “Mina” como este a tratava, acorda todos os dias a desejar que lhe digam que foi tudo uma brincadeira, “perdoaria todos os autores desta partida se me dissessem que era isso que estava a acontecer”. Põe o seu batom preferido. Maquilhar-se é uma forma de mascarar a dor que sente, disfarça as olheiras das noites mal dormidas e as rugas das horas passadas a chorar. Todas as manhãs vai tomar o pequeno-almoço com uma vizinha amiga.
Depois de dar um pequeno passeio volta a casa para fazer o almoço. É por volta das 14h, depois de almoçar, que sai de casa e apanha o metro que a leva até à faculdade. “Quando chego à faculdade e vejo as minhas alunas é sempre uma alegria muito grande. Elas tornaram-se a minha família”.
Após a morte do filho, Guilhermina sentiu-se desamparada. A depressão levou-a a reformar-se por não ter condições psicológicas para trabalhar. Através das suas vizinhas soube da possibilidade de dar aulas a idosos e com isto de ter uma ocupação durante maior parte do dia. “Lá no bairro toda a gente sabia que eu adoro ensinar, dei explicações durante vários anos. Eu não entrei na faculdade porque os meus pais não tinham dinheiro para pagar mas até ao 9º ano consigo perceber tudo. Trabalhei sempre a fazer artesanato e adorava. Tive um período em que não conseguia trabalhar, só chorava, mas com a ajuda dos psicólogos consegui tornar-me mais forte.” Conta, pela primeira vez, a sorrir.
Juntando a sua profissão com o gosto por ensinar lançou, no centro onde dá aulas, uma disciplina de artesanato onde os alunos aprendem a fazer pequenas peças. “Todos os dias é um “fartote” de rir. As aulas dão-me essa alegria… Não pensar no que mais amo e perdi.”
"Perder o meu filho foi o maior golpe que a vida me podia ter dado. Felizmente tenho gente que todos os dias me tira do foco do meu pensamento o meu filho, nunca deixo de pensar nele mas penso nele de outra forma. Dar aulas dá-me muito, a mim e a ele que me vê entretida"
Ensinar é um escape à solidão que sente. Preenche-lhe os dias, de todas as formas. Fazer voluntariado, para Guilhermina, é a única forma de se sentir útil. “O voluntariado surgiu da necessidade de não pensar na minha vida. Antes de começar a dar aulas achava que só ia mesmo passar o tempo, até porque não ganhava nada. Mas ganho, e ganho muito. Todos os dias aprendo um pouco. É como dar um passo à frente no enorme recuo que a minha vida teve de repente.”
Para Mina, esta função é agora encarada como uma necessidade. “Faz-me bem levantar todos os dias e pensar que não vou ficar em casa fechada. Eu adoro o conversar, adoro ensinar-lhes o que sei, mas acho que recebo muito mais delas do que elas recebem de mim. É por isto que não me considero mais que elas, porque se há alguém que é mais que alguém são elas em relação a mim. Eu podia dar aulas à vontade que, se elas não gostassem de ali estar, não me servia de nada, e se elas não me dessem o que me dão eu também não me sentiria bem lá.”
O que o voluntariado lhe dá completa-a. O toque para entrar nas aulas e começar a parte do dia em que se sente - minimamente - feliz é o som das suas leves horas de bem-estar pessoal.
O som da campainha indica o início e o final das aulas, como em qualquer escola secundária.
Num prédio bastante antigo, a Universidade Internacional para a Terceira Idade situa-se no centro de Lisboa.
No primeiro piso da escola, com uma entrada pequenina que faz lembrar um esconderijo, situa-se um ateliê dedicado à construção de barcos de madeira feitos à escala. O professor é tratado por mestre. Com quase 90 anos, ensina com grande vontade e motivação a grande paixão da sua vida. No final de cada ano organiza uma exposição dessas obras, num museu que é seu. Cada barco é especial, e é com orgulho que mostra fotografias de todos os que já construiu, os materiais com que trabalha e as obras que estão a ser produzidas.
Subindo as escadas, e passando pelos cacifos dos professores, está um hall. É a sala de convívio da universidade. De um lado uma sala de aula e do outro a direção. Não há qualquer distinção entre alunos, diretores ou professores, todos se cumprimentam. Existe amizade entre todos, mesmo entre os que não se conhecem. O ambiente transporta-nos para um enorme companheirismo. Os horários e informações estão expostos assim como os trabalhos de pintura do atelier. Existe uma sala dedicada a esta arte, à bijuteria, estúdios e salas normais.
Faltam 10 minutos para a aula de inglês I começar, alguns alunos já estão dentro das salas e outros convivem no hall. A professora já entrou. A secretária é antiga e a sala está rodeada de paredes brancas, preenchidas por mapas, ou janelas que permitem uma iluminação clara e total. Com o computador aberto e a folha de presenças à sua frente, a professora está pronta para ouvir o toque de entrada.
Os primeiros 5 minutos da aula servem para discutir quem vai ao almoço de natal, e qual o melhor local para o organizar. Já depois disso, começam por se corrigir os trabalhos de casa e, entre dúvidas e respostas acertadas, toda a gente participa entusiasticamente. A professora Dulce é a preferida para estas aulas. Também ela professora voluntária, a universidade dá-lhe força para ultrapassar os momentos menos bons.
“La culpada es la madre” é esta frase que a faz acordar diversas vezes durante a noite. A saúde do filho mais velho já pregou diversos sustos a esta mãe que vive com o coração nas mãos e problemas de consciência desde que um médico lhe disse que a culpa era dela, dos seus genes.
A enorme preocupação diária e os problemas de saúde que enfrenta podiam levar a que, com 70 anos, se tornasse numa pessoa deprimida e cansada – segundo a própria – mas não. Dulce levanta-se todas as manhãs e entre os comprimidos do início da manhã e do pequeno-almoço, arranja-se e sai de casa. Sempre bem vestida e maquilhada, gosta de se sentir bonita. A fibromialgia, doença que descobriu em 2006, impede-a de conseguir lavar o cabelo e, por isso, não dispensa ir ao cabeleireiro todas as semanas.
Nem sempre a vida de Dulce foi tão calma quanto agora. Profissional na área do turismo, considerava-se uma viciada no trabalho. O sucesso da empresa onde trabalhava sempre foi o seu foco, o que muitas vezes teve impactos negativos a nível pessoal. “Uma mulher à frente de uma equipa nem sempre é bem visto, há muita inveja e muita maldade. Tentaram estragar-me a vida várias vezes, passar por cima de mim, prejudicar-me. Por vezes quem em sorria era quem mais mal me fazia. Mas eu sabia quem eram as pessoas, e sabia o que faziam”.
Em 2004, Dulce começou a sentir-se cansada, com dores anormais e desconfortáveis. Nessa altura decidiu ir ao médico e só dois anos depois foi descoberto que sofria de fibromialgia, doença do qual ainda pouco se conhece.
“Os médicos diziam que eu não podia parar, tinha que fazer alguma coisa, até porque eu não consigo estar parada muito tempo. Gosto de estar sempre a fazer alguma coisa.” Sempre foi uma mulher sociável e com imensa energia e não queria ficar fechada em casa. Foi através da mãe da cunhada que soube da existência de uma universidade para a terceira idade. Com a ideia de querer aprender decidiu inscrever-se.
“Na inscrição tínhamos que explicar um pouco da nossa vida, tanto académica quanto profissional, e foi enquanto estava a fazer isso que o diretor da universidade apareceu e me perguntou se eu sabia falar inglês. Por ter sido profissional de turismo, e ter viajado muito e falado com muitas pessoas, respondi prontamente que sim. Ele propôs-me que o meu papel fosse o de professora e não de aluna. Nunca tinha pensado nisso mas aceitar foi o meu primeiro pensamento.”
A função seria em serviço de voluntariado mas nem isso a demoveu. Há 7 anos que é professora de Inglês I, inglês II e seleta literária. Embora a função não seja remunerada, é uma função da qual recebe muito. “A minha cabeça sempre foi muito ativa e por isso tenho muita facilidade em aprender”. Surgiu de forma inesperada na vida dela mas não faz parte dos seus planos abandonar.
“Eu gosto muito do que faço. Nós somos mais do que professores e alunos, somos como amigos. Aquilo que eu faço não é dar aulas, eu estou inserida numa reunião de amigos em que eu lhes ensino a eles o inglês, por exemplo, mas onde também aprendo muito com as histórias que tem para contar. Eu recebo, a fazer voluntariado, mais do que receberia em termos monetários. Nesta altura da vida isso é mais importante.”
Dulce afirma que, até mesmo nos dias mais complicados, quando tem mais dores e menos forças, são as suas aulas que lhe dão a motivação para se levantar e não se deixar vencer pela doença. “As aulas são a minha salvação, uma cura momentânea nos dias mais complicados. Nos dias em que estou pior, que quase não me consigo mexer, tomo o meu comprimido SOS, e lá vou eu… Durante as duas horas em que dou aulas não me lembro das minhas dores e quando lembro desligo sempre. Eles já me conhecem, já sabem quando estou mal. Às vezes são os próprios a perguntar porque é que vou dar aulas. Mas eu sou assim.”
“Eu não sei o que a minha família pensa sobre o facto de eu dar aulas. Sabem que dou aulas, sabem o que faço e sabem da minha doença. Agora, o que acham de eu conseguir fazer isto? Não sei, nunca me disseram o que pensavam sobre isso e eu também nunca perguntei. Às vezes gostava que a família fosse mais unida, tenho 4 netos e dois filhos.”
“Se pudesse fazer voluntariado na área do turismo, adorava, tenho muitas saudades. Mas dar aulas é algo que gosto muito e os meus alunos já são como meus companheiros do dia-a-dia. No final das aulas fica sempre um sentimento de preenchimento, tanto para mim como para eles.”
Não sente que a solidão seja um problema. Felizmente [refere] está rodeada de pessoas amigas que a preenchem. O voluntariado apareceu de surpresa na sua vida mas não tenciona abandoná-lo. Nos dias em que dá aulas esquece tudo o que a preocupa. As dores e preocupações só dão sinal o final do dia.
A campainha toca para a saída. Quando acabam as aulas os alunos despedem-se da professora. Uns com beijinhos, outros apenas com palavras. A professora não sai da aula. Segue-se o Inglês II.
“Can I?”, pergunta um aluno. Esta aula é lecionada inteiramente em Inglês. Mais uma vez com a sala cheia, Dulce começa por corrigir os trabalhos de casa. Sente-se uma grande ligação com a professora. O respeito aluno-professor confunde-se com o respeito entre amigos. E tudo resulta muito bem. A aula é animada sem nunca perder a seriedade que lhe é necessária. O objetivo não é só ensinar. É partilhar, é dar e receber de ambas as partes. Aqui os alunos conhecem a professora, sabem os seus problemas, e ela conhece-os como de amigos de longa data se tratassem.
A hora da aula passa a correr para quem faz parte dela. Entre dúvidas e respostas confiantes, os alunos partilham opiniões e ideias.
Volta a ouvir-se a campainha. As aulas de inglês acabaram por hoje.
O despertador de Natália toca. Todos os dias à mesma hora. Com 76 anos, e reformada há 24, toma conta dos seus netos quando o horário dos pais não o permite. Depois de os acordar, vestir e dar o pequeno almoço leva-os à escola. Tomar café de manhã é obrigatório. Fala com todas as suas vizinhas, vive no mesmo sitio há muitos anos, e vai para as aulas de Xi Chung.
“Eu costumo dizer que na vida não há acasos, há determinismos. Conheci um dia um senhor no jardim que estava a praticar Xi Chung. Perguntei-lhe de que se tratava, e depois de perceber que também eu gostaria de praticar falei com o grupo onde pertenço, no sitio onde vivo, e aceitaram prontamente abrir uma turma.”
Este género de arte marcial ensina-a a aceitar-se e tentar melhorar. Ajudou-a a aceitar a condição de reformada e todas as inquietações que isto comportava. “Aprendi que viver é como ler um livro”
É já depois do almoço que Natália se desloca até uma das duas associações onde é voluntária. Em ambas é professora.
Já o era antes de se reformar e, por essa razão, esteve sempre inserida nos projetos da associação dos professores. Dois anos antes de se reformar decidiu desenvolver um projeto cultural. Embora a associação se preocupasse com todas as funções da profissão, e da defesa dos direitos e deveres, fazia falta uma vertente que se preocupasse com o lazer e a ocupação dos tempos livres. “Senti uma alegria enorme quando me reformei porque sabia que ia fazer coisas diferentes, que me preenchiam muito.”
Após a reforma decidiu ser aluna de ‘fundação de Portugal e ordens militares’. Frequentou estas aulas durante 6 semestres. Uma vez por mês, a turma de Natália organizava visitas de estudo para reconhecimento de património e para isso era sempre necessário contratar um guia para essas mesmas viagens. “O senhor levava muito dinheiro e ao princípio houve grande entusiasmo mas era muito caro. Eu ia sempre, ouvia o que ele dizia e depois dos semestres pensei que também conseguia fazer aquilo. Aprendi imenso primeiro, tinha que fazer pesquisas também.” Natália percebeu que tinha capacidade para fazer mais do que somente aprender.
“O voluntariado é uma maneira de me sentir plena e realizada. Viver só para mim nesta altura é uma forma errada de viver a vida e acabar os meus dias. Ao ser professora voluntária recebo muito mais do que receberia em dinheiro. Faz-me crescer e encontrar um rumo para a vida.”
Natália encontra no voluntariado uma forma de provar a si mesma que ainda tem capacidades de fazer algo que não se acharia capaz. “Na família encontramos a nossa âncora mas é fora dela que encontramos desafios. Nestes últimos anos pus-me à prova, venci muitos desafios, também perdi alguns mas é assim que se aprende e que se é melhor.”
Dar aulas não é só ensinar, é partilhar. Recusa o título de professora, embora o seja. O que acontece dentro da sala de aulas é uma palestra, uma conversa leve onde tudo o que transmite e partilha é feito com a maior alegria e motivação.
Manter a cabeça ocupada nunca foi uma preocupação até porque sabe ter ainda uma capacidade de resposta enorme. Sempre foi uma mulher com uma mente bastante jovem e fresca. “A minha cabeça sempre me deu provas que me consegue surpreender, aprender e experimentar. Mas também tenho a plena noção de que se não tiver rotinas me acomodo. O sofá para mim é uma prisão encantatória mas nada satisfatória. Para mim é melhor partilhar e chegar ao fim do dia com uma sensação de leveza, de bem estar, do que ver um programa de televisão.”
Além da associação de professores, Natália também dá aulas num clube em Telheiras. “Visitamos sítios, vamos a exposições. As pessoas gostam muito desse tipo de coisas”
No final do dia, além do sentimento de realização pessoal, chega a casa e volta ao seu papel de diário de avó. Só quando o relógio marca a hora das crianças se deitarem é que Natália descansa e tem tempo para si. “Eu prefiro estar sempre entretida do que estar parada. Sinto-me útil e isso é bom”
Toca a campainha, começa uma nova aula.
Os alunos de inglês II despedem-se da professora já fora da sala de aula. Nesta altura, essa começa a encher-se de outros alunos que irão assistir a outra aula certamente com o mesmo ânimo que os de Inglês I e II.
"Até amanhã se Deus quiser" é o que mais se houve. Tanto quem aprende como quem ensina não quer que aquele seja o último dia, e deseja ver todas aquelas pessoas o mais breve possível. São uma família. E é este sentimento que faz com que todos se sintam tão bem nesta que é uma das centenas de universidades para a terceira idade espalhadas pelo pais.